O HOMEM QUE ESQUECEU O PASSADO
KONSALIK


1

Nessa tarde de sexta-feira dia 23 de Junho de 1923, o 
funcionrio da Caixa Econmica Pieter van Brouken dirigia-se 
a passos rpidos para sua casa, seguindo ao longo da Nieuwe 
Heerengracht, junto do Jardim Botnico de Amesterdo. Era um 
homem de estatura mediana, alegre, confiante, impecvel, um 
pai de famlia de trinta e cinco anos para o qual o mundo se 
resumia a sua mulher, Antje, e a seu filho, Fietje.
Modesto relativamente a todas as necessidades da 
existncia, funcionrio consciencioso, cujo rosto reflectia 
uma vida calma e equilibrada, nunca lhe teria ocorrido ao 
esprito ser outro homem diferente. Sentia-se bem tal como 
era, com o seu vencimento mensal pouco elevado, embora 
sentisse no seu ntimo a aspirao de vir um dia a ser 
proprietrio de uma casinha na aprazvel regio de Amstel.
Era uma tarde quente e ensolarada de Junho. O ar 
vibrava, sobreaquecido, sobre o asfalto das ruas. Os 
contornos das casas imponentes pareciam de uma preciso 
singular e, se se fitava o asfalto, ele brilhava, quase 
cegando e fazendo doer os olhos. As grandes rvores do Jardim 
Botnico e as sombras que lanavam sobre os bancos pintados 
de branco atraam-no, mas Pieter tinha pressa de chegar a 
casa.
Ia anunciar  mulher, Antje, uma notcia muito importante. O 
seu vencimento tivera um aumento de trinta e cinco florins 
por ms! Um zelo constante, uma meticulosa exactido, acabara 
por dar finalmente os seus frutos. Sentia-se orgulhoso por 
ter conseguido chegar quele resultado  custa de trabalho e 
de pontualidade. Ao percorrer o longo caminho que conduzia  
Noorderstraat, alegrava-se j com os gritinhos de satisfao 
que a sua encantadora Antje soltaria. Alm disso, levava no 
bolso um presente para Fietje, um beb de ano e meio, um 
macaquinho de borracha que guinchava quando se lhe apertava a 
barriga.
Quando Pieter van Brouken, depois de descer a Nieuwe 
Heerengracht, chegou  extremidade do Jardim Botnico, sentiu 
subitamente um estranho peso na nuca e uma leve vertigem. Os 
seus passos tornaram-se incertos e um ligeiro vu cobriu-lhe 
os olhos.
Ofegante encostou-se a uma rvore e baixou a cabea.
"Que maada!", murmurou para si. "Outra vez esta 
impresso no corao! Preciso de consultar um especialista. E 
este calor! Nem o corao mais slido resistia!"
Aspirando profundamente, encheu a caixa torxica e 
deixou-se ficar apoiado  rvore, de olhos fechados.
O crebro vacilava. Sentia-se mole e infinitamente cansado. O 
peso na nuca causava-lhe uma espcie de entorpecimento, de 
que tinha dificuldade em se libertar, e do peito subia-lhe 
uma sensao de nusea que lhe chegava  garganta. Teve 
vontade de vomitar e conteve-se.

"Que idiotice!", resmungou Van Brouken. "Que idiotice esta! 
Talvez... talvez seja uma insolao. Mas porque razo sentirei 
este peso na nuca? Sinto-me como que embrutecido... No direi 
nada a Antje. Caso contrrio, chama o mdico a casa e seria um 
aborrecimento.
Apoiou a cabea  casca spera da rvore e esperou que a 
crise passasse. Ficou de p, com os olhos fechados, um pouco 
oscilante.
Uma rapariga que passava parou, voltou-se, hesitou um instante e 
dirigiu-se para ele.
- Sente-se mal? - perguntou, preocupada, tocando-lhe ao de 
leve num ombro.
- Um pouco - respondeu Van Brouken com voz pastosa. - Um 
pouco, obrigado.  deste calor.
- Posso ser-lhe til? - perguntou a jovem aproximando-se 
mais. - Quer que eu v buscar-lhe gua ou chamar o mdico? H um 
que tem o consultrio ao fim da rua... O melhor seria sentar-se. 
H um banco aqui perto...
Pieter van Brouken disse que sim com a cabea.
O seu calmo rosto de funcionrio mostrava-se plido e um pouco 
vincado.
- Est bem, vou sentar-me num banco - murmurou. - Peo-lhe 
que me ajude a ir at l; de repente, parece que sinto as pernas 
insensveis... No consigo andar sozinho... podia cair.
A rapariga agarrou-o com fora por um brao e conduziu-o 
lentamente, passo a passo, at a um dos bancos pintados de 
branco. Foi-lhes necessrio muito tempo para percorrerem a curta 
distncia. Pieter van Brouken deixou-se enfim cair no banco. Um 
suor frio escorria-lhe da testa e introduzia-se pelo colarinho 
branco engomado.
- Agradeo-lhe de todo o corao... - balbuciou, 
estendendo-se para trs. Mas vendo que a jovem desconhecida no 
se afastava e que olhava  sua volta, procurando auxlio, mentiu:
- Estou muito melhor, o peso que sentia desapareceu. No se 
atrase por minha causa, menina. O seu namorado estar certamente 
 sua espera e os homens no gostam de esperar... Mais uma vez, 
muito obrigado!
A rapariga afastou-se, hesitante. De vez em quando, voltava-se, a 
fim de olhar para o banco. Finalmente, desapareceu  esquina da 
Heerengracht. Van Brouken respirou, aliviado. "Nada de 
histrias", pensou. "Sobretudo nesta altura, que vou ser 
promovido e aumentado. Antje deve regozijar-se com isso e ignorar 
o que se est agora a passar comigo. Hei-de ir ao mdico. No 
entanto, desejo antes disso comprar uma casa  beira do Amstel, 
com trs ou quatro quartos voltados para o rio e um jardinzinho 
onde Fietje poder brincar. Talvez possa ter tambm uma pequena 
horta e um pomar... Enfim, veremos, com o tem...."
Se ao menos aquele terrvel peso da nuca desaparecesse! E 
depois aquele vu que permanecia diante dos seus olhos. Sentia os 
membros pesados como chumbo e estava cansado... terrivelmente 
cansado.
" cansao", diagnosticou Van Brouken; "sim,  o cansao de 
passar a vida a alinhar algarismos. E a responsabilidade que isso 
envolve gasta-nos!"
Fechou de novo os olhos e pousou a cabea dorida no encosto 
de madeira do banco.
Depois deixou de ter conscincia fosse do que fosse e 
adormeceu profundamente.

A Nieuwe Heerengracht vibrava com o rudo do trnsito e com 
os passos dos transeuntes sobre a calada, mas Pieter van Brouken 
nada ouvia.
O seu sono era um abismo sem fundo.
Na sua pequena cozinha, que dava para a vasta e clara sala 
de estar, Antje van Brouken lavava chvenas e pratos. Limpou a 
loua do pequeno-almoo e colocou o servio de caf em cima da 
mesa, pois Pieter devia estar a chegar a todo o momento. Ao mesmo 
tempo e entre as grades de madeira do seu parque, colocado a um 
canto da cozinha, o pequeno Fietje brincava, entregando-se a um 
combate de boxe de estilo bastante livre com o seu grande urso 
Teddy, de pelagem castanho-clara, um tanto pelada.
Antje van Brouken era do gnero "mulherzinha gentil", nem 
bonita nem feia, nem gorda nem magra, nem inteligente nem 
estpida. De um asseio perfeito, amvel, simptica, com um 
corao de ouro e orgulhosa das suas capacidades de boa dona de 
casa, representava fielmente a grande massa silenciosa das 
mulheres que trabalham constantemente.
Os cabelos de Antje eram de um louro indefinido e o narizito 
arrebitado emprestava ao seu rosto andino uma malcia 
impertinente da qual ela nunca tivera ocasio de se servir.
O pequeno Fietje, que dera um valente soco no urso, soltava 
gritos de alegria. Antje olhava-o sorrindo, fazendo-lhe pequenos 
sinais com a cabea. Naquele instante era, sem dvida, a mais 
bela das mulheres.
- O pap deve estar a chegar - disse-lhe ela.
- Comporta-te bem e no mates o teu urso.
Depois continuou a limpar os pratos, cantando com a sua voz 
clara uma antiga cano popular, que os pescadores da sua 
provncia entoavam,  noite, em torno da panela fumegante.
Quando acabou, ps o talher de Pieter, o po, a manteiga, 
fez caf de malte e deitou um olhar para o relgio. Admirou-se ao 
verificar que a pontualidade minuciosa falhara. J h um bom 
quarto de hora que ele devia ter chegado. No entanto, decidiu ir 
sentar-se num velho cadeiro para remendar uma fronha.
Por seu lado, o pequeno Fietje, j mais calmo, estava agora 
ocupado, de forma manifestamente conscienciosa, em fazer em 
pedaos um grande automvel de madeira.
Quando na igreja vizinha, dedicada a So Willebrordus, soaram as 
seis horas, Antje comeou a ficar um pouco nervosa. Para melhor 
disfarar a sua apreenso foi pr o caf num lume baixinho. O 
atraso de Pieter era inexplicvel. Tanto quanto ela se lembrava, 
o marido s voltara tarde da Caixa Econmica trs vezes durante 
os cinco anos que levavam de casados: a primeira por ocasio do 
balano de fim de ano, a segunda devido a uma inspeco da 
administrao e a terceira em consequncia de um desvio de 
dinheiro por parte de uma empregada, mas de todas essas vezes 
Pieter telefonara para casa de uma vizinha, explicando-lhe o que 
se passava. Assim, ela nunca conhecera tal inquietao.
Aquela demora to pouco habitual desconcertava Antje e 
preocupava-a. Preparou uma espessa sopa de sebola para Fietje e 
deu-lhe de comer, em seguida lavou-o numa banheira de beb e foi 
deit-lo num quartinho contguo  cozinha. Para ele adormecer 
mais depressa cantou-lhe baixinho uma melanclica cano de 
embalar e depois afastou-se na ponta dos ps.

Quando voltou a entrar na cozinha eram seis e meia.
Pieter ainda no aparecera.
Inquieta, foi sentar-se junto da janela e ficou a olhar para 
a Noorderstraat, muito concorrida quela hora, vindo-lhe  ideia 
um nico pensamento: por que razo Pieter no lhe teria 
telefonado e porque no ainda teria chegado?
Quando bateram as sete horas, levantou-se e foi ter com a 
vizinha. Perguntou-lhe timidamente se a autorizava a servir-se do 
telefone, pois seu marido no regressara ainda e ela se sentia 
inquieta.
A vizinha, viva de um inspector dos correios, jovial e 
gorducha, respondeu-lhe com um pequeno gesto de assentimento, 
acompanhado de um sorriso, e abriu a porta da sala de estar.
- Com certeza, senhora Van Brouken. Sei bem o que essas 
coisas so. Passava-se o mesmo com o meu marido. S pensam no 
trabalho, esquecem-se das mulheres e morrem cedo. A nica 
recordao que nos deixam  uma penso mais ou menos boa.
Deitou um olhar rpido e doloroso  fotografia do seu gordo 
e defunto marido e conduziu Antje para junto do telefone.
Intimidada, a jovem olhou para o aparelho reluzente, 
levantou com hesitao o auscultador e marcou o nmero da Caixa 
Econmica. Ao fim de um instante ouviu-se uma voz. Antje murmurou 
para o receptor:
- aqui Antje van Brouken... o meu marido est ainda a?... 
Brouken... sim!... Ainda no chegou a casa. O qu? Saiu  hora 
habitual?... Sim, muito obrigada...
E desligaram;
Antje pousou o auscultador. Desamparada, voltou-se para a 
viva do inspector:
- No est l - balbuciou... - E saiu do escritrio  hora 
habitual...
A velha senhora sorriu e passou a mo pelos cabelos louros 
da jovem senhora:
- No se inquiete, minha filha, deve ter encontrado um amigo 
ou um antigo camarada de classe e demorou-se...
Antje abanou a cabea:
- Pieter no tem amigos - retorquiu. - E  sempre pontual!
- Mas talvez possa ter encontrado um colega.
- Nesse caso teria telefonado!
- Ou ter-se- demorado no caminho por qualquer razo - 
aventou a senhora.
- Pieter no  pessoa que tolere atrasos - ripostou Antje 
com convico, deixando-se cair num cadeiro de pelcia 
azul-escura que se encontrava junto da mesa do telefone. 
Subitamente, os seus grandes olhos azul-claros tornaram-se fixos 
e ela sussurrou:
- Sucedeu-lhe qualquer coisa... uma desgraa... algo de 
terrvel... sinto-o... meu Deus"...
Sem poder conter-se, comeou a chorar em silncio. As 
lgrimas corriam-lhe dos olhos sem que ela tivesse foras para o 
evitar.
A vizinha olhava para Antje sem saber que lhe dizer. Se um 
homem chega a casa com uma hora de atraso, no se deve pensar 
logo na possibilidade de uma desgraa. A angstia da jovem 
parecia-lhe exagerada e pueril.

- S lhe resta esperar com pacincia - disse por fim. Se o 
seu marido no aparecer at s dez horas, iremos  Polcia!
-  Polcia? exclamou Antje, assustada e sobressaltada.
Ser preciso mand-lo procurar.
Acha ento que... Antje, com os olhos muito abertos, no 
ousou terminar a frase.
- Eu no acho coisa alguma - declarou peremptoriamente a 
prestvel senhora -, mas  preciso encarar a situao. - Depois 
inclinou-se novamente para Antje, que continuava a chorar e 
passou-lhe um brao pelos ombros, compassivamente: - O seu marido 
amima-a muito, minha querida. Esperemos. Se ele voltar, tudo 
ficar bem. Deve conceder-lhe algumas vezes um pouco de 
liberdade.
E esperaram pacientemente, bebendo caf e comendo biscoitos, 
cada vez mais silenciosas, at que no campanrio da Igreja de So 
Willebrordus soaram as dez horas.

- Esta vida est a tornar-se um aborrecimento! declarou o 
inspector da Polcia Flix Trambaeren, pousando o jornal na 
secretria. - Parece que os nossos cidados melhoraram!
Bocejando, o seu adjunto Ferdinand Brox concordou com um 
sinal de cabea:
-        H um ano que no se d um assassnio! Sete zaragatas, 
catorze ataques  mo armada, alguns suicdios incontestveis, 
duzentos e dezassete roubos com arrombamento, um rapto e 
trezentos e noventa "casos de pouca importncia". As pessoas 
tornam-se mais sensatas, em Amesterdo!
O gabinete onde esta estatstica era feita com uma voz que 
denunciava decepo situava-se no palcio da Justia de 
Amesterdo, na Prinzengracht. Fora posto  disposio do 
comissrio da Polcia para que, quando se fizessem detenSes, no 
s lhe desse possibilidade de entrar imediatamente em contacto 
com o juiz de instruo como tambm para poder permanecer em 
ligao directa com a priso, situada nas proximidades.
Ferdinand Brox, um homem de vinte e oito anos, cuja maneira 
de falar franca se tornara famosa entre os seus colegas, e que o 
mundo do crime temia, olhou o seu chefe por entre as plpebras 
semiabertas e em seguida suspirou profundamente:
-        Pergunto a mim mesmo o que quer dizer com isso, meu 
caro Trambaeren! Alegre-se por o nosso servio estar to calmo! 
Nada se pode comparar a tranquilidade do funcionrio! Ou estar a 
desejar um crime com uma perseguio movimentada ao assassino?
-        Seria prefervel a esta eterna calma inactiva
resmungou Trambaeren, acendendo um cigarro. Depois, por cima da 
mesa, estendeu o mao a Brox.
-        Quer um?
-        Com certeza - respondeu Brox, tirando um cigarro do 
mao.
No mesmo instante, bateram  porta.
-        Olha! - exclamou Trambaeren admirado, olhando Brox. - 
Esto a bater!
-        Tambm me pareceu - retorquiu Brox.
-        s onze e meia da noite?
-        Talvez voc v ter agora esse crime to desejado.
-        Entre! - gritou o inspector, rectificando a sua posio 
na cadeira, atrs da secretria.

Um polcia que de noite fazia o papel de porteiro entrou e 
ficou perfilado  porta. O seu aspecto bonacheiro denotava um 
zelo entusiasta:
-        Esto ali duas mulheres que querem falar com o senhor 
inspector! Dizem que  urgente.
-        De que se trata?
Tranibaeren receava a visita nocturna de mulheres. Eram 
geralmente devidas a casos de cimes ou de tentativas de 
violaSes.
O polcia encolheu os ombros:
-        Elas no dizem nada a respeito do caso, mas esto muito 
perturbadas e uma delas no pra de chorar e fala de 
desaparecimento...
Com estas palavras o homem fez a continncia e saiu.
Hesitantes, intimidadas pela presena temida da polcia, com 
os olhos vermelhos de lgrimas, Antje van Brouken e a vizinha, a 
viva do inspector dos correios, entraram um minuto mais tarde no 
gabinete.
Trambaeren levantou-se, ofereceu cadeiras s duas senhoras e 
perguntou-lhes o que as levava ali quela hora to adiantada. 
Brox permanecera sentado e preparava-se para tomar notas em 
estenografia.
Sufocada pelos soluos, que por vezes a impediam de falar, 
Antje relatou o desaparecimento de seu marido Pieter.
O inspector Trambaeren deitou um olhar surpreendido a Brox, 
que, do seu canto, lhe sorria subtilmente.
-        Chama-se Antje van Brouken? - perguntou aps um 
momento. - Declara que seu marido, Pieter van Brouken, 
funcionrio da Caixa Econmica, no voltou a casa desde que saiu 
do seu emprego?
Antje fez um sinal afirmativo com a cabea, pois os soluos 
no a deixavam falar.
-        Mas saiu da Caixa Econmica  hora habitual - 
acrescentou por fim, a chorar.
-        No h qualquer motivo para se inquietar! Trambaeren 
tentava sossegar a pobre senhora e sorria.
-        Talvez tivesse encontrado uns amigos ou conhecidos
e se encontre agora em casa um pouco alegre,  espera
do seu jantar retardado...
Escandalizada, Antje ergueu os olhos e fitou o inspector com 
hostilidade:
-        O meu Pieter  incapaz de tal conduta! - exclamou, 
levantando-se. - Sinto que lhe sucedeu qualquer coisa!
-        Vamos j sab-lo! - afirmou Trambaeren, estendendo a 
mo para o telefone. Marcou um nmero e disse: - Sim! Fala o 
inspector Trambaeren! J recebeu a lista dos acidentes do dia? 
Bem! Muito bem! Veja ento se se encontra a o nome de Pieter van 
Brouken.
Durante uns instantes, o silncio reinou na sala. Trmulas 
de angstia e de expectativa, as duas mulheres fitavam 
Trambaeren, esperando ouvir as suas palavras. Finalmente, uma voz 
soou do outro lado do fio e o inspector fez um pequeno gesto com 
a cabea:
-        Obrigado!  tudo! - Depois voltou-se para Antje e disse 
lentamente: - O seu marido no foi vtima de qualquer acidente. 
No existe nenhum processo verbal que lhe diga respeito.

- Mas ele no regressou a casa! - exclamou Antje, 
desesperada e agarrando-se s costas da cadeira. Sentia-se 
desfalecer. - Tem de estar em qualquer parte!
O inspector Trambaeren encolheu os ombros:
-        Houve alguma zanga entre si e o seu marido? - 
perguntou.
-        No! Ns nunca nos zangmos. Temos vivido felizes os 
dois.
A viva do inspector dos correios disse que sim com a cabea 
e apoiou a vacilante Antje.
-        Posso testemunh-lo - corroborou, passando um brao em 
torno dos ombros da jovem. - O senhor Van Brouken tem apenas dois 
amores na vida: a mulher e o filho! Trata-se de um funcionrio 
consciencioso, que no bebe, fuma moderadamente e no tem 
quaisquer paixSes. Colecciona selos e vai ao cinema ao domingo.
Essa descrio do exemplar pequeno-burgus Pieter van 
Brouken fez iluminar com um sorriso o rosto do inspector da 
Polcia, ao mesmo tempo que lhe acudia ao esprito a suspeita de 
que uma pessoa to razovel no deixaria de ir de facto para casa 
a no ser que algo de grave se tivesse passado. Pensou 
imediatamente num crime, mas Pieter van Brouken no era pessoa 
que tivesse inimigos, ningum devia ter interesse em mat-lo e 
no seria tambm o alvo indicado para um rapto, a fim de ser 
pedido um resgate por ele... Restava, portanto, apenas a hiptese 
de uma fuga cuidadosamente planeada, ou tornada subitamente 
necessria.
Flix Trambaeren comeou a analisar logicamente a situao e 
f-lo com a rapidez do relmpago. Van Brouken era caixa e no 
seria absurdo supor-se que receasse uma reviso geral s suas 
contas, pois poderia ter extorquido dinheiro para oferecer um 
vestido  mulher ou um brinquedo ao filho. Isso poderia explicar 
aquela fuga ilgica. Trambaeren lembrou-se subitamente que seis 
semanas antes tivera lugar um grande leilo de selos, para o qual 
ele tivera de enviar seis detectives que asseguraram a 
vigilncia. No dissera a gorda viva do inspector dos correios 
que Van Brouken coleccionava selos? Talvez se tratasse de um 
coleccionador apaixonado e tivesse subtrado da Caixa Econmica o 
dinheiro que lhe faltava para os comprar, no podendo rep-lo 
logo a seguir. Esse poderia ser um motivo suficiente e 
perfeitamente banal que explicasse o seu desaparecimento.
Todavia, o inspector no foi capaz de dizer a Antje van 
Brouken que desconfiava de tal coisa. Aquela mulherzinha chorosa 
fazia-lhe pena. O desgosto dela e a confiana inquebrantvel no 
seu Pieter pareciam-lhe grandes de mais para serem destruidos com 
uma suspeita. Levantou-se da cadeira e aproximou-se de Antje com 
um gesto reconfortante.
-        Minha senhora, no tem qualquer razo para se sentir 
to desesperada! Talvez tudo se venha a explicar e se trate de 
uma coisa sem importncia. Antes de terem decorrido vinte e 
quatro horas sobre o desaparecimento de uma pessoa, a Polcia no 
tem o direito de intervir, desde que no existam provas 
suficientes de que houve crime ou um motivo vlido para o 
explicar. Se amanh s dezassete horas o seu marido no tiver 
ainda aparecido, venha novamente ter comigo. Entretanto, vou 
proceder a algumas investigaSes.

Antje van Brouken apertou a mo ao polcia, reconhecida pelas 
suas palavras reconfortantes. Este acompanhou-a  porta, 
genuinamente apiedado dela. Depois voltou-se para Ferdinand Brox, 
que se mantivera silencioso at ento.
-        Que diz, Brox? Trata-se da fuga de um marido ou de um 
crime?
-        Os funcionrios subalternos, exceptuando os da Polcia, 
no costumam ser assassinados - respondeu calmamente Brox. - 
Contudo, tambm no me parece que esse marido modelo se tenha 
desviado do caminho recto.
-        Ento, como eu pensei, ele deve ter tido necessidade de 
fugir. Motivo: desvio de fundos!
Brox olhou com surpresa para o superior e em seguida abanou 
a cabea:
-        No tinha pensado nisso. Os meus cumprimentos! Mas no 
foi isso que eu pensei! Creio que nos encontramos perante um dos 
casos mais raros da histria da criminalidade: trata-se de um 
desaparecimento sem motivo!
- Organizado pelo prprio Van Brouken?
-        Sim.
-        Seria ento uma questo de esquizofrenia, uma questo 
das mais complexas, um acidente devido a uma espcie de 
alucinao! - exclamou Trambaeren.
- Pensa que Van Brouken seja um caso patolgico?
- No digo isso -, replicou Brox -, mas pense na vida levada 
at agora por esse homem. Uma verdadeira mquina, com uma 
exactido de robot. Mesmo interiormente, no afrouxa a 
regularidade do seu ritmo. Decerto que Van Brouken  muito 
sensvel e, apesar da sua aparncia exterior de funcionrio 
tranquilo, deve ser extremamente nervoso e cheio de complexos. Um 
pequeno choque exterior que libertasse um desses complexos e a 
sua existncia seria profunda e subitamente perturbada.
Trambaeren ouvira aquelas afirmaSes com um interesse evidente. 
Durante uns instantes, reflectiu intensamente.
- A sua psicologia moderna tem muito interesse. Resta agora 
saber se certos complexos so suficientemente fortes para levarem 
um homem razovel a desaparecer sem deixar rasto.
- Os complexos podem conduzir ao crime - respondeu 
gravemente Brox. - As paixSes ocultas adormecidas nos indivduos 
so espantosas. No caso de Van Brouken, no devemos negligenciar 
qualquer possibilidade. Comecemos pelo lado mais racional do seu 
caso: subtraco de fundos.
Trambaeren respondeu com um baixar de cabea e estendeu a 
mo para o telefone.
A grande mquina policial entrava em aco.

No dia seguinte, por volta das dezoito horas, Antje van 
Brouken encontrava-se novamente sentada em frente do inspector 
Trambaeren. Dessa vez, Ferdinand Brox estava ao lado dele, 
folheando um dossier.

-        Reunimos todas as informaSes necessrias - declarou 
com uma voz um pouco triste -, e somos obrigados a reconhecer que 
no demos um nico passo em frente. As informaSes que nos foram 
dadas pela Caixa Econmica a respeito do seu marido so muito 
elogiosas. Os livros das contas esto perfeitamente em ordem e 
no falta um cntimo. O seu marido  muito apreciado pelos 
colegas e  verdade que deixou o seu emprego ontem  hora 
habitual. Da Ridderstraat at Uilenburg foi acompanhado por dois 
dos seus colegas, que seguiram noutra direco depois de ele se 
ter encaminhado para a Heerengracht. Avanmos portanto s 
apalpadelas no escuro e no encontrmos qualquer razo que possa 
explicar o desaparecimento de seu marido.
Antje van Brouken ouvira-o com uma calma digna de admirao. 
Mas quando o inspector se calou, baixou a cabea e comeou a 
chorar baixinho.
- Mas um homem no pode desaparecer sem deixar rasto - 
murmurou entre dois soluos. - Se ele se foi embora, tm de o 
encontrar... a Polcia existe para isso!
A ingenuidade de Antje comoveu os dois polcias. Brox 
levantou-se, foi buscar um copo de gua e deu-lho.
- Antes do mais,  preciso manter a calma - disse com 
firmeza. - Trata-se de reflectir com a cabea fria e evitar 
diligncias inteis.
- Falei j ao comando da Polcia de Amesterdo e em Haia e 
obtive autorizao para proceder a todas as diligncias que se 
possam imaginar - anunciou Flix Trambaeren. - Este caso foi-me 
confiado pessoalmente.  necessrio agora alertar o pblico, para 
sabermos se encontramos algum que o tenha visto pela ltima vez. 
Devemos seguir o rasto dele; certamente chegaremos a alguma 
concluso. Mas precisamos para isso de uma boa fotografia de seu 
marido.
Antje fez um sinal de assentimento e comeou a procurar na 
carteira, donde retirou uma fotografia de Pieter van Brouken. Os 
dois polcias inclinaram-se imediatamente sobre ela e viram um 
rosto andino, com um sorriso satisfeito de funcionrio zeloso.
- O seu marido possua sinais particulares? - perguntou 
Trambaeren. - Uma cicatriz, por exemplo? Um defeito? Uma 
ver'ruga?
Antje disse que sim com a cabea e limpou as lgrimas.
- Tinha uma pequena cicatriz nas costas, mais ou menos sobre 
a omoplata esquerda: caiu de uma bicicleta quando era ainda 
adolescente e feriu-se nas costas.
- Uma cicatriz? Essa informao poder ser-nos til.
Seguiu-se a descrio clssica da pessoa procurada com as 
suas particularidades nos mais infimos pormenores, todos 
importantes para uma possvel identificao.
Tomaram nota dos seus sinais pessoais, o seu comportamento 
habitual foi dissecado ponto por ponto at que aos olhos dos dois 
criminalistas surgiu a imagem de um homem que no tinha mais 
mistrios para eles do que o sbito desaparecimento.
- Agradeo-lhe encarecidamente, senhora Van Brouken -, disse 
finalmente Flix Trambaeren ao fim de uma boa hora de 
interrogatrio. - Volte para sua casa e tenha confiana em ns: 
tentaremos tudo o que estiver ao nosso alcance. Se soubermos 
alguma coisa inform-la-emos imediatamente por um dos nossos 
colegas.
Aps Antje van Brouken sair, os dois polcias entregaram-se 
a uma actividade febril.
Todos os jornais de Amesterdo foram postos ao corrente do 
desaparecimento.
Os sinais de Pieter van Brouken foram transmitidos a todas 
as tipografias da Polcia.
Ao fim de uma hora, as mquinas impressoras imprimiam 
grandes ttulos relatando o desaparecimento.
A rdio foi alertada e informada. As emissSes foram 
interrompidas para dar a notcia... mas em vo. Apesar da rdio e 
dos jornais, continuava a nada se saber sobre

o paradeiro de Pieter van Brouken.
Porm, no dia seguinte, por volta do meio-dia, numa altura 
em que Brox se encontrava sozinho, visto Trambaeren ter ido 
almoar ali perto, apareceu uma rapariga. Declarou ter visto na 
vspera o homem cuja fotografia aparecera nos jornais. Falara com 
ele, cerca das 16.30, na Heerengracht, perto do Jardim Botnico.
Ferdinand Brox sentiu-se exultante. Tinha finalmente uma 
pista.
-        O seu nome  Hendrikje Varens? - perguntou 
amigavelmente. - Estenodactilgrafa de profisso, de dezanove 
anos de idade e moradora em Bloemstraat cinco?
-        Sim - respondeu a jovem, satisfeita por ter encontrado 
um polcia simptico e sentindo que estava a perder um pouco o 
receio que a Polcia lhe infundia. Comeou a falar com maior 
descontraco e preciso.
- Viu Pieter van Brouken ontem  tarde? - prosseguiu Brox.
- Sim, em Heerengracht. Estava apoiado a uma rvore e 
parecia maldisposto... atordoado... Ajudei-o a sentar-se num 
banco.
Ferdinand Brox ergueu os olhos para a jovem. O seu olhar 
cintilava.
-        Diz que ele parecia atordoado? - repetiu inclinado para 
a frente, mostrando-se vivamente interessado.
- Peo-lhe que se esforce por se recordar dos mnimos pormenores 
desse encontro. Qualquer indcio pode tr'azer luz  estranha 
obscuridade que envolve este caso. Qual era o aspecto do senhor 
Van Brouken? Pareceu-lhe doente, infeliz, ou estava coberto de 
suores?
- No. - A jovem fez uma pausa para coordenar todas as 
recordaSes. - Estava plido, muito plido, e suava... sim... 
Conduzi-o at ao banco e no caminho toquei-lhe com a mo na cara: 
senti-a coberta de um suor frio. L-se nos livros que os 
moribundos tm suores frios... mas no sei muito bem... sei 
apenas que o contacto com a pele dele me repugnou.
-        Bem, muito bem! - Brox tomava notas, cheio de 
satisfao. - Suores frios, atordoamento... Que mais observou?
A menina Varens, com os olhos fitos no soalho, parecia 
concentrar-se.
-        Sim - declarou ao fim de um momento, durante
o qual Brox analisara o caso  luz de uma lgica rigorosa -, 
queixou-se de uma dor na nuca e disse exactamente: "O calor no 
me fez nada bem! "
-        Ah! Teve a impresso de que se tratava de uma 
insolao?
-        No sei. Ignoro o que seja uma insolao.
-        Ah, com certeza.
Brox tomou mais algumas notas com grande amabilidade, ditou a um 
polcia que acorrera  sua chamada a pea do processo relativa ao 
depoimento verbal da jovem e entregou-o  menina Varens. Esta leu 
atentamente
o documento e assinou-o com visvel gravidade. Brox, radiante, 
apertou a mo  jovem:
- Agradeo-lhe - disse -, porque creio que as suas 
informaSes nos permitiro encontrar o mais rapidamente possvel 
a soluo do caso Van Brouken. Se for necessrio que faa mais 
declaraSes, convoc-la-emos.

Com aquele depoimento comeava para Ferdinand Brox um dia 
extremamente positivo. Logo que a jovem Varens saiu, o agente de 
servio fez entrar outras testemunhas que vinham af'irmar terem 
visto Van Brouken na vspera.
Uma aps outra compareceram no seu gabinete e assinaram o 
seu depoimento verbal, atravs do qual declaravam sob juramento 
terem visto Pieter Van Brouken sentado na vspera  noite, entre 
as dezassete e as dezanove horas, num banco do Jardim Botnico ou 
apoiado ao tronco de uma rvore, parecendo doente. Tinham-se 
afastado sem lhe prestarem mais ateno. Alguns chegaram a pensar 
que ele se encontrava embriagado.
Eram oito testemunhas de todas as idades, exercendo 
profissSes diversas.
O depoimento da jovem Varens foi assim confirmado por oito 
vezes.
Quando a ltima testemunha se afastou, Ferdinand Brox 
respirou, aliviado, encostou-se confortavelmente para trs e 
fechou os olhos.
O enigma estava esclarecido, no como ele esperava, mas em 
todo o caso com uma base psicolgica.
Quando Flix Trambaeren regressou do seu almoo, Brox 
colocou na sua frente, sem dizer uma palavra, as peas do 
processo relativas aos depoimentos verbais. Surpreendido, 
abanando a cabea, o inspector leu os documentos e em seguida 
olhou Brox com ar interrogador.
- E que conclusSes tira desses depoimentos? perguntou no meio do 
silncio reinante.
- Para mim, o caso  claro: devido a complexos resultantes 
de uma sensibilidade muito singular, o homem teve uma crise de 
neurastenia aguda e envenenou-se com estricnina. O peso na nuca 
de que falou a menina Varens  sintomtico do envenenamento com 
estricnina.
Flix Trambaeren aprovou esta teoria com um aceno afirmativo 
de cabea.
-        E o cadver?
-        Penso que o homem se ter levantado do seu banco, 
arrastado at a um canal transversal e precipitou-se nas guas 
com as suas ltimas foras.
O inspector voltou a concordar em silncio, com uma 
expresso grave no rosto.
-        Avise a infeliz esposa, peo-lhe, e anuncie ao 
inspector-chefe que o caso Van Brouken est encerrado:
suicdio; motivo: neurastenia.
Ferdinand Brox pegou no dossier e apertou a mo a
Trambaeren:
- Podemos felicitar-nos - disse. Mas a sua expresso era de 
ansiedade. - Trata-se de um caso de suicdio rapidamente 
esclarecido, mas tambm o mais estranho de que j tive 
conhecimento at hoje.
Os jornais da manh publicaram a soluo do enigma Van 
Brouken na pgina regional. O suicdio de um pequeno funcionrio 
no era notcia de grande interesse e dizia respeito sobretudo  
famlia enlutada. As fotografias dele foram arrancadas das 
paredes ou cobertas por outros cartazes. Quem  que se 
interessava pelo rosto sorridente de um caixa bem alimentado?

As conversas voltaram a debater o tema oferecido pela imensa 
inflao na Alemanha. Se os Alemes sobrevivessem ao ano de 1923 
estariam salvos, dizia-se.
Ningum se preocupou mais com Antje van Brouken nem com o 
pequeno Fietje.
A administrao da Caixa Econmica decidira, no decorrer de uma 
reunio extraordinria, conceder  jovem viva uma penso 
completa, como se Van Brouken tivesse morrido normalmente, tendo 
em considerao a sua infelicidade e a sua situao singularmente 
difcil. Assim ficou assegurada a sobrevivncia da famlia, 
privada do chefe.
 certo que no fora ainda encontrado o corpo do 
desaparecido, mas no se podia esperar que isso sucedesse, pois 
os canais transversais eram na sua maior parte profundos, tinham 
o leito lodoso e no devolviam as vtimas. A Polcia sondara os 
canais onde o corpo poderia ser encontrado, mas em vo.
O caso Van Brouken estava encerrado.
Um caso de neurastenia que provocara o suicdio.
E Pieter van Brouken foi esquecido...

2

Quando, nessa sexta-feira fatal, Pieter van Brouken 
despertou, por volta das dezanove horas, no sabia onde se 
encontrava. Sentia-se fresco, repousado, com uma euforia que 
nunca sentira, como se acabasse de renascer. E quando, muito 
surpreendido, se levantou do seu banco e olhou  sua volta com 
uma sensao de surpresa ainda mais viva, o seu corpo 
distendeu-se, cheio de energia, liberto dessa apatia a que a sua 
existncia regular e fechada o impregnara.
Com os olhos muito abertos, olhou  sua volta e abanou a 
cabea.
"Mas onde estou eu?", murmurou para si prprio em voz baixa, 
levantando-se do banco e dirigindo-se para a rua. "Como  que vim 
parar a esta cidade?"
O sol-poente lanava grandes sombras sobre os canais, o ar 
estava ainda quente, mas o crepsculo esbatia os contornos e 
tornava as silhuetas das casas imprecisas e melanclicas.
Pieter van Brouken olhou de novo para todos os lados, 
observou os transeuntes, as matrculas dos automveis, os 
cartazes, os letreiros das lojas e abanou a cabea.
-  um pas estrangeiro - murmurou, assustado.        Como terei 
vindo parar aqui?
Tirou o chapu e imobilizou-se, assombrado. Mas que chapu era 
aquele? Um chapu de feltro. Onde estaria o seu panam branco? 
Percorreu com um olhar toda a sua pessoa, apreciou o fato de 
tecido cinzento e apalpou-se com crescente ansiedade.
Como e porqu se vestira com aquelas roupas to estranhas? 
Que significava tudo aquilo? Mas o que mais o intrigava era no 
saber onde se encontrava.
Meteu a mo num dos bolsos, tirou de l uma carteira de 
cabedal barata e ficou a examinar com olhar fixo o passaporte que 
ali descobriu.
- Pieter van Brouken - leu em voz baixa. - Amesterdo, 
Noordenstraat cinco.  idiota! Absolutamente idiota! - Observou o 
passaporte por todos os lados e o seu rosto franziu-se. - Como  
que este documento de identificao estrangeiro e estas roupas 
vieram parar  minha posse? - disse pensativamente. - Deus do 
Cu, onde estou eu?

Interpelou um transeunte, cumprimentando-o delicadamente 
antes de falar. O homem olhou-o com uma expresso de espanto, 
sorriu, encolheu os ombros e respondeu-lhe numa lngua 
estrangeira, de duras ressonncias.
Pieter afastou-se com uma desculpa e fez a mesma pergunta a outro 
transeunte, que reagiu da mesma maneira; um encolher de ombros e 
uma resposta dada numa lngua estranha, incompreensvel...
Apoderou-se ento dele uma angstia infinita: encontrava-se 
num pas estranho, sem dinheiro, como verificara, vestindo um 
fato que no era o seu e tendo em seu poder um passaporte 
estrangeiro.
Desceu a Heerengracht a passos rpidos, at ao Parktheater, 
e olhou para as grandes docas e armazns que se erguiam na sua 
frente.
- gua por toda a parte - murmurou. - Canais, pontes, 
barcos, casas sobre a gua, uma doca e ao longe um porto... onde 
estarei ento?
Estaria em Veneza? No, no eram italianos que percorriam aquelas 
ruas.
Copenhaga? Seria mais verosmil.
Amesterdo? Era a cidade mencionada no passaporte. Mas como 
 que ele podia ter ido parar a Amesterdo sem o saber?
- Preciso de ir ao Consulado! - disse em voz alta, 
consciente de se sentir mais corajoso ao ouvir a sua prpria voz. 
- Deve haver aqui um consulado!
Dirigiu-se delicadamente ao primeiro homem que veio ao seu 
encontro e fez-lhe a pergunta.
- Consulado de Portugal? - disse, esperando ser 
compreendido.
O homem respondeu com um sinal de cabea e explicou-lhe o 
caminho na mesma lngua estrangeira. Mas vendo que o seu 
interlocutor no o compreendia, fez parar um txi, deu-lhe a 
direco e fez sinal ao estrangeiro para entrar no carro.
Van Brouken agradeceu delicadamente e entrou no txi, que 
partiu e foi parar da a pouco tempo diante de uma vivenda 
branca, com uma varanda, sobre a qual flutuava uma grande 
bandeira portuguesa por cima de um braso reluzente.
Com um suspiro de alvio, Pieter deu a entender ao motorista 
que devia esperar e foi bater impetuosamente  porta onde se viam 
vidros pintados com reproduSes de paisagens.
Teve de esperar um momento at que a porta se abriu para dar 
passagem a um homem que saa, sem dvida um secretrio.
- Que deseja? - perguntou aquele delicadamente, olhando com 
surpresa para aquele visitante inesperado e fora de horas.
- Preciso absolutamente de ter uma entrevista com o senhor 
cnsul! - exclamou Van Brouken, avanando um passo. -  muito 
urgente!
Foi conduzido para uma espcie de sala de espera, onde lhe 
foi dito para se sentar. Muito excitado, comeou a andar de um 
lado para o outro, tamborilando com os dedos sobre os vidros das 
janelas, percorreu apressadamente um jornal portugus sem se 
aperceber do seu contedo e recomeou a andar de um lado para o 
outro pela sala.
Finalmente, a porta da sala contgua abriu-se e o cnsul 
pediu-lhe para entrar.

D. Manolda era um homem de alta estatura, de cabelos 
grisalhos. De origem espanhola, traa desde o primeiro olhar a 
dignidade do patrcio e a antiguidade da sua casa. De maneiras 
elegantes, comedidas, de voz velada, quase aveludada, parecia 
incapaz de manifestar uma emoo inconsiderada.
- Que posso fazer por si? - perguntou.
- Chamo-me Fernando Albez - respondeu Van Brouken, ofegante. 
- Sou o doutor Fernando Albez, de Lisboa. Moro na Rua do Monte do 
Castelo, doze. Fui raptado e transportado para este pas que me  
totalmente estranho e peo-lhe encarecidamente que me ajude!
D. Manolda observou o seu visitante com o olhar fixo. Talvez 
pela primeira vez na sua vida estivesse indeciso, sem saber que 
resposta havia de dar.
-        Raptado? - perguntou a meia voz, depois de uma pausa. - 
Raptado e trazido de Lisboa para Amesterdo?
-        Ah!  ento em Amesterdo que eu me encontro? - Muito 
excitado, Van Brouken atirou o passaporte para cima da mesa e 
recomeou o passeio. - Veja! Encontrei este passaporte numa 
ignbil velha carteira! Em nome de Van Brouken! Como  que se 
pronuncia este nome? Quem  este indivduo? E como  que eu tenho 
estas roupas horrorosas vestidas e ando com este ridculo chapu 
na cabea? No Vero uso sempre um panam e um fato branco, nunca 
estes tecidos grosseiros. Alm disso, no tenho um centavo nos 
bolsos, nada! Acordei... lembro-me de ter adormecido no domingo, 
no campo, no decorrer de uma festa. E acordo aqui, em Amesterdo, 
totalmente despojado de tudo!
O cnsul, assombrado, sentou-se numa cadeira e olhou 
atentamente para Van Brouken:
-        Domingo ltimo, diz o senhor, e hoje  sexta-feira! 
Dormiu durante cinco dias!
-        Devem ter-me batido e feito com que mergulhasse num 
estado letrgico!
Sentou-se por sua vez e tirou um cigarro de uma caixa aberta 
colocada na sua frente. Acendeu-o com mos trmulas.
-        Pela sua expresso, senhor cnsul, creio que no 
acredita nas minhas palavras e me toma por um escroque.
-         mais ou menos isso que eu penso -, replicou 
francamente D. Manolda.
-        Sou o doutor Fernando Albez, doutor em filosofia, homem 
de letras, com trinta e cinco anos de idade!
-        exclamou Van Brouken. - Peo-lhe que se informe enviando um 
telegrama urgente para Lisboa, para ter a certeza de que vivo l. 
Ho-de dar-lhe notcias do meu desaparecimento!  preciso 
esclarecer este caso tenebroso.        Mas vejo que no me acredita! 
- Van Brouken deixou-se cair na cadeira e tapou os olhos com as 
mos:
- Meu Deus, preciso de o convencer - repetiu, desanimado. - 
Ignoro como vim parar a Amesterdo. Sou Fernando Albez...
Fez-se silncio na sala. Aquele caso inverosmil tirava D. 
Manolda do campo das ideias concretas. Finalmente, aps um longo 
mutismo, abanou a cabea:
-         uma loucura - murmurou com a sua voz aveludada -, 
absolutamente impensvel! O caso criminal mais intrigante de que 
j ouvi falar.
-        Mas  verdade! - exclamou Van Brouken dando com o punho 
fechado na mesa. -  de uma verdade absoluta!

Ao meter a mo no bolso para tirar o leno, sentiu o contacto de 
um objecto que o fez hesitar, acabando por retirar depois do 
bolso um pequeno embrulho que abriu. Era um boneco de borracha, 
um macaquinho que guinchava quando era apertado.
- Veja isto - gritou Van Brouken, atirando o boneco para a 
mesa. - Acha que eu ia comprar porcarias destas? Encontro-me com 
roupas desconhecidas, com documentos de outro homem, e no 
consigo explicar nada disto!
D.        Manolda pegou na carteira, despejou-a e examinou os 
documentos.
-        O senhor  Pieter van Brouken - declarou com um somso. 
- Segundo diz este passaporte, claro. De resto, parece-se muito, 
mas muito, com a fotografia!
-        Mas  a maior mistificao que se possa imaginar! Sou 
Fernando Albez e no esse ridculo Van Brouken! Quem  afinal 
este individuo?
-        Trata-se de um funcionrio da Caixa Econmica.
-        Um funcionrio da Caixa Econmica! - rugiu Van Brouken. 
- Um funcionrio! Eu, um funcionrio!
-        Segundo o seu recibo de pagamentos, beneficiou este ms 
de um aumento de trinta e cinco florins, por isso deve mesmo 
tratar-se de um funcionrio zeloso.
-        No diga isso, senhor cnsul, eu enlouqueo
 Manolda continuou a fazer o inventrio dos documentos, depois 
pegou no telefone. Ps-se em comunicao com
a Caixa Econmica e falou em holands com o guarda de
servio nocturno. Abanou vrias vezes a cabea, sorridente,
e pousou o auscultador. Com um sorriso radiante, voltou-se
ento para o seu ansioso visitante:
-        Senhor Albez, eis um pequeno golpe de teatro:
existe realmente um funcionrio da Caixa Econmica chamado Pieter 
van Brouken, vive com sua mulher, Antje, no nmero cinco da 
Noorderstraat, e tem um filho, Fietje, com um ano e meio, o que 
explica esse brinquedo de borracha que traz a no bolso!
Van Brouken teve um riso amargo e sentiu-se subitamente, pouco  
vontade.
-         absurdo! - disse a meia voz. - Perfeitamente 
absurdo!  preciso entrar em contacto com esse Van Brouken e 
perguntar-lhe onde deixou o seu passaporte e
o macaco de borracha!
                 -         o que vamos fazer - retorquiu o cnsul com 
determinao. - Mas para comear vamos traar um processo verbal 
da situao, para que eu possa efectuar todas as diligncias 
necessrias em Lisboa. Entretanto, peo-lhe que seja meu 
convidado at ao seu regresso a Portugal. O seu caso, nico no 
gnero, interessa-me pessoalmente.
Van Brouken aceitou o oferecimento e agradeceu. Pediu 
ento que pagassem o txi que o levara ali.
D.        Manolda encarregou o secretrio de o fazer e comeou a 
redigir o depoimento do Dr. Fernando Albez, de
Lisboa, morador na Rua do Monte do Castelo, 12.
 Depois mandou preparar um quarto para o seu
(        hspede, desejou-lhe uma boa noite e prometeu-lhe que
iria agir o mais depressa possvel. Um criado conduziu Van 
Brouken ao quarto.

Mal ele deixou o gabinete do cnsul, D. Manolda pediu 
uma comunicao urgente para Lisboa. Em seguida releu o 
depoimento verbal, abanou a cabea e esteve tentado, por 
instantes, a ir  Noorderstraat para se informar a respeito de 
Pieter van Brouken. Mas uma repugnncia inexplicvel desviou-o 
dessa inteno. Uma voz interior dizia-lhe que aquele enigma 
encobria mais do que um crime.
Esperou no seu gabinete at tarde.
Finalmente, obteve a comunicao com Lisboa. Impaciente 
e um pouco febril, D. Manolda levantou o auscultador. O seu amigo 
Ricardo Destilhano encontrava-se do outro lado do fio.
Depois o assombro quase lhe fez cair o auscultador:
existia realmente um Dr. Fernando Albez, na Rua do
Monte do Castelo, 12.. No entanto, fora vtima de ataque 
cardaco, e morrera subitamente dois anos antes.
Pieter van Brouken ou - como lhe chamaremos daqui em diante 
- o Dr. Fernando Albez dormia ainda tranquilamente no seu quarto, 
enquanto no rs-do-cho, no seu gabinete de trabalho, o cnsul D. 
Manolda lia o jornal da manh e ouvia o noticirio da rdio, 
atravs do qual ficou a saber terem as acSes petrolferas da 
Sociedade Colmbia descido dezassete pontos. A inflao na 
Alemanha e a rarefaco dos mercados de exportao provocavam uma 
baixa dos preos que iria fatalmente produzir uma catstrofe.
O cnsul Manolda era um homem de negcios da aristocracia. 
Nascido numa casa nobre, cheia de tradiSes e de dignidades, o 
vento de uma nova ordem social impelira-o para os escritrios de 
uma sociedade de armadores portugueses, dos quais saiu 
rapidamente graas aos parentes influentes, acabando por 
instalar-se primeiro em Lisboa, depois em Barcelona e finalmente 
em Amesterdo, como adido comercial e intermedirio importante no 
campo das exportaSes.
Os negcios de que ele se ocupava nunca tinham sido 
explicitados com preciso. Contudo, parecia possuir grande 
fortuna, pois adquirira em Amesterdo uma enorme moradia, no 
recusara a representao do seu pas e ia quatro vezes por ano a 
Haia conferenciar com o embaixador. Levava a existncia de um 
rico e virtuoso burgus, com camarote na pera e todos os anos 
oferecia uma quantia importante a um orfanato de Amesterdo. As 
funSes de um cnsul tm mais ou menos o
carcter de um cargo honorfico.  parte algumas despesas de 
representao ou de correio, que so reembolsadas, ser cnsul  
afinal uma representao de ordem pessoal que exige da pessoa que 
ocupa o cargo um nvel de vida confortvel. Tudo teria corrido 
pelo melhor se D.        Manolda no tivesse aplicado metade da sua 
fortuna em complicadas especulaSes da Bolsa que falharam ao fim 
de um certo tempo, colocando essa nobre personagem numa situao 
pecuniria perigosa.
Ento, Manolda lembrou-se do seu velho amigo, o 
professor Destilhano, de Lisboa. Encontraram-se ambos em 
Marselha, tiveram uma conversa demorada e separaram-se ao fim de 
dois dias, com a certeza de que estavam indissoluvelmente ligados 
para toda a vida.
A partir desse dia, o financeiro e cnsul Manolda 
pareceu melhorar visivelmente a sua situao. Todavia, o 
crescente volume das suas exportaSes, feitas agora
por mar em vez de seguirem por via terrestre, levava
Manolda a fazer frequentes viagens para zelar pelos seus
negcios. Tudo isso era perfeitamente normal e banal.
 Nada normal e explicvel era, contudo, o facto de os
servios de luta contra os estupefacientes, criado pela

Polcia Criminal de Amesterdo, ver aumentar o consumo das 
drogas, no obstante o trfico de cocana, morfina e pio se 
tornar uma preocupao cada vez maior para a polcia do Estado. 
Os toxicmanos de Amesterdo contavam-se j s centenas, ao passo 
que os estupefacientes invadiam secretamente os Pases Baixos.
O cnsul Manolda, cuja voz tinha grande peso no 
"Conselho Superior" dos homens de negcios, falava todos os 
domingos contra o bando demonaco que promovia aquela traficncia 
e reclamava a mais dura represso. Em vo, pois, apesar de tudo, 
o "veneno para fumar" continuava a ser incansavelmente 
vulgarizado. As autoridades sentiam-se impotentes, j que agiam 
s apalpadelas, na mais completa escurido.
O cnsul Manolda pousou o seu jornal e olhou para o
(        tecto.
Fazia clculos.
A baixa das acSes petrolferas significava para si uma 
perda de perto de vinte mil florins, quantia considervel se 
viesse a ser convertida em moeda argentina, pois fora o seu banco 
argentino que lhe servira de intermedirio naquele negcio. 
Impunha-se que essa perda fosse coberta de certa maneira pelas 
transacSes relacionadas com o negcio de exportaSes, se no 
queria que o labor de longos, rudes e perigosos anos acabasse por 
se perder. Quando, na vspera  noite, telefonara ao seu amigo 
Destuliano, a propsito do caso daquele louco Pieter van Brouken, 
fizera aluso a uma manobra desse gnero. E o professor aceitara 
dirigir-se imediatamente a Amesterdo de avio, para tentar 
resolver aquela situao, agora manifestamente desesperada. Ao 
mesmo tempo, encontrar-se-ia com o notvel Dr. Fernando Albez. 
morto dois anos antes, e falaria com ele.
Tudo isso tranquilizava um pouco D. Manolda, mas no seu 
ntimo subsistia uma inquietude, uma incerteza que o privava do 
seu aprumo. O brusco reaparecimento de um compatriota morto - 
mesmo sendo apenas um escroque holands - no era mais 
tranquilizante que a indicao precisa do seu dito endereo em 
Lisboa, pois a casa da Rua do Monte do Castelo achava-se em 
estreita relao com os negcios secretos de D. Manolda e do 
professor Destuliano.
Aquele hspede estrangeiro, munido do passaporte de Pieter 
van Brouken, acabara por inquietar Manolda.
Que saberia ele a respeito da Rua do Monte do Castelo?
Significaria aquilo uma extorso?
Era chegada a altura de Destilhano se deslocar a Amesterdo. 
Em todo o caso, conservariam o homem entre quatro paredes at as 
suas intenSes ficarem bem esclarecidas e serem tomadas todas as 
precauSes a seu respeito.
Quer se tratasse de Fernando Albez ou de Pieter van Brouken, 
no sairia do consulado!
D.        Manolda levantou-se e tocou para chamar o secretrio.
- Se o senhor doutor Albez se tiver j levantado, pea-lhe que 
venha ter comigo - disse no tom benevolente e familiar habitual. 
- Tenho algo de importante a dizer-lhe.
O secretrio inclinou-se e saiu rapidamente do gabinete. Ao 
fim de alguns minutos, voltou acompanhado de Pieter van Brouken e 
fechou discretamente a porta depois de sair.

- Notcias de Lisboa? - perguntou Albez sentando-se na 
cadeira que lhe era oferecida. - Para comear, bons dias, senhor 
cnsul!
Manolda agradeceu com uma inclinao de cabea e 
ofereceu-lhe um cigarro.
-        Queria dizer-lhe que tenho notcias de Lisboa. Vem uma 
pessoa de l, de avio, para o identificar!
"Agora  que ele vai ficar aflito", pensou Manolda. "Se for 
um aventureiro  o seu fim! " Intrigado, observava Van Brouken e 
esperava v-lo tomado de pnico.
Mas nada disso se passou, muito pelo contrrio!
O Dr. Albez encostou-se para trs na cadeira com um suspiro 
de alvio e acendeu o cigarro com uma mo que no tremia. Sorria 
com um ar satisfeito.
-        Finalmente, tudo se ir esclarecer! - declarou.
- Certamente - assegurou Manolda.
- E quem  essa personalidade?
O cnsul hesitou um instante e depois disse 
precipitadamente:
- O professor Ricardo Destilhano!
- Ah! - O Dr. Albez olhou-o cheio de interesse. - O meu 
vizinho? O velho mdico? No poderia ter arranjado melhor 
testemunha!
Um arrepio percorreu a espinha dorsal de Manolda. Aquele 
homem era no s inquietante mas evidentemente perigoso. J se 
tinha visto mortos que no tinham morrido de facto e que 
ressuscitavam, mas Destilhano declarara peremptoriamente que 
Albez falecera dois anos antes e isso no dava lugar a dvidas.
"Este tipo  um dos mais desembaraados que eu tenho visto", 
pensou Manolda, de maxilares apertados. Mas manteve os seus bons 
modos de fachada e prosseguiu a conversa com a voz aveludada.
- Creio que amanh ou depois j poderemos ver o caso de uma 
maneira mais clara - declarou com ambiguidade. - At ento, 
peo-lhe que seja meu convidado.
O Dr. Albez agradeceu-lhe com um sorriso:
-        Sou forado a s-lo. Para onde iria eu sem dinheiro? - 
replicou sarcasticamente. - Mas logo que eu regresse a Lisboa 
ver que no ter razo de queixa do meu reconhecimento.
"Sat" pensou Manolda. "A tua delicadeza  to perfeita que 
a considero demasiada para ser de bom quilate." Mas em voz alta 
respondeu amavelmente:
-        Por favor, doutor Albez! O seu caso  to 
extraordinrio que  para mim uma satisfao pessoal t-lo aqui! 
Se desejar qualquer coisa farei o possvel por satisfazer os seus 
desejos.
O Dr. Albez olhou para si prprio e apalpou o tecido do seu 
fato:
-        Se desejar qualquer coisa, diz o senhor! Mas desejo 
imensas coisas! Antes de mais, queria despir este horrvel 
fato... depois precisava de roupa interior e estes sapatos...
:Que engraado!", pensou Manolda, continuando a sorrir. 
"Estar a chantagem j a comear? Sabes bem o que ests a fazer, 
no ? Queres vestir-te  minha custa para depois te pores a 
andar! Mas o nosso 'negcio vale bem a despesa da tua roupa nova! 
Tens toda a razo!"

-        Vou imediatamente encomendar fatos novos e roupa 
interior! - declarou em voz alta. - Espero que fique contente com 
eles.
Albez abanou a cabea e os seus lbios tomaram uma expresso 
crtica:
-        Sou bastante esquisito com a minha roupa interior e gosto de 
ser eu prprio a escolh-la. Ser melhor tratar eu disso. 
Naturalmente que tal despesa no lhe trar qualquer prejuzo, 
pois logo que chegue a Lisboa envio-lhe o dinheiro. - Teve um 
sorriso amargo. - Infelizmente, terei de lhe pedir crdito 
durante uns tempos...
" exigente! Queria dinheiro no bolso para mais facilmente 
fugir. No, meu rapaz, no sairs daqui sem Destilhano te ver! A 
tua pressa  bem esclarecedora!"
-        No o aconselho a sair de casa por agora respondeu o 
cnsul no seu tom corts. - A situao inquietante que o fez vir 
a Amesterdo contra a sua vontade est cheia de perigos 
imprevisveis. Compreende certamente que, encontrando-se o senhor 
agora sob a proteco do seu pas e do meu, que eu represento, 
no posso autoriz-lo a expor-se ao perigo. Confie no gosto do 
meu secretrio, que  excelente.
O Dr. Albez pareceu hesitar, mas depois cedeu aos argumentos 
do cnsul e concordou.
- Quando deixarei de estar detido no meu quarto? - perguntou 
num tom de gracejo.
-        Logo que o doutor Destilhano o identifique. Combinei 
com ele pelo telefone e ficou assente que se responsabilizaria 
por si e que o acompanharia a Lisboa.
-        No sei como agradecer-lhe - retorquiu Albez comovido.
Levantou-se e apertou a mo a Manolda:
- Falarei elogiosamente a seu respeito  imprensa de Lisboa.
O cnsul empalideceu ligeiramente e mal correspondeu ao 
aperto de mo.
"Que patife!", pensava ele. "Canalha! Teria muito gosto em 
te estrangular com as minhas prprias mos e de te atirar em 
seguida para as guas do canal!" Mas sorriu novamente e respondeu 
fazendo o seu papel de anfitrio cheio de cordialidade:
- Poderei ser-lhe til em mais alguma coisa? - perguntou 
amavelmente.
. Alguns livros, por favor. No quero mostrar-me importuno e 
manter-me-ei no meu quarto. Os livros so
o melhor recurso contra o aborrecimento e a espera.
Manolda aprovou com um gesto.
-        Possuo algumas obras notveis. Que assuntos lhe 
interessam mais: a criminalidade, o direito?
O Dr. Albez teve um gesto de repulsa.
- No, no quero nada de complicado. Um bom romance burgus, 
talvez uma aventura de capa e espada, mas de preferncia a 
narrativa da vida de um mdico, 
o que leio com mais agrado.
Manolda pensou no professor Destilhano e mordeu os lbios: 
"Patife", reflectiu, "gostava de te atingir com flechas 
envenenadas!"
-        Vou enviar-lhe imediatamente algumas obras escolhidas 
-, respondeu com deferncia, acompanhando
o convidado  porta do quarto dele. - O seu retiro no

 grande, mas creio que  alegre e repousante.
-        Sim, certamente - replicou Albez, entrando no quarto. - 
O que no quero, meu caro cnsul,  que a minha presena o 
incomode.
-        No me incomoda absolutamente nada - respondeu o 
cnsul, fechando a porta.
Ao fim de um momento durante o qual o Dr. Albez percorreu um 
jornal portugus de uns dias antes, pareceu-lhe que do outro lado 
da porta tinham dado duas voltas  chave. Mas no se deu ao 
trabalho de ir ver se estaria ou no fechado.
Que significava tudo aquilo?
Queria regressar a Lisboa, ao nmero 12 da Rua do Monte do 
Castelo.
Deitou-se em cima da cama, vestido, e continuou a ler o 
jornal.
Mais ou menos uma hora depois, ouviu o motor de um carro no 
ptio. O cnsul Manolda dirigia-se para o aeroporto de 
Amesterdo.
O avio do professor Destilhano acabava de aterrar.
O professor, um sexagenrio de estatura mediana, de 
aparncia cuidada e rosto ligeiramente envelhecido de 
intelectual, considerou intil ver imediatamente o misterioso Dr. 
Albez, mas pediu ao cnsul que lhe contasse o caso com mincia.
Sentado num grande cadeiro da biblioteca da casa do cnsul, 
permaneceu durante um grande bocado imvel, fitando as suas mos 
compridas e afiladas de mdico enquanto o amigo falava. Ouviu-o 
sem interromper e depois ergueu os olhos, abanando ligeiramente a 
cabea:
- Todo este assunto  mais que misterioso - disse com a sua 
voz profunda de baixo, que contrastava com os seus cabelos 
brancos e no condizia com o resto da sua pessoa. -  uma 
verdadeira mistificao! Eu tratei em tempos o doutor Fernando 
Albez.
-        O qu? - Manolda fitou Destilhano com uma expresso 
assustada.
-        Sim, tratei-o de uma angina de peito. Deteriorao 
orgnica das coronrias. No lhe dei ento mais de dois anos de 
vida e, como j te disse, acabou por morrer ano e meio depois, em 
mil novecentos e vinte e um, de uma apoplexia, no decorrer de uma 
festa no campo. Eu prprio verifiquei as causas da sua morte e 
passei a certido de bito, alm de ter assistido ao enterro!
-         ento uma grande burla aquilo que o tipo que se 
encontra l em cima fechado no quarto quer fazer! - exclamou o 
cnsul, enervado. - Vais ver que isto termina em chantagem!
O professor Destilhano abanou a cabea, no parecendo de 
modo nenhum partilhar a opinio do amigo:
-        Uma chantagem s  possvel se ele souber qualquer 
coisa. Se fosse o caso, no tinha qualquer necessidade de se 
enfiar na pele do defunto Albez. Poderia lev-la a efeito do 
mesmo modo com o nome de Van Brouken. No vejo qualquer lgica em 
nada disso.
- Mas conhece a Rua do Monte do Castelo, nmero doze! - 
replicou Manolda, desamparado.

- Deve conhecer - reconheceu Destilhano com um pequeno gesto 
de concordncia -, pois o Dr. Albez habitou nessa casa at  
altura da sua morte... o que no quer dizer que ele saiba o que 
ela contm!
-        Mas uma pessoa no adopta tambm sem mais nem menos o 
nome de um morto. Deve haver alguma razo que o explique - 
esclamou o cnsul. - S um louco pode agir assim!
-        E admitindo que se trata de um louco, que havemos de 
fazer?
-  demasiado equilibrado para isso! Devias v-lo e ouvi-lo 
falar. No tem o comportamento de um demente!
O professor Destilhano reflectiu um momento. Os seus olhos 
franziram-se sob as sobrancelhas espessas.
-        Quem  de facto esse Pieter van Brouken, cujo 
passaporte ele tem em seu poder? - perguntou lentamente.
-        Um funcionrio da Caixa Econmica, impecvel, correcto, 
honesto, um pai de famlia que comprava brinquedos de borracha 
para o filho. Uma pessoa absolutamente normal. No era capaz de 
ter cometido um crime que o obrigasse a ocultar-se sob outro 
nome. Alm disso, h uma coisa que me intriga mais do que tudo o 
resto: como pode um pequeno funcionrio holands falar 
correctamente portugus sem o mais leve sotaque?
Destilhano teve de reconhecer que essa questo constitua o 
maior de todos os mistrios, que, de resto, se tornava fascinante 
e atraa a curiosidade.
-        Uma coisa  certa - continuou -: ele no  o doutor 
Fernando Albez. Talvez tambm no seja Pieter van Brouken. A sua 
verdadeira identidade ser ento a de uma terceira personagem 
que, por meio deste estratagema, de um requinte extremo, pretende 
afastar-se deste pas sem dificuldades. Seria bom pormo-nos em 
contacto com o verdadeiro Pieter Van Brouken. Ele tem telefone?
-        No sei.
O cnsul folheou imediatamente a lista telefnica. 
Finalmente, abanou a cabea:
-        No tem telefone.
-        Talvez se pudesse telefonar a um vizinho - insistiu 
obstinadamente Destilhano.
Manolda percorreu a lista dos habitantes do mesmo prdio:
-        C est! Noorderstraat, cinco. Wilhelmine Baaerehens. 
Viva. Nmero mil setecentos e setenta e nove!
Destilhano teve um pequeno gesto de encorajamento. Uma 
curiosidade juvenil parecia galvaniz-lo.
-        Telefonemos a essa senhora e perguntemos se Pyeter Van 
Brouken no teria perdido o seu passaporte.
Manolda ligou o nmero e esperou. Atendeu uma voz de mulher. 
O cnsul pediu-lhe ento para chamar o senhor Van Brouken. Depois 
sentou-se, aterrorizado, olhando para o professor com uma 
expresso atnita, balbuciando desculpas para o receptor. Em 
seguida desligou.
-Ricardo... - murmurou, como se no pudesse crer no que 
acabava de ouvir. - Creio que estou a enlouquecer: Pieter van 
Brouken desapareceu sem deixar rasto, ontem  noite!
Destiliano levantou-se de um salto como se se tivesse 
sentado em cima de agulhas:
-        O qu? Desapareceu? Mas a que horas apareceu o doutor 
Albez em tua casa?
-        Ontem, s dezanove horas.
-        O doutor Albez , portanto Pieter van Brouken!
-        Sim.

- E, apesar de ser um funcionrio insignificante, fala 
perfeitamente o portugus?
- Sim e afirma mesmo conhecer a Rua do Monte do Castelo, 
doze!
- O mistrio  agora completo! - Destilhano deixou-se cair 
pesadamente na cadeira e olhou fixamente para Manolda. - Este 
caso est a tornar-se angustiante!
O cnsul limpou com o leno o suor que lhe inundou 
subitamente a testa e encolheu os ombros num gesto de impotncia.
- Que hei-de fazer? - perguntou, sentindo-se desnorteado. - 
Devo entregar o homem  Polcia?
Destilhano ergueu vivamente a mo, abanando a cabea.
- Seria a soluo mais estpida! Se admitirmos que
esse Pieter van Brouken sabe realmente qualquer coisa a
nosso respeito, estaremos liquidados se o entregarmos.
O que eu no consigo compreender  porque razo ele
quer saber alguma coisa! Em todo o caso, temos de fazer
o jogo dele at chegar a altura de lhe calarmos o bico.
- Vais permitir que te faa chantagem? - perguntou Manolda, 
surpreendido.
Destilhano teve um sorriso mudo e tirou de um estojo de pele 
um havano, que cortou segundo as regras e depois acendeu.
- Se esse tipo me agradar, sou capaz de o levar comigo para 
Lisboa. Como, de qualquer modo, ele foi dado como desaparecido, a 
sua ausncia no ser notada. Se em Lisboa comear a 
aborrecer-nos mud-lo-ei para Las Palmas e, se ele continuar a 
aborrecer-nos, bem... - atirou para o tecto belos anis de fumo - 
restam-nos ainda outros meios... por exemplo, nos arredores de 
Las Palmas e de Tenerife foram vistos recentemente tubarSes.
O cnsul sentiu-se arrepiar. A segurana sinistra do amigo 
provocou-lhe um arrepio de horror. "Pensar que se trata de um dos 
mdicos mais respeitados e admirados de Portugal", reflectiu, 
estremecendo, "e que ningum sabe que o nome dele encobre a morte 
com mltiplos rostos: cocaina, morfina, pio..."
-        O melhor ser tu prprio examinares esse passaro -, 
disse em voz alta. - Vou mandar cham-lo.
Mas Destilhano recusou com um gesto e recostou-se para trs 
na cadeira, visivelmente satisfeito.
-        Isso pode esperar - disse. - Prefiro no estragar este 
belo dia. Um voo to demorado como o que eu fiz, com tantas 
escalas, no  muito repousante. Guardemos para amanh essa 
explicao. De resto, creio que temos duas importantes questSes a 
discutir. As tuas acSes petrolferas inquietam-me 
verdadeiramente. E, alm disso, gostava de ir esta noite  pera. 
Vi no aeroporto que representam O Trovador...
Manolda respondeu com um gesto de assentimento, enquanto 
colocava em frente do amigo um frasco de conhaque. Em seguida 
chamou o secretrio e encarregou-o de requisitar o seu camarote 
para essa mesma noite. Por fim foi  cave buscar duas garrafas de 
excelente vinho do Reno, fazendo o possvel por esquecer Pieter 
van Brouken durante algumas horas e interessar-se com o maior 
zelo pelos projectos de negcio, para os quais o professor 
Destilhano propunha Anturpia como porto de desembarque.

Manolda forou-se portanto a afastar o seu pensamento de 
Pieter van Brouken e a ouvir as palavras do amigo.
Mas no pde desembaraar-se da angstia que o acabrunhava e 
o tornava indeciso.
E havia sobretudo um facto que o intrigava: como  que Van 
Brouken viera a saber o nome do doutor Albez?

No dia seguinte de manh o cnsul Manolda bateu 
demoradamente  porta do quarto do amigo.
Foi-lhe preciso esperar um grande bocado at que o professor 
Destilhano lhe abrisse a porta, ainda em camisa de noite. Este 
meteu a cabea pela porta entreaberta. Parecia atnito. Sem mais, 
Manolda empurrou a porta e entrou, atirando para cima da cama um 
grande mao de jornais da manh. Por fim, deixou-se cair numa 
cadeira e limpou o suor que lhe corria da testa.
- L-me isto! - exclamou. - Todos os jornais da manh se 
ocupam do caso. Quanto  rdio no se cala... Por todo o lado 
grandes ttulos "Pieter van Brouken desapareceu" e depois a 
fotografia dele... veja... apontou para um jornal.  a fotografia 
do nosso enigmtico e novo doutor Albez!
Destilhano, cuja fleuma no se perturbou por esta notcia, 
examinou a fotografia e em seguida pousou o jornal.
- No tem qualquer semelhana com o falecido e
verdadeiro doutor Albez - concluiu com ar pensativo.
-        Este, se  o homem que c tens, deve ser na verdade
o Pieter van Brouken procurado.
- Mas ele fala portugus!
O prprio professor no tinha nada a opor a esse argumento 
pertinente. Observou, sempre pensativo, a imagem de Van Brouken, 
ao mesmo tempo que passava uma das mos pela abundante cabeleira 
branca.
- Talvez este Van Brouken levasse uma vida dupla... h 
quanto tempo era ele empregado na Caixa Econmica?
- O jornal fala em sete anos!
- E que idade tem ele?
- Trinta e cinco anos.
-Hummm... foi ento para a Caixa Econmica com vinte e oito 
anos... - Destilhano olhou para o seu amigo Manolda. - E que 
fazia ele antes?
-Ignora-se... pelo menos eu... - reconheceu o cnsul. - 
Pensas que ele possa ter vivido anteriormente em Portugal?
- Tudo se pode supor... no consigo explicar de outro modo o 
seu conhecimento da lngua e dos locais. Em todo o caso quero ver 
esse homem.
Fez uma rpida toilette. vestiu-se e dirigiu-se com Manolda 
para a biblioteca. O secretrio foi imediatamente encarregado de 
pedir ao Dr. Albez que descesse.
Pouco depois bateram  porta e o misterioso estrangeiro 
entrou na sala com grandes passadas. Destilhano, que se tinha 
encostado a um dos batentes, no o viu imediatamente. O 
recm-chegado dirigiu-se imediatamente a Manolda. Parecia muito 
irritado.
-        Senhor cnsul - exclamou, fora de si -, que significa a 
maneira como estou a ser tratado? Exijo uma explicao! Fecham-se 
como um criminoso, enviam-me as refeiSes por um monta-pratos e 
ningum quer saber de mim durante perto de vinte e quatro horas! 
Como universitrio, no estou habituado a ser tratado assim!

Desde as primeiras palavras pronunciadas pelo recm-chegado 
o professor Destilhano sentira-se sobressaltado. Olhava com 
assombro o desconhecido. de costas para si. Aquela voz. aquelas 
palavras. aquela maneira de falar. os gestos com as mos... 
Distinguia todas aquelas particularidades por as ter conhecido. 
visto e ouvido durante anos. Tudo aquilo parecia decalcado do Dr. 
Albez, falecido dois anos antes.
Destilhano passou a mo pelos olhos como que para afastar 
uma viso. Mas a imagem no se apagou e a voz inesquecvel do Dr. 
Albez continuava a enumerar as suas queixas:
- O senhor reteve-me aqui com o pretexto de pedir ao meu 
velho amigo, o professor Ricardo Destilhano, que me viesse 
identificar... - Ao ouvir estas palavras, Destilhano sentiu um 
arrepio agitar todo o seu ser; levantou-se e fez sinais 
desordenados ao cnsul. Entretanto, o outro continuava:
- Disse-me que ele viria de avio! A minha pacincia tem 
limites! Roubaram-me. raptaram-me. quero agora voltar a Lisboa! 
Onde est o professor Destilhano?
- Aqui!
Antes de Manolda poder dizer fosse o que fosse, o professor 
soltara esse grito e dera um passo em frente.
Dando meia volta. o Dr. Albez voltou-se. Um breve olhar e a 
sua expresso iluminou-se. Com os braos estendidos dirigiu-se 
para o mdico, agarrando-lhe as mos moles pendentes.
- Meu caro professor! - exclamou Albez, no cmulo do jbilo. 
- Enfim aparece. Ainda bem que veio em meu auxlio. Aqui parece 
que no acreditam em mim!
Destilhano pestanejou. esforando-se por reencontrar o seu 
aprumo, procurando as palavras. Via na sua frente um rosto 
totalmente desconhecido que se exprimia com a voz do Dr. Albez, 
um rosto cuja fotografia vinha no jornal e que era o de um certo 
Pieter van Brouken.
O Dr. Albez, que morrera dois anos antes, possua cabelo escuro e 
encaracolado e um nariz adunco. Via agora na sua frente o rosto 
plido de um funcionrio de cabeleira baa, com todo o aspecto de 
uma criatura insignificante. Por outro lado, essa voz familiar, 
aquele timbre ligeiramente nasalado. aquela pronncia 
maravilhosamente cadenciada. os gestos to seus conhecidos...
O professor Destilhano engoliu a saliva, perturbado, olhando 
fixamente o desconhecido.
- Meu caro doutor Albez -, murmurou, enquanto Manolda, 
abrindo muito os olhos, se deixava cair numa cadeira e apoiava a 
testa nas mos. - Como  que veio parar a Amesterdo?
O Dr. Albez, satisfeito por finalmente ser reconhecido. deu 
livre curso a um fluxo tumultuoso de consideraSes acerca da sua 
extraordinria aventura, o que desconcertou completamente o 
professor.
-        Sentado num banco, imagine! Num banco  beira do canal! 
Era a que eu estava! - exclamava o Dr. Albez com desespero. - E 
vestido com roupas que eu nunca usei, com um passaporte falso e 
com um macaco de borracha no bolso! Uma aventura como no se 
poderia encontrar nem num best-seller do Oeste selvagem! E eu que 
no me apercebi de coisa alguma. Adormeci no domingo passado. 
numa plancie. e acordei na sexta-feira em Amesterdo!

Destilhano sentiu uma onda gelada invadi-lo. Sentia-se 
petrificado e incapaz de pronunciar uma palavra.
O Dr. Albez morrera dois anos antes. vitimado por paragem 
cardaca, enquanto dormitava no campo, no decorrer de um passeio 
dominical.
Sentindo-se incapaz de responder, Destilhano voltou a 
deixar-se cair na cadeira. com os olhos muito abertos fixos no 
interlocutor.
" um escroque". gritava uma voz dentro de si. "Um escroque 
genial? Ou um fantasma? Ou estarei eu louco? Mas Manolda olha-me 
tambm com ar assustado. Ter ele enlouquecido igualmente? Ele 
tem a mesma voz... Sim.  de facto a voz do doutor Albez... e os 
seus gestos... e depois ele conhece-me...  o mais assustador... 
ele conhece-me! "
De sbito, uma ideia atravessou o crebro do Dr. Destilhano, 
que comeava a acalmar-se. O mdico despertava nele, o mdico 
clebre de Lisboa, e, ao analisar essa ideia sbita, respirou, 
aliviado, sentindo-se liberto do domnio daquele desconhecido.
"Deve ser isso" pensou: "h apenas uma concluso admissvel, 
por mais aberrante, rara e misteriosa que possa parecer nos meios 
cientficos... S pode ser esse fenmeno... que num sculo se 
manifesta uma ou duas vezes entre dois mil e quinhentos milhSes 
de seres humanos!"
O cientista que havia nele punha-se a trabalhar. Aquele caso 
misterioso comeava a desvendar-se perante os seus olhos. Com uma 
clareza extrema, a terrvel verdade surgia-lhe liberta da nvoa 
do inexplicvel.
A fim de testar o seu sbito diagnstico, ergueu-se com um 
impulso de amabilidade e deu uma palmadinha no ombro do amigo:
-        Meu caro doutor Albez! - exclamou. - A sua viagem 
involuntria em breve ter um fim! Para a prxima semana 
voltaremos a Lisboa de avio e o senhor ir escrever um romance 
de aventuras sensacional. Que  o ttulo da sua ltima obra?
O Dr. Albez sorriu com uma certa amargura:
-        Mas, meu caro amigo, creio ter-lhe oferecido o ltimo 
livro. Chama-se Noites de Alcntara.
Destilhano respondeu com um gesto de cabea, como se 
procurasse recordar-se de qualquer coisa. Claro que sabia o nome 
da ltima obra publicada pelo doutor e a resposta deste servira 
apenas para confirmar as suas fantsticas suposiSes.
O cnsul Manolda, que no sabia o que tudo aquilo 
significava, mantinha-se sentado no cadeiro seguindo a conversa 
com uma expresso um tanto estpida.
-        No passado domingo esperei por si - prosseguiu 
Destilhano -, mas o doutor preferiu seguir para o campo a ir 
tomar um caf comigo.
O Dr. Albez negou, sorrindo:

-        De maneira nenhuma! Nessa mesma manh fui visitar a 
Baslica de Santa Maria e a maravilhosa igreja gtica do Carmo. 
Preciso de um cenrio religioso que me sirva como pano de fundo 
para a minha prxima obra. No conseguia decidir-me. Finalmente, 
escolhi o extraordinrio santurio de mrmore de So Roque. Logo 
depois fui passear pelo Chiado e pelo Terreiro do Pao, encontrei 
uma pessoa conhecida num caf da Rua da Prata, que me convidou 
para almoar. As coisas so assim:  difcil uma pessoa 
libertar-se logo aps uma refeio. Precisamos de permanecer pelo 
menos uma hora junto de quem nos convidou, por delicadeza. Quando 
ia voltar para casa, meti por uns atalhos pelo campo, para ir ter 
consigo mais depressa, mas o almoo tinha sido to abundante que 
me senti pesado e sonolento. Estendi-me sobre a relva para dormir 
uma pequena sesta e... acordei aqui em Amesterdo!
O professor Destilhano dissera que sim com a cabea vrias vezes. 
Aquela narrativa coincidia perfeitamente com os factos 
acontecidos dois anos antes. Apenas a ltima parte divergia. O 
Dr. Albez no despertara em Amesterdo porque morrera com um 
enfarte, estendido no campo, e fora solenemente sepultado trs 
dias mais tarde.
A teoria de Destilhano tornava-se a pouco e pouco realidade. 
Com o seu olhar penetrante a que nada escapava, o mdico 
observava atentamente o estrangeiro. No descobriu nele nada de 
duvidoso nem nenhum sintoma de doena. Isso s serviu para 
robustecer a sua opinio. E foi com uma crescente cordialidade 
que passou o brao pelo de Albez:
- O nosso cnsul ter certamente a generosidade de nos 
regalar com uma garrafa de bom vinho para festejar este encontro 
e o seu restabelecimento! - exclamou jovialmente. - Que diz, 
Manolda? - acrescentou, dirigindo-se ao desnorteado cnsul com um 
malicioso piscar de olhos.
O cnsul, hbil e astuto, dominou imediatamente a surpresa 
que sentia e respondeu com um sorriso:
- Da melhor vontade - disse com a sua voz aveludada. - Agora 
que tudo est explicado,  a altura de saltarem as rolhas! Vou eu 
prprio  cave escolher a minha melhor garrafa!
Rapidamente, como se quisesse fugir dali, o cnsul saiu da 
sala. No corredor passou a mo trmula pelos cabelos molhados de 
suor.
- Estaremos a enlouquecer? - balbuciou. - Destilhano 
reconhece como sendo o doutor Albez um homem totalmente 
desconhecido que  na realidade Pieter van Brouken que 
desapareceu do seu meio, mas que fala portugus! - Abanou a 
cabea: - O mundo est a enlouquecer e o mais louco de todos deve 
ser o professor Destilhano!
Ao dirigir-se para a cave teve ainda de travar outro 
combate.
O secretrio foi ao seu encontro e observou que o homem que 
aparecera ali na vspera era Pieter van Brouken, que estava a ser 
procurado. Ele identificara-o imediatamente pela fotografia que 
vira no jornal.
Manolda disse-lhe que ele estava louco e que tinha 
alucinaSes e ameaou despedi-lo se se atrevesse a dizer em 
pblico uma s palavra sobre a presena de um convidado no 
Consulado. De resto, no devia preocupar-se com um vulgar 
comunicado da imprensa!
Cabisbaixo, mas de maneira alguma convencido, o secretrio 
afastou-se.
Foi um sero alegre, bastante ruidoso e dos mais cordiais, 
aquele em que o cnsul Manolda, o professor Destilhano e o Dr. 
Albez festejaram a reunio.
O vinho era maravilhoso, a refeio, encomendada a um hotel 
das proximidades, era excelente e a euforia atingiu o mais alto 
grau.
Como velhos amigos, acompanharam o Dr. Albez
at ao seu quarto, depois voltaram de novo para baixo e

sentaram-se na biblioteca para terem uma conversa a
ss.
- Desculpa. Sou demasiado estpido para entender esta 
trapalhada - disse Manolda sarcasticamente. No disseste que o 
doutor Albez morreu h dois anos?
- Sim - replicou Destilhano, rindo e bebendo mais um pouco 
de vinho. - Fui eu quem passou a sua certido de bito!
- Mas o doutor Albez encontra-se agora aqui, em Amesterdo?
- No. O Dr. Albez  Pieter van Brouken!
Manolda fitou o amigo:
- Ento um de ns est doido. Porque lhe chamas tu doutor 
Albez?
- Porque Pieter van Brouken vive a vida do doutor Albez.
E como percebesse que Manolda no o entendia, o professor 
Destilhano explicou:
-        Temos aqui um caso nico de desdobramento de personalidade. 
Existem indivduos particularmente sensveis cujo subconsciente 
est ligado ao seu prprio eu, no seu crebro. de uma maneira 
muito dbil e que com um choque fsico ou psicolgico, ficam 
perturbados ao ponto de renunciarem ao seu eu, prolongando, 
contudo, a sua existncia com a conscincia perfeitamente 
desperta de outra pessoa. A conscincia divide-se. os complexos 
pessoais e subconscientes juntam-se. Como se explica que tal 
indivduo fale subitamente uma lngua estrangeira to bem como a 
sua e que continue a viver a existncia de um morto. a partir da 
data exacta do falecimento (como se passa com o caso que temos 
perante ns) enquanto verificamos que a alma do desaparecido, 
chamemos-lhe assim, ressurge na pessoa de outro, com a 
particularidade fenomenal de no esquecer as suas reminiscncias 
e recordaSes? Trata-se de um grande e inexplicado mistrio no 
qual a cincia ainda no penetrou. Os que se ocupam da 
antroposofia chamam a isto um "renascimento" em seguida a uma 
existncia anterior interrompida subitamente e que, devido a 
certas leis insondveis, deve continuar at ao fim noutro corpo. 
Este Pieter van Brouken vive, como segundo ego, na dissociao da 
sua conscincia, a vida do doutor Albez. E  realmente o doutor 
Albez, enquanto um novo impulso no puser fim a essa dissociao 
do subconsciente, devolvendo o falso Albez  sua verdadeira 
identidade de Pieter van Brouken.
-        Fantstico! - murmurou Manolda. - Verdadeiramente 
incrvel! Um morto que continua a viver!
-        A sua alma anima o corpo de um outro!
-        Existe ento uma transmigrao das almas?
Destilhano encolheu os ombros:
- Ignoramo-lo. A partir daqui o caso fica nas mos de Deus e 
os humanos permanecem perante o enigma.
- E que queres tu fazer de Pieter ...... do doutor Albez? - 
perguntou Manolda a meia voz.
O professor reflectiu um momento e baixou os olhos:
- Vou lev-lo comigo para Lisboa - respondeu com deciso. - 
Pode ser-nos muito til. Aos olhos da lei, o doutor Albez morreu. 
- Sorriu: - Ora um morto no pode ser preso, se as coisas 
chegarem a esse ponto...
Manolda conteve a respirao.
- Queres met-lo no negcio das "exportaSes"?

- Vou tentar. Se o apanharem no passar de Pieter van 
Brouken, um louco, um irresponsvel. Como doutor Albez, pode 
cometer um crime: no poderiam castigar o seu corpo, que  o de 
Pieter van Brouken.  uma ocasio nica de metamorfosear algum 
que seria um criminoso, mas impossvel de condenar, pois uma 
dissociao da personalidade, o regresso  vida do defunto doutor 
Albez  um caso patolgico de extrema raridade, do qual at hoje 
so s conhecidos trs casos. Em resumo,  uma iluso do 
subconsciente, uma hipnose psicoptica: ele  um homem que 
esqueceu o passado!
- E se de repente desperta, se volta a assumir a sua 
verdadeira conscincia, se passa a ser de novo Pieter van 
Brouken?
O olhar de Manolda estava preso aos lbios de Destilhano.
- Ento continuar a viver sob hipnose... ou ter de se 
calar - respondeu o professor baixando a voz.
- Calar-se sem restriSes. Nas guas de Tenerife, existem agora 
tubarSes...
Manolda baixou os olhos. Sentiu mais uma vez um grande 
calafrio invadi-lo e no ousou fitar o fundo dos olhos glidos 
que o fixavam.
A vida surgia-lhe agora como um grande, um enorme enigma.

3

Lentamente, puxado pelos pequenos rebocadores que se moviam 
com extrema facilidade e tocavam a sereia a cada paragem, o 
Espanha penetrou numa manh de Junho, muito cedo, no vasto porto 
de Lisboa. O professor Destilhano e o Dr. Albez encontravam-se na 
ponte das cabinas de primeira classe e olhavam para a cidade que 
se estendia por sete colinas.
- Creio ver o Chiado - dizia justamente o Dr. Albez, 
definindo com a mo direita uma direco que cortava a cidade em 
diagonal. - E l em baixo, se no me engano v-se tambm, entre o 
nevoeiro, a nossa colina do Castelo!
O professor Destilhano respondeu com um sinal de cabea.
- V muito bem, caro doutor; diviso nitidamente o velho 
castelo. - Lanou um olhar rpido para o lado:
-        Eis-nos de regresso a casa, caro amigo!
Albez respondeu com um gesto de satisfao e espreguiou-se, 
como aps um longo sono.
- Estar finalmente de regresso a casa! Ah, esta expresso, 
"a nossa casa"! No entanto,  uma cidade como outra qualquer. Mas 
eu nasci aqui, por isso para mim  diferente, embora ningum nos 
espere.
- Ah! Desta vez engana-se, doutor. - O professor observava 
intensamente Albez. - A minha sobrinha est de visita a Lisboa e 
espera-nos com certeza no cais!
- Ah! - Agradavelmente surpreendido, o Dr. Albez olhou para 
o professor. - A pequena Anita Almiranda espera-nos? Que bela 
surpresa!
- Ela no  to pequena como isso! - respondeu Destilhano, 
sorrindo. - A pequena Anita tem agora vinte e dois anos e a sua 
beleza enlouquece os homens!
O professor espantava-se por verificar como Pieter van 
Brouken se tornara to completamente o Dr. Albez. Poderia ter 
sabido muitas coisas por acaso, mas s o falecido Dr. Albez 
conhecia Anita. "Tem realmente dentro dele a alma do morto", 
pensou Destilhano, e essa ideia f-lo estremecer.

Quando o navio acostou e a ponte foi instalada, viram no 
cais uma jovem de grande beleza, de lindos cabelos negros, 
encaracolados, que lhes fazia sinais com os braos erguidos, 
tentando avanar por entre a multido que ali se aglomerava.
O Dr. Albez, que reparou imediatamente nela, fez-lhe um 
cumprimento caloroso e voltou-se para o professor, que de sbito 
se tornara estranhamente silencioso.
- Foi uma excelente ideia termos vindo de barco desde 
Marselha e no de avio! - exclamou. - Temos pelo menos a 
impresso encantadora de entrarmos passo a passo na nossa ptria! 
Est a ver a sua sobrinha, professor?
- Com certeza - respondeu o mdico com um plido SOrriSo. - 
A pequena est radiante... H quanto tempo no v Anita?
- H dez anos, creio. Sim, ela tinha ento doze anos e eu 
vinte e cinco. Quando fiz o meu doutoramento em filosofia, ela 
foi felicitar-me, com um ramo de flores.
- Ento ela no o vai reconhecer - disse Destilhano, 
previdente e prudente. - O senhor mudou muito nestes ltimos dez 
anos.
-        Todos ns mudmos, professor! - exclamou Albez, rindo -, mas 
sobretudo a sua sobrinha. Est uma verdadeira beldade! Pode 
sentir-se orgulhoso dela, como seu tutor. Agora vou afastar-me um 
pouco porque estou a ver que aquele diabinho de cabelos negros 
vai tomar o navio de assalto!
Ps-se de lado rindo e, mal a ponte tocou no cais, Anita 
saltou por cima das tbuas, empurrou um dos oficiais que se 
encontrava na sua frente e com gritos de alegria saltou ao 
pescoo do professor.
Aps esta recepo tumultuosa, voltou-se um pouco 
timidamente para o Dr. Albez. Os seus grandes olhos negros, quase 
luminosos, examinaram-no, no pareceram reconhec-lo e pediram 
visivelmente uma explicao.
-        Ento? - perguntou o desconhecido. - Quem sou eu?
Anita, espantada, observou-o e em seguida voltou-se para o 
seu tio, que a fitou com um sorriso interrogador. Mas quanto mais 
olhava aquele homem e procurava nas suas recordaSes, mais aquele 
rosto lhe permanecia desconhecido. S a voz dele despertava nela 
ecos obscuros.
-        J h muito tempo que se no viam - disse o professor 
Destilhano com gentileza. - H dez anos!
E como Anita, admirada, abanasse a cabea e parecesse cada 
vez mais intimidada, o desconhecido foi em seu auxlio 
inclinando-se para ela:
-        Talvez o meu nome desperte em si recordaSes.
-        E chama-se?... - perguntou Anita, interessada.
-        Fernando Albez.
Os olhos de Anita arredondaram-se de assombro, abriu a linda 
boca, quis falar, mas calou-se sem nada dizer. Observava Albez em 
silncio e procurava entre as suas recordaSes um rosto que se 
esbatera. Depois balbuciou aps uma pausa:
-        O senhor  o doutor Fernando Albez?
Destilhano soltou uma gargalhada. Salvou habilmente a situao, 
que se tornava embaraosa. Considerava prova suficiente o facto 
de Anita admitir como normal a presena de Albez. No devia 
permitir que se estabelecesse a dvida e ainda menos que essa 
dvida se exprimisse. Desse modo segurou num brao do Dr. Albez:

-        Dez anos  muito tempo e por vezes uma pessoa pode 
mudar completamente no decorrer desses anos. Mas o nosso doutor 
conservou a sua voz, que soa to peremptria como sempre, 
parece-me! - exclamou com uma risada. -  uma voz com um timbre 
nasal, com ressonncias aristocraticamente insolentes! - E vendo 
Anita sorrir tambm, deu-lhe o brao e declarou com uma 
petulncia juvenil: - Vamos agora para terra! As bagagens 
seguir-nos-o. Alegro-me com a ideia de ir provar outra vez o bom 
vinho de Bucelas!
Lisboa  composta por quatro bairros muito diferentes que 
ilustram as mutaSes sofridas por essa cidade no decorrer dos 
sculos. A Alfama, miraculosamente preservada aquando do grande 
terramoto de 1 de Novembro de 1755 - enquanto o resto da cidade 
se desmoronava -, conta entre as suas belezas mais admiradas a 
colina do Castelo e a sua velha fortaleza. O Terreiro do Pao e 
toda a faixa da cidade reconstruda prolongam-se ao longo do Tejo 
em soberbas avenidas e ruas que se orgulham das suas casas, que 
lembram palcios.
O Bairro Alto, a cidade alta e Alcntara, na zona ocidental, 
surgem-nos cheios de vetustos edifcios que permanecem como 
recordaSes dos tempos gloriosos da expanso martima, alis 
ainda vivas nos monumentos que se erguem em Belm, cujas largas 
avenidas, ladeadas de belas moradias, dilatam esta cidade para os 
lados do Atlntico. Por tudo isto, a primeira impresso que se 
tem da cidade  de uma beleza fascinante. Mas se a observarmos 
mais de perto descobrimos que essa beleza no passa de uma 
fachada brilhante. Lisboa tem, com efeito, vielas estreitas, 
sujas e malcheirosas, cheias de recantos que fazem comunicar 
entre si as colinas, sobem a colina do Castelo e a rua do mesmo 
nome, a mais elegante nas pocas da fidalguia, e que agora no  
mais que uma ruela ladeada de velhos prdios em runas, 
impregnados do encanto misterioso das eras passadas.
Precisamente nessa rua moravam h muitos anos o professor 
Destilhano e o Dr. Albez. O professor habitava uma grande casa 
sombria, de aspecto patrcio, enquanto o Dr. Albez, seu vizinho, 
possua uma casa de um estilo mais agressivo.
Enquanto se dirigiam de carro para a Rua do Monte, o 
professor tentou encaminhar a conversa para essas duas casas. No 
decorrer dos dois anos que se tinham seguido  morte do 
verdadeiro Dr. Albez, o professor comprara esse terreno para a 
construir uma espcie de laboratrio-armazm ligado ao seu centro 
de pesquisas bacteriolgicas.  certo que ainda no fora 
assinalada ali qualquer descoberta sensacional, mas um cartaz com 
uma caveira e com um letreiro de aviso de perigo afastava do 
local todos os curiosos. At a Polcia, que no sentia qualquer 
interesse pelos bacilos da peste ou da clera, evitava passar por 
ali com receio do risco de contgio que representavam os 
laboratrios da Rua do Monte do Castelo, 12, tanto mais que o 
professor Destilliano era uma das mais respeitadas personalidades 
de Lisboa.
Assim, em casa do Dr. Albez, conservavam-se guardadas 
inmeras caixas com ampolas de morfina, outras de cocana e 
milhares de plulas, de um amarelo-acastanhado, as quais se 
mantinham protegidas do calor pelas suas embalagens hermticas: 
tratava-se de plulas de pio!

Tudo isso era ignorado pelo Dr. Albez. Ele morrera dois anos 
antes e s voltara  vida pelo fenmeno de transferncia de 
personalidade que se manifestara em Pieter van Brouken, apenas h 
alguns dias. Desse modo recomeava para o Dr. Albez a vida que o 
enfarte interrompera e o professor Destilhano preocupava-se com 
razo. Perguntava a si prprio como encararia o Dr. Albez as 
transformaSes ocorridas na sua casa.
-        Meu caro doutor - comeou com um ar um pouco 
entristecido - agora que regressmos ao nosso pas, e que vamos a 
caminho de sua casa, devo confessar-lhe o que calei at este 
momento por escrpulo sentimental...
O Dr. Albez, justamente empenhado com Anita numa animada 
discusso a respeito do que fariam no prximo domingo, ergueu os 
olhos para ele, admirado. Depois soltou uma gargalhada e 
declarou:
-        V, explique-se. J nada me pode assombrar!
-        No diga isso! - Destilhano tornou-se muito grave: -  
um erro pensar que desapareceu apenas durante cinco dias!
-        Sim? - O rosto de Albez franziu-se. - Eu adormeci no 
domingo passado numa plancie...
Destilhano murmurou ento, a meia voz:
-        E esse domingo foi j h dois anos...
-        Como? - O Dr. Albez que fitava fixamente o professor 
comeou a tremer. - Dois anos? Mas isso  impossvel! Peo-lhe 
que acabe com essas brincadeiras! No Posso ter dormido dois 
anos! Lembro-me perfeitamente que ia...
Destilhano fez com que ele interrompesse a frase que ia 
proferir abanando a cabea. Jogava um jogo perigoso, pois era 
possvel que novas perturbaSes psquicas provocassem um novo 
choque que levasse Pieter van Brouken a assumir de novo a sua 
verdadeira personalidade.
-        As suas recordaSes so de h dois anos - replicou do 
modo mais tranquilizador possvel. - Deve ter sido vtima de 
criminosos que o puseram num estado de transe desperto, no 
decorrer do qual, por vontade daquele que o manobrava, viveu dois 
anos  margem da sua conscincia!
Interiormente perturbado, incrdulo, com o rosto muito plido de 
horror, o Dr. Albez balbuciou:
-        Vivi ento dois anos sob hipnose com a identidade de 
Pieter van Brouken?
O professor Destilhano disse que sim com a cabea. No podia 
revelar-lhe que a verdade estava precisamente no oposto, pois ele 
era o autntico Pieter van Brouken e continuava a viver a 
existncia do falecido Dr. Albez. Mas a perturbao que sentia 
era suficiente para o fazer emudecer e ficar profundamente 
pensativo.
Anita, que nada percebia de tudo aquilo, olhava para um e 
para o outro, extremamente surpreendida e tomada de um vago 
pressentimento. Os seus grandes olhos negros estavam cheios de 
interrogaSes.
Ao fim de um longo silncio, o Dr. Albez passou a mo pelos 
olhos:
-        Mal posso acreditar - disse ele um pouco ofegante. - 
Viver dois anos de que nada se sabe!
-        Mas  assim mesmo! Eu, e isto prova-lhe a realidade dos 
factos, comprei a sua casa depois do desaparecimento e fiz dela 
um laboratrio.
-        O professor... - O doutor Albez abanou acabea...
-        Ento  verdade... Que loucura... que loucura total! Com os 
olhos fixos, mergulhou num devaneio pueril.

At mesmo a conversa de Anita se mostrava incapaz de o distrair. 
Tal como as ondas se movimentam alterosas em torno de um rochedo 
grantico sem conseguirem penetrar, assim as palavras da jovem 
no alcanavam o fundo da sua conscincia atormentada.
Quando o txi parou finalmente em frente do nmero 11 da Rua 
do Monte do Castelo - da casa onde vivia o professor Destilhano 
-, o Dr. Albez observou-a com manifesta curiosidade. O professor 
soltou um suspiro de alvio e o seu rosto perdeu a expresso 
tensa de mscara trgica. Cheio de uma alegria triunfante, saiu 
do txi e ajudou Anita e o Dr. Albez a fazerem o mesmo, pondo os 
ps na rua de grandes lajes desiguais.
Com um sorriso um pouco resignado e desamparado, Albez observou 
que a sua casa fora transformada num laboratrio bacteriolgico. 
O facto de saber que vivera dois anos inconsciente, em vez de 
cinco dias, tornava-o subitamente tmido. J no se fiava em si 
prprio.
-         claro que se vai instalar em minha casa - disse 
Destilhano, arrancando-o aos seus pensamentos. - Se a sua casa 
no estivesse totalmente transformada, eu entregava-lhe 
imediatamente. Terei agora de o indemnizar. mas tenho uma 
surpresa para si, algo que certamente muito o vai alegrar... a 
sua bela biblioteca!
Uma luz brilhou nos olhos do Dr. Albez.
-        Ainda tem os meus livros? - exclamou. - Nesse caso a 
minha perda diminui em metade! Eu possua s uma paixo. A minha 
biblioteca! - Voltou-se para Anita: - At hoje, at eu a ter 
voltado a encontrar...
A rapariga corou violentamente, baixou os olhos e, com 
passos rpidos, precedeu os dois homens a entrar na casa.
Sorrindo, Destilhano ergueu a mo ameaadora e disse num tom 
de alegre gracejo:
-        No perturbe essa menina, doutor. Ela  que costuma 
cozinhar e eu prefiro no comer as minhas sopas demasiado 
salgadas!
O apartamento destinado ao Dr. Albez ficava no primeiro 
andar e possua uma vista magnfica para o castelo, cintilante de 
sol.
A nova casa inclua um vasto quarto, uma sala que abrigava a 
sua antiga biblioteca, uma salinha e uma espaosa varanda. Nesta 
viam-se cadeiras de repouso e guarda-sis, os quais escondiam um 
pouco a vista do jardim, que se encontrava em estado 
verdadeiramente selvagem. O professor Destilhano residia no 
rs-do-cho e Anita Almiranda no segundo andar. Nas guas-fur 
tadas ficavam alojados um criado, uma mulher que tratava das 
roupas e um jardineiro, de cujas presenas e actividades o Dr. 
Albez s tardiamente se veio a aperceber. Quanto ao jardim no se 
preocupava de todo com ele.
Quando abria as janelas da sala e olhava ao longe, por cima 
da cidade, sentia muitas vezes um peso angustiante no peito ao 
pensar que devia um dia deixar aquela existncia deliciosamente 
livre, para nunca mais voltar a t-la. Ento, muito 
frequentemente, refugiava-se no seu sof e lutava com todas as 
suas energias contra os melanclicos pensamentos, com a ajuda de 
uma boa garrafa de vinho ou de um cigarro americano, bem forte.

No primeiro dia, o Dr. Albez esteve muito ocupado a arrumar 
os livros da sua biblioteca, cuja disposio fora alterada por 
outras mos que ali os tinham colocado. A perda da sua casa 
afectava-o menos por o professor Destilhano lhe ter prometido 
dar-lhe a quantia que pagara para a adquirir, ou ento 
comprar-lhe outra casa do mesmo preo.  certo que Albez 
recusara, mas, ao mesmo tempo, sentia-se mais tranquilizado por 
saber que no dependia inteiramente da generosidade amigvel de 
Destilhano.
Desse modo dedicar-se-ia com entusiasmo a escrever o seu 
novo livro, no qual contaria as suas aventuras no decorrer dos 
dois ltimos anos, cuja memria lhe escapava.
Duas noites depois da sua chegada a Lisboa, Destilliano 
levou o Dr. Albez para a sua sala e convidou-o a sentar-se.
- Meu caro Albez - perguntou com gravidade - est realmente 
disposto a comear a escrever uma nova obra?
- Com certeza que sim - respondeu Albez, que no esperava 
aquela pergunta.
- E tenciona publicar esse livro com o nome de Albez?
- Certamente. Porque no o faria? Foi o que sempre fiz com 
os meus outros livros!
Destilhano, que meneava a cabea, ficou uns momentos silencioso:
- Entretanto, decorreram dois anos... o doutor foi dado como 
desaparecido... A Polcia procurou-o incansavelmente. E em vo. 
Agora passa por ter morrido.
- Uma coisa muito interessante!
- Sim. Se o doutor reaparecesse daria lugar a um fluxo 
infindvel de depoimentos, de comunicados.
O ministrio meter-se- no assunto, que se tornar uma 
"sensao". Haver inquritos... bem, o grande aparelho 
administrativo funcionar em pleno e era isso que eu queria 
evitar no seu caso j por si to cheio de mistrios. Tenho 
atalhado todas as conversas a seu respeito dizendo que se trata 
de um visitante vindo de Espanha.
O Dr. Albez ficou de tal modo surpreendido que no soube que 
responder.  certo que no conseguia entender as razSes apontadas 
pelo professor Destilhano, pois uma " sensao" como aquela s 
poderia ser til para as suas futuras obras. Mas, por outro lado, 
reconhecia a impossibilidade de arrastar os amveis anfitriSes 
para um escndalo pblico.
-        E na pele de que marioneta precisarei de continuar a 
viver? - perguntou, sarcstico.
Destilhano sorriu:
- Ser Jos Biacondero, de Sevilha, escritor e meu parente, 
mas apenas para as pessoas de fora. Para mim e para Anita ser... 
- hesitou perante o ridculo daquela declarao - ser sempre o 
doutor Fernando Albez.
Como esse escolho fora contornado com facilidade,
o professor Destilhano no viu qualquer perigo em lanar o seu 
amigo na sociedade. Era desconhecido nesse ambiente e se se 
lembrasse de se apresentar como sendo o falecido Dr. Albez, esse 
gracejo seria considerado como perfeitamente desprovido de tacto. 
Claro que era impossvel saber quando  que ele poderia ser 
metido no negcio das "ExportaSes". Antes do mais, Destilhano 
queria limitar a sua aco pessoal e observar de perto o seu 
comportamento, deixando a rdea curta ao seu "doente", como 
intimamente o designava.

Com particular ansiedade esperava o desenrolar das relaSes 
de Albez com Anita. A sua conscincia pouco se preocupava com o 
facto de Pieter van Brouken ter em Amesterdo uma esposa desolada 
e um filho. Para ele aquele caso era apenas uma experincia 
psicolgica, mas tambm um campo de pesquisas ainda virgem que se 
inclua entre os problemas insolveis da humanidade!
No decorrer das semanas seguintes, ternos elos, se bem que 
inconscientes, foram-se criando entre o Dr. Albez e Anita. Se bem 
que o escritor mal sasse do seu quarto e passasse a vida 
debruado sobre o papel, descansando apenas para se recompor ou 
para lanar um olhar penetrante  corada Anita, ambos sabiam, no 
fundo do corao, que aquela espera acabaria por ter um fim. Foi 
numa quente noite de Agosto que se desataram os primeiros laos 
que apertavam os seus coraSes.
O professor Destilhano fora de carro a Belm ver um doente e 
o Dr. Albez encontrava-se sentado no jardim verdejante. Observava 
dali o Monte do Castelo, que o sol-poente iluminava de tons 
prpura. Tinha na sua frente uma folha de papel e pensava num 
captulo para o seu novo romance.
Uma atmosfera escaldante pesava sobre o jardim. Parecia at 
que se tornava difcil respirar.
Permaneceu assim uns instantes, com os olhos fixos no 
castelo, que cintilava agora com tons de violeta. Quando se 
voltou para pegar na caneta, Anita, sorridente, encontrava-se na 
frente dele. No a ouvira chegar. Ficou espantado, mas 
estranhamente encantado por a ver.
- Voc, Anita? - perguntou em voz involuntariamente baixa.
- Atravessava o jardim quando vi aqui uma mancha branca. 
Aproximei-me e vi que era voc.
A conversa dificilmente comeada foi interrompida. No havia 
qualquer ligao que permitisse continu-la. Finalmente, depois 
de ficarem um momento frente a frente, intimidados e silenciosos, 
ela disse-lhe:
-  capaz de estar a trabalhar ao ar livre com este calor?
- Estou apenas a reunir recordaSes - replicou ele. - 
Estabeleo a aco e indico o seu desenrolar.
-        E em que pensava enquanto observava o castelo? Em 
pases distantes, no pr do Sol sobre o mar, em horizontes sem 
limites?
- pensava no amor e numa mulher deliciosamente bela.
Anita baixou os olhos e ps-se a mexer nos botSes do 
vestido. S ento Albez reparou nesse vestido de tecido leve com 
um de cote generoso.
- Voc  um conto de fadas, um sonho, Anita.
- No diga isso - retorquiu ela, perturbada. - Posso acreditar...
-        Anita!
Atraiu violentamente para si a jovem trmula, ergueu-lhe a 
cabea e fitou intensamente as suas plpebras palpitantes.
-        Anita... no sei se isto  loucura... paixo... 
ignoro-o, mas... sei que te amo!
- Fernando! - Anita rodeou com os seus braos macios o 
pescoo do Dr. Albez. - Fernando... desde que te conheci adormeo 
todas as noites a pensar em ti.

Albez beijou loucamente os lbios hmidos de Anita e, 
sentindo que ela retribuia, no foi capaz de deixar de estremecer 
ao contacto dos seus dentinhos aguados e ao sobressalto do seu 
corpo sensual. Os joelhos dela dobraram-se, depois encostou-se a 
Albez, acabando por cair nos seus braos. Em seguida, inclinou-se 
para trs e fechou os olhos.
- Anita - balbuciou ele.
Caiu no solo, mantendo-a apertada contra si. A erva 
roava-lhe pela nuca.
O jovem corpo ardente desabrochou entre os seus braos.
Quando as sombras cinzentas da noite subiram do Monte do 
Castelo at ao jardim, eles estavam os dois estendidos na erva, 
de mos dadas. Ofegantes, olhando para o cu cinzento e amarelo, 
os seus coraSes pareciam ter dificuldade em bater.
Anita recolheu lentamente algumas flores pisadas que se 
tinham colado ao seu vestido, enquanto Fernando, envergonhado do 
seu arroubo, continuava a fitar o cu, que empalidecia 
lentamente.
- Tu s o primeiro homem ao qual eu perteno - disse ela 
ternamente.
- Bem sei - respondeu ele num murmrio.
- Amo-te tanto que me dou toda. S me darei uma vez. Agora 
somos um do outro para sempre. S a morte poder separar-nos.
- S a morte - murmurou Fernando, fechando os olhos.
Ela inclinou-se sobre ele e beijou-lhe as plpebras. Quando 
quis abraar Anita, sentiu os seios dela nas suas mos. 
Estremeceu.
- Meu anjo, minha feiticeira... receio o meu ardor perante o 
teu amor...
- Ah! Arde... abrasa-me e consome-me! - murmurou Anita 
apaixonadamente, e quando ele a puxou para si e a envolveu nos 
seus braos balbuciou com voz fraca:
- Fernando... eu queria ter um filho... um filho teu...
Pouco mais ou menos em meados de Setembro, o professor 
Destilhano props ao Dr. Albez acompanh-lo numa viagem a Las 
Palmas, s ilhas Canrias. Precisava de l ir tratar de uns 
assuntos e achava que Albez tinha necessidade absoluta de 
repousar um pouco da sua intensa actividade literria. De resto, 
observou, no lhe falava como amigo, mas como mdico. Quatro a 
seis semanas a respirar a brisa do mar far-lhe-iam muitssimo bem 
e ele insistia para que o Dr. Albez aproveitasse essas frias. 
Afinal, a sua reputao como mdico exigia que ele tivesse em sua 
casa um hspede bem saudvel.
O Dr. Albez aceitou, rindo. No sabia, nem desconfiava 
sequer, que o professor tinha um objectivo bem real a atingir com 
essa viagem. O cnsul Manolda certamente que sentiria de novo um 
arrepio na espinha se ouvisse aquelas alusSes a Las Palmas. 
Destilhano, a cujo olhar penetrante nada escapava, reparara na 
paixo ardente que se apoderara de Anita e do Dr. Albez e 
suportava-a em silncio, pois ela servia perfeitamente os seus 
desgnios. Albez parecia agora completamente prisioneiro dos 
laos amorosos de Anita e vivia apenas na expectativa das noites 
que juntavam em segredo os dois amantes no apartamento de 
Fernando.

Esse estado de embriaguez era o melhor instrumento nas mos 
de Destilhano, que projectava introduzir prudentemente o Dr. 
Albez nas suas actividades de "Exportao" em Las Palmas, a fim 
de lhe dar a oportunidade de enriquecer e se tornar independente 
com o nome de Jos Biancodero. Na vertigem dos sentidos, o Dr. 
Albez s muito raramente trabalhava no seu livro. A maior parte 
das vezes ficava estendido numa cadeira de repouso, na varanda, 
pensando nos beijos de Anita e esperando febrilmente pela noite.
O jogo que Destilhano pretendia jogar era perigoso. Se Albez 
se recusasse a segui-lo, ver-se-ia forado a liquid-lo para 
salvar tanto os seus negcios como a sua prpria pessoa. O 
desaparecimento de Albez no daria nas vistas, pois Manolda 
informara-o, de Amesterdo, que tinham oficialmente chegado  
concluso de que Pieter van Brouken se suicidara e que o caso 
fora encerrado.
Um homem vivo ficava assim apto a desaparecer, a 
volatilizar-se sem que quem quer que fosse se apercebesse disso. 
Passava-se um trao sobre esse homem e estava tudo acabado. E se 
ainda se encontrasse vivo devia ento desaparecer para no 
ocasionar outras dificuldades. Como Pieter van Brouken, 
morrera... Como Dr. Albez vivia  margem da sua conscincia, fora 
de h muito riscado dos registos e nunca existiria como Jos 
Biancodero... que era um produto da sua imaginao. Seria fcil 
faz-lo desaparecer se ele se recusasse a acompanh-lo. Havia 
ainda tubarSes nas guas que banhavam as costas de Tenerife.
Numa radiosa manh ensolarada de Setembro, embarcaram para 
Tenerife e vogaram sobre as guas calmas de reflexos verdes do 
Atlntico.
As ilhas Canrias so uma antiga possesso espanhola. 
Erguidas no meio do vasto oceano, protegidas do assalto das ondas 
por recifes, essas pequenas ilhas paradisacas gozam de 
verdadeira abundncia. Os frutos, os vinhos e a produo dos 
artesos locais constituem a base de um comrcio activo com o 
continente europeu.
Las Palmas, prxima de Santa Cruz, na ilha de Tenerife, a 
maior das ilhas do arquiplago,  um lugar ideal para frias, 
pois a cidade de Las Palmas  clebre pelos seus vinhos, pelos 
canrios e pelas prostitutas, que habitam na parte alta da 
cidade.
Aquela costa sombria do paraso das bananas e das viagens de 
npcias era tambm uma excelente ddiva para o professor 
Destilhano. De facto, este tinha, por entre as numerosas angras 
que ornavam a beira-mar, os seus pontos de desembarque, os seus 
esconderijos e os seus vendedores, que s trabalhavam  noite, as 
suas "pocilgas" - termo pelo qual os habitantes da ilha designam 
essas cabanas do vcio. Para Distilhano, elas representavam a 
placa giratria das suas exportaSes em expanso.
Quando,  chegada, passaram em frente da catedral com as 
suas duas torres gticas, para se dirigirem para a parte alta da 
ilha, o Dr. Albez fitou o professor com surpresa e abrandou o 
passo.
- Para onde me leva? - perguntou, assustado, olhando  sua volta. 
O seu olhar fitava raparigas pobremente vestidas, mas 
agressivamente maquilhadas, de cabeleiras frisadas, que se 
mostravam s portas das casas. Via seios nus oscilarem sobre os 
parapeitos das janelas e prostitutas adolescentes estendidas, 
nuas, diante de velhas casas de adobe.
-        No veio com certeza a Las Palmas para me mostrar esta 
srdida rua de bordis!
Destilhano abanava a cabea como era seu costume quando 
tinha algo de importante a dizer:

-        Sim e no! Em todo o caso  preciso habitar... como 
disse voc?... este bairro de aspecto repugnante!
- Como hei-de compreender tal coisa?
- Pense que tenho aqui o meu segundo domiclio.
- Professor!
- Compreendo-o e partilho inteiramente a sua repugnncia, 
meu caro doutor. - Destilhano sorriu docemente, mas na sua mente 
agitavam-se j ideias sobre as consequncias que adviriam de uma 
provvel recusa de Albez em cooperar com ele. "Mas se eu lhe 
explicar por que razo vivo entre as prostitutas da mais baixa 
estirpe, os chulos, os homossexuais, os larpios e at talvez 
assassinos, achar a situao menos absurda. Primeiro, uma 
questo crucial. " Julga que com o exerccio da medicina eu ganho 
o dinheiro suficiente para poder manter o meu nvel de vida?
O Dr. Albez hesitou antes de responder e olhou o Dr. 
Destilhano com uma expresso interrogativa.
- Nunca pensei nisso - disse por fim.
-  um erro. Deve-se observar bem o tio da herdeira que se 
ama.
O Dr. Albez, cada vez mais confuso, caminhava agora de olhos 
baixos, remexendo nos botSes do seu casaco. Como Anita tinha o 
costume de fazer, notou o professor Destilhano.
-        Perdoe esse abuso de confiana, senhor professor - 
disse Albez a meia voz. - J h muito tempo que penso em 
apresentar-me a si para lhe confessar...
-        Que gosta de Anita. Sei-o h muito tempo. assim como 
tenho conhecimento das vossas visitas nocturnas recprocas. At 
agora nada disse e suportei tudo porque voc  um rapaz 
extraordinrio e o melhor marido que se possa imaginar para 
Anita.
-        Senhor professor...
-        Silncio. Falaremos dessa questo mais tarde, em 
Lisboa, em companhia de uma boa garrafa de vinho. Mas digo-lhe 
desde j que sim. Em todo o caso, convir que voc reflicta na 
maneira de arranjar dinheiro para o meu padro de vida...
- O senhor professor  clebre...
- Clebre! A celebridade nada me rende. Conheo celebridades 
que morrem de fome. Pense em Mozart, em Schubert, em Schiller! 
Medite no destino de Cervantes. E o velho Shakespeare no teve 
melhor sorte. Ter um nome clebre de nada vale diante de uma mesa 
vazia!  preciso compensar essa indigncia!
Enquanto decorria esta conversa. tinham entrado numa 
estreita ruela lateral. Logo de seguida, pararam diante de uma 
construo de um s andar que parecia um hangar. Destilhano abriu 
a porta que rangeu e entrou. Foram rodeados por uma escurido 
total. Quando Destilhano acendeu um candeeiro de petrleo, o 
compartimento sem janela iluminou-se com uma plida claridade.
Uma espessa camada de poeira cobria o cho de terra batida. 
Contra as paredes estavam empilhados, at ao tecto, caixotes de 
madeira de todos os tamanhos. No meio do vasto compartimento 
via-se uma mesa tosca, coberta por uma camada de p com um dedo 
de altura, sobre a qual o candeeiro de petrleo fumegava.

-        Antes de continuar, queria terminar a nossa conversa - 
disse Destilhano, sacudindo a poeira que se lhe agarrara s mos. 
- Deve estar surpreendido com este lugar.
-        Confesso que sim - respondeu francamente Albez, voltando-se 
para todos os lados. - Estou a ver que nos encontramos num 
armazm.
-        Exacto! Mas onde amos ns? Ah, sim... trata-se de 
ajudar pecuniariamente a presunosa celebridade. Por essa razo 
ocupo-me de vrios negcios comerciais que as alfndegas e as 
comissSes de controlo das exportaSes ignoram totalmente.
O Dr. Albez abanou a cabea e bateu com os ns dos dedos nos 
caixotes.
-        Esto cheios - disse laconicamente
-         exacto. Contm todas um preparado secreto contra o 
bacilo da tuberculose.
-        Porque razo  secreto? Se esse preparado for um 
remdio activo contra a tuberculose, descoberto por si...
-         verdade...
-        O senhor  portanto um benfeitor da humanidade
- A chama do entusiasmo que animava o Dr. Albez era comovente. - 
Se conseguir lutar vitoriosamente contra essa chaga da 
humanidade, ser o salvador de milhSes de indivduos! Para qu 
esse segredo. essa fuga aos rigores da lei?
O professor sorriu e encostou-se a uma pilha de caixotes.
-        Novamente a sua ideia fixa. A celebridade! Tem uma 
noo muito idealista da vida, meu caro doutor! Se tivesse 
apelado para a publicidade para dar a conhecer este medicamento 
infalvel, ele acabaria por se tornar monoplio do Estado e 
ter-me-ia sado das mos. Eu receberia uma indemnizao e 
percentagens irrisrias e, ao fim de certo tempo, esta 
especialidade seria imitada, talvez mesmo melhorada e lanada no 
mercado mundial, fazendo concorrncia a este medicamento. 
Resultado: seria apenas vento! Prefiro ter nas minhas mos o 
segredo da minha frmula: conquisto, embora ilegalmente, o 
mercado mundial, sem ter de recear a concorrncia, e ganho assim 
milhSes! Tenho na mo a Europa Meridional, Central e a 
Setentrional! Os meus agentes sulcam j o mundo de leste a oeste, 
e a sia ser conquistada fazendo-se um frutuoso desvio pela 
Austrlia!
O Dr. Albez estava completamente assombrado, mas os seus 
olhos brilhavam.
- Isso  formidvel, senhor professor, e, apesar de eu no 
estar de acordo com a sua justificao da ilegalidade, reconheo 
que o doutor realizou uma grande coisa!
-        Cada vez as farei maiores! - exclamou orgulhosamente 
Destilhano. - E o doutor ir ajudar-me a realiz-las!
O Dr. Albez no soube que responder, mas, quando por fim 
percebeu o significado dos pequenos sinais de encorajamento que o 
professor lhe dirigia, precisou de uns momentos para se 
familiarizar com a ideia que no chegara a ser expressa. Ao fim 
de um longo momento, perguntou:
- Est a pensar seriamente em me meter no seu sistema ilegal 
de exportaSes?

- Seriamente  dizer muito. Sejamos francos, doutor: depois 
de passar dois anos desaparecido usando um nome que no  seu, 
ser-lhe- extremamente difcil retomar o seu lugar na sociedade, 
como escritor, segundo as normas correntes. Como no tinha 
herdeiros, a sua fortuna passou para o Estado. Ser preciso algum 
tempo para que a sua nova obra esteja publicada, mas creio que 
deseja casar com Anita o mais brevemente possvel...
-        Com certeza - murmurou Albez.
- H muito tempo que observo os seus esforos desesperados 
para obter a independncia da sua pessoa e dos seus actos. Ora eu 
estou a oferecer-lhe o que o doutor tanto deseja! Como tio da sua 
futura esposa, tenho direito de precedncia neste campo. O que o 
doutor ter a fazer ao certo ser-lhe- explicitado mais tarde. 
Pensei em introduzi-lo no negcio como agente de ligao entre 
Lisboa e Amesterdo. Ter ento o seu segundo quartel-general em 
casa do cnsul Manolda.
-        Do cnsul Manolda?
-        Sim. Ele representa os nossos interesses em toda a 
parte ocidental do continente.
O Dr. Albez ia de surpresa em surpresa. O facto de o cnsul 
ser tambm membro dessa rede comercial ilegal provava a extenso 
e o significado desse contrabando pois aos olhos da lei no era 
outra coisa!
Por instantes, o Dr. Albez hesitou em dar uma resposta. 
Depois pensou em Anita, nos seus lbios rosados entreabertos, nos 
seus abraos ardentes. Pensou nessas noites espantosas e sentiu o 
seu corao consumir-se no fogo maravilhoso desse amor.
-        Geralmente no estou de acordo com transacSes obscuras 
- disse prudentemente. O professor Destilhano continha a 
respirao, ao mesmo tempo que metia lentamente a mo direita no 
bolso do casaco e apertava com fora um revlver, apontando o 
cano para fora, atravs do tecido do casaco. - Peo-lhe que me 
desculpe -, continuou Albez - por qualificar de obscura uma 
actividade que auxilia milhSes de pessoas e as salva de uma 
doena horrvel. E no  por ser o tio...
Destilhano fez deslizar um dedo pelo gatilho da arma...
- mas pela nica razo de o seu medicamento salvar vidas que 
aceito o seu oferecimento para tomar parte nos seus negcios e 
nas suas "exportaSes comerciais".
Com um profundo suspiro de alvio, Destilhano tirou a mo do 
bolso e bateu amigavelmente no ombro do Dr. Albez com o sorriso 
mais cordial. "Ganhei!", pensou com satisfao. "Agora que a 
cocana inunde o universo!"
-        Meu caro Albez - disse em voz alta -, com essa deciso 
determinou a sua sorte! Esta semana mesmo, ser encarregado de 
uma misso especial e embarcar num iate particular com destino a 
Amesterdo, onde voltar a encontrar o cnsul Manolda! E agora... 
- empurrou uma porta no fundo do armazm; o sol invadiu o 
compartimento e os seus raios fizeram brilhar as nuvens de p que 
se levantaram, dando a impresso de uma nvoa cintilante -... 
vamos festejar dignamente a nossa amizade reforada. Tenho aqui 
umas garrafas de malvasia, a que os nossos antepassados chamavam 
o champanhe das Canrias!
Penetraram numa vasta sala clara de grandes janelas com uma 
bela vista sobre as colinas e a cidade de Las Palmas. 
Elegantemente mobilada com mveis de junco e uma grande 
ventoinha, parecia de um asseio meticuloso... prova de que fora 
recentemente habitada.

Com um suspiro de alivio, pois fazia ali um calor de estufa 
nesse dia de Setembro, o professor Destilhano deixou-se cair numa 
das cadeiras de junco e limpou o suor que lhe cobria a testa 
enrugada. Agora que considerava o Dr. Albez como um alcolico, 
abandonava um pouco o tratamento cerimonioso que utilizara at 
ento e mostrava-se mais  vontade.
-        Que calor! - gemeu, apontando com um brao estendido 
para um armrio que se encontrava no fundo da sala. - V buscar 
ali uma garrafa de malvasia. Tire-a da geleira que l se 
encontra. Sinto-me demasiado preguioso para me mexer, caro 
doutor!
Rindo, Albez tirou uma garrafa do armrio, admirando a 
geleira ali colocada, a qual fora recentemente fornecida com 
grandes blocos de gelo.
- A sua organizao  surpreendente, professor - disse um 
pouco sarcasticamente -, e o seu pessoal pensou em tudo, excepto 
em limpar o armazm!
- Nada disso! - exclamou Destilhano com uma gargalhada. - Os 
armazns poeirentos do a impresso de inexistncia de actividade 
e  precisamente essa ideia que eu quero dar no caso de uma 
visita inopinada da comisso de controlo!
Tirou habilmente a rolha da garrafa com um saca-rolhas de bolso e 
deitou o vinho xaroposo, mas espumoso, nos copos trazidos pelo 
Dr. Albez. Destilhano aspirou deliciado o contedo do seu copo, 
que aproximou das narinas.
- No existe ouro que iguale um tal nctar! declarou 
jovialmente. -  sua sade, caro doutor!
Depois de terem tocado com os copos um no outro e bebido, 
Destilhano disse maliciosamente:
- A sua carreira  realmente um verdadeiro conto de fadas! 
Desapareceu durante dois anos, passou por morto-vivo em estado 
hipntico na pessoa de Pieter van Brouken, ressuscitou na pele de 
Jos Biancodero; tornou-se amante da minha sobrinha e meu 
associado no negcio ilegal de produtos farmacuticos!
- Associado? - O Dr. Albez ergueu-se bruscamente, incapaz de 
dizer mais uma palavra.
- Ah! Eu no lhe tinha ainda dito? Quero que vocs sejam 
felizes, voc e Anita. E parte do dote que darei a Anita  
representada por dez por cento dos lucros lquidos que eu tiver. 
Portanto, agora depende de si ganhar milhSes ou transformar-se 
num pequeno burgus com conta aberta na Caixa Econmica!
O Dr. Albez precisou de uns momentos para assimilar essa 
nova surpresa, mas em seguida ergueu-se de um
salto e apertou a mo ao professor, querendo falar.
O entusiasmo e a alegria tinham-no emudecido e ele no
conseguiu fazer mais do que apertar vrias vezes a mo
a Destilhano mas sempre com uma expresso radiante. Com uma 
energia disfarada, o professor libertou-se
suavemente e encaminhou o Dr. Albez para a cadeira mais prxima.
- Meu amigo, voc tem uma fora dos diabos nos braos! Eu 
preciso das mos em bom estado para tratar dos meus doentes! 
Bebamos ento  nossa sade!
Anoiteceu antes de os dois homens se levantarem dali, 
cambaleando visivelmente. Encostadas s cadeiras de junco viam-se 
seis garrafas vazias, e uma outra, de conhaque, permanecia em 
cima da mesa, meio vazia, cintilando  luz do poente cor de 
prpura...
Oscilando como um pndulo da esquerda para a direita, o 
professor Destilhano ajudou o Dr. Albez a pr-se de p depois 
deu-lhe grandes palmadas nas costas:

-        Aguentemo-nos, Fernando! - exclamou, cambaleando de 
maneira inquietante, com os cabelos em desordem, o rosto vermelho 
e suado. -  preciso  sabermos aguentar-nos bem, Fernando!
-        Estou to cansado, to cansado - balbuciou Albez de 
olhos fechados, agarrando-se ao professor com as duas mos. - Uma 
cama, o meu reino por uma cama!
- s um prdigo! - exclamou Destilhano, oscilando pesadamente e 
arrastando o companheiro quase inconsciente para uma porta que 
dava para um compartimento contguo. Com mo trmula abriu-a, 
oscilando perigosamente no seu limiar. -  preciso beber mais! - 
rugiu. - Compreendes, Fernando, beber  uma das actividades 
fundamentais durante as grandes transacSes comerciais e os 
xitos que delas resultam. O vencedor  sempre o ltimo a ficar 
de p.  preciso aprender a beber...
Albez no respondeu. Adormecera sobre o ombro de Destilhano, 
que o puxou com todas as suas foras para a sala, na qual se viam 
algumas camas de campanha alinhadas contra a parede. Deixou cair 
o Dr. Albez para cima de uma delas e rebolou para cima de outra.

Quinze dias mais tarde, o Dr. Albez partia de Las Palmas 
para Amesterdo a bordo do iate do Dr. Destilliano, carregado at 
aos bordos.
O dia estava magnfico, cheio de sol.
Pensava realizar uma boa obra salvando milhSes de seres 
humanos com a sua ajuda para a luta contra o bacilo da 
tuberculose. Mas o que ele no imaginava era que ia fazer 
precisamente o contrrio. Ia concorrer para apressar a morte de 
milhSes de pessoas, ao dar o seu contributo para o contrabando de 
cocana e de pio...

4

O comissrio-chefe da Polcia, Antnio de Selvano, encontrava-se 
de mau humor. Sentado  sua secretria, olhava para uma pilha de 
dossiers vermelhos. Na sala de espera, os secretrios conversavam 
em voz baixa e com expressSes receosas despediam todos aqueles 
que ali se apresentavam a pedir para falar com o comissrio.
A atmosfera era pesada, extremamente pesada, na seco 
central da brigada encarregada de desmantelar o trfico de 
estupefacientes. Antnio de Selvano, um dos mais capazes e mais 
astutos funcionrios da Polcia Criminal portuguesa, andava s 
cegas desde h um ano, altura em que tomara posse do lugar de 
chefe da seco de luta contra o pio. No s trabalhava 
absolutamente s escuras, como sabia que o trfico do mortfero 
comrcio era trs vezes mais importante que no incio da sua 
misso, e isso apesar de todas as medidas de segurana e de 
represso tomadas, apesar da vigilncia na fronteira e na costa 
De Amesterdo, Anturpia, Hamburgo, Brema, Copenhaga, Oslo, 
Estocolmo, Atenas, Siracusa, Istambul, e at do Cairo, 
chegavam-lhe notcias alarmantes que transformavam o comissrio 
num guerreiro furibundo. digno de antigas narrativas.

-        Mais! - gritava ele nesse momento, atirando um monto 
de telegramas para cima da sua grande secretria coberta de 
papis. - Manifestam-se tambm em Belgrado e em Argel. Apareceu 
ali grande quantidade de cocana em bruto! Caixotes com marcas 
portuguesas. S em Fez, no decorrer de uma rusga, foram detidos 
trezentos e cinquenta intoxicados incurveis! As embalagens 
descobertas eram provenientes de Portugal! Vocs sero todos uns 
idiotas? - rugiu. - S terei sob as minhas ordens polcias 
estpidos? Quero ao menos um indcio, uma pista, um ponto de 
apoio! Isso bastar-me-ia. Preciso de saber por onde comear!
Primo Calbez, o clebre "polcia secreta" portugus, 
conhecido pelo seu faro, franziu o sobrolho e abanou a cabea de 
cabelo escuro e encaracolado.
-        Reconheo que  um negcio sujo! Mas que hei-de fazer? 
Esses traficantes de cocana gozam de numerosas protecSes! Eu 
poderia ter uma pista, mas...
-        Mas o qu? - Selvano levantou-se de um salto. - Calbez, 
meu rapaz, fale! Descobriu alguma coisa?
- Descobri? Bem, no se trata precisamente de uma 
descoberta. Verifiquei uma coisa.
-        O qu? Voc tem uma maneira de falar que me pSe doido!
Calbez sorriu, como que a desculpar-se:
-        Verifiquei simplesmente que um desconhecido vive desde 
h um ms em casa do professor Destilhano, na Rua do Monte do 
Castelo. No foi identificado.
O comissrio-chefe fez uma careta como se tivesse mordido um 
limo verde. Depois teve um gesto de violenta negao.
-        Calbez, voc  um animal pouco respeitador. No vai 
certamente acusar o bacterilogo mais clebre de Portugal de 
fazer contrabando de cocana? Quanto a mim, ele podia ter um 
desconhecido em sua casa durante dez anos que no me ocorreria a 
ideia de que pudesse entregar-se a actividades repreensveis.
-        Esse convidado parece ser amante da bela Anita 
Almiranda - observou Primo Calbez secamente. - Tm sido vistos 
frequentemente na cidade. de brao dado!
-        Estar voc com cimes? - Selvano sorriu. - Calbez. 
parece-me que est a confundir a sua vida particular com o 
trabalho. Isso  o comeo do fim de uma carreira! De resto. a 
razo da demorada estada desse indivduo em casa do professor 
fica assim perfeitamente esclarecida.  um libi, como num 
romance. Acresce ainda que o professor Destilhano  muito 
correcto e j me ps ao corrente da presena do seu amigo. Esse 
senhor veio de Espanha e chama-se... - Procurou recordar-se 
durante uns momentos -... bem, creio que se chama Jos Biancodero 
ou coisa parecida. Essa "pista no passa, portanto, de uma noz 
oca. meu velho!
O detective no se deixou impressionar pelo tom sarcstico 
do seu superior. Abriu a carteira. tirou de l uma agenda usada e 
comeou a folhe-la. recostado na sua cadeira. Selvano 
observava-o, intrigado. Sabia que quando Calbez tirava a sua 
velha agenda do bolso as surpresas no se faziam esperar.
-        Primeiro. queria frisar - disse Calbez com voz calma - 
que o dito Jos Biancodero (pois ele chama-se de facto assim e eu 
admiro a sua memria, chefe, chegou a Lisboa h mais de um ano, 
em Julho do ano passado. O professor acompanhava-o. Foi-me 
possvel saber que embarcaram a bordo do vapor Espanha em 
Marselha.

-        E ento?
-        O dito Biancodero  natural de Sevilha!
-        O que no o impediria de embarcar em Marselha!
-        Marselha  o porto de transbordo das cargas dos 
contrabandistas de pio!
-        Sempre o foi! Isso so fantasmas. Nesse caso teramos 
de prender todos os estrangeiros que embarcassem em Marselha!
-        Talvez. Mas continuemos: que diz ao facto de, em 
particular, Anita tratar Jos Biancodero por Fernando?
-        O qu? - Selvano sobressaltou-se e passou a mo pelos 
olhos. mas logo a seguir sorriu: - Disse Fernando?
-        Sim. Bem, primeiro pensei que se tratasse de uma 
alcunha afectuosa, mas no me parece. A verdade  que Anita 
quando est a ss com esse indivduo lhe chama Fernando e na 
frente de terceiros lhe d o nome de Jos.
-         um capricho. Fernando deve parecer a essa rapariga um 
nome mais harmonioso que Jos. Voc no conhece as mulheres, 
Calbez. Elas so cheias de fantasias!
-        Desagradvel! Mas que diz a isto, chefe: o professor 
Destilhano comprou, h trs anos, a casa que fica ao lado da sua.
-        Estava no seu direito.
-        Essa casa pertencia a um escritor, o doutor Fernando 
Albez.
Antnio de Selvano disse que sim com a cabea. Recordava-se 
desse pormenor.
-        Bem sei, isso foi h trs anos, aquando da morte sbita 
de doutor Albez no decorrer de uma festa no campo, num domingo. 
Teve um enfarte. Eu fui ao enterro dele.
Calbez fez novo sinal com a cabea e tomou um ar grave. 
Depois disse lentamente:
-        No se esquea de que Anita Almiranda chama Fernando a 
esse desconhecido.
-        Voc enlouqueceu! - O comissrio-chefe saltara do seu 
cadeiro atirando o dossier dos estupefacientes para cima de uma 
mquina de escrever que se encontrava sobre uma mesa ao lado da 
secretria. - Quer insinuar com essas palavras que o doutor Albez 
no ter morrido?
-        Talvez...
-        Calbez, grande idiota, eu assisti ao funeral dele! Vi-o 
dentro do caixo aberto, durante a missa. Estava na primeira 
fila. Quer pr-me doido?
-        Ainda no - replicou impertinentemente Calbez.
- Mas talvez isso lhe venha a suceder quando souber o resto... 
Fui investigar porque o caso no me dava descanso. e como 
resultado soube que o dito Jos escrevia um livro.
-        Se isso o pode tranquilizar, tambm eu costumo 
escrever! - gritou Selvano. - Escrever um livro no significa que 
se seja o doutor Albez falecido h trs anos?
-        Mas a si tambm no lhe chamam Fernando. Bem. 
continuemos! Esse Jos Biancodero viaja incessantemente de h um 
ano para c! Faz as suas deslocaSes, por mar, no elegante iate 
do professor Destilhano, e tem uma vincada preferncia pela rota 
Lisboa, Las Palmas, Amesterdo! Quanto a esta ltima cidade, 
sabemos que  o ponto de partida do contrabando de pio na Europa 
Ocidental!

-        E no porto de Las Palmas foi ultimamente confiscada a 
carga de um veleiro contendo ampolas de morfina
- disse Selvano em voz baixa. - Quando a polcia l entrou, a 
tripulao fugiu, num barco a motor, a coberto da escurido.
-        Isso insere-se perfeitamente no nosso priplo, chefe! 
Mas h mais! Por intermdio do jardineiro que trabalha em casa do 
professor, consegui obter uma folha do manuscrito que esse Jos 
Biancodero est a escrever: a folha estava assinada com as 
iniciais FA!
Para Antnio de Selvano, aquele regresso  vida do Dr. Albez 
s se podia dever a uma imaginao demente. S a ideia de que um 
morto, que ele prprio vira enterrar, ressuscitasse trs anos 
depois, punha-o fora de si.
-        Acabe com essas fantasias a respeito desse estpido 
doutor Albez! - gritou o comissrio, batendo com o punho fechado 
sobre a mesa. - Ele morreu. No permito que me trate como um 
idiota!
- Bem, como queira, chefe. Ele morreu. Mas peo-lhe que se 
sente, pois vou dizer-lhe algo que o far cair de muito alto.
-        Fale! - disse Selvano, aborrecido.
-        Enviei essa folha do manuscrito, escrita h cerca de 
cinco dias, ao nosso laboratrio e recebi o resultado hoje mesmo!
-        E ento?
-        A letra deste manuscrito  a do falecido doutor Albez.
Selvano deixou-se cair na cadeira com um baque surdo. Sem 
argumentos, olhava fixamente para Calbez.
- O qu? - balbuciou. -  a caligrafia do doutor Albez?
- Eu bem lhe disse que era melhor sentar-se! - Calbez olhou 
para o comissrio com um leve sorriso nos lbios. - Creio, chefe, 
que com estes elementos o caso Biancodero toma outras 
perspectivas e um significado muito especial. Quando os mortos 
continuam a viver...
- Imbecis! Ineptos! - Selvano recompusera-se e gritava de 
novo: - A sua verso fantasista s demonstra incompetncia. Eu 
prprio o vi no caixo. E entre os documentos que lhe pertenciam 
encontra-se uma certido de bito em regra!
- Passada por quem?
-        Pelo professor Destilhano!
-        Est a ver?
-        Que pretende insinuar? J lhe disse que o professor 
est acima de qualquer suspeita! Trata-se de um dos maiores 
sbios portugueses...
Primo Calbez teve um gesto de protesto.
-        Mesmo assim h grandes homens que no valem a bala que 
os abate! Um nome no  uma garantia de honorabilidade!
-        Voc  um irrealista!
- Obrigado. Mas para a polcia tudo devia ser suspeito. S nos 
podemos alegrar quando a realidade  diferente do que 
suspeitamos. Precisamos, portanto, de reflectir calmamente sem 
nos deixarmos perturbar por consideraSes de famlia e de 
categoria social: um homem cuja presena no foi registada, com 
dois nomes, viaja num iate particular entre o principal porto de 
sada de estupefacientes e outras cidades. Encontra-se no nosso 
pas h um ano e neste ano o contrabando triplicou de volume. Que 
diz o senhor?

O comissrio-chefe hesitou um segundo antes de responder, 
depois disse lentamente, voltando-se para evitar o olhar 
bruscamente mais duro de Calbez:
-        Examinarei o caso aplicando grandes meios!
Primo Calbez teve um suspiro de alvio que no procurou 
dissimular:
-        Ento - disse -, quando comeamos?
Selvano inclinou-se para o detective e bateu com o dedo 
indicador na testa.
-  uma loucura, Calbez! Entrar sem provas em casa do 
professor Destilhano! Uma hora mais tarde, seria destitudo pelo 
Ministrio! Voc no faz ideia da sorte que o espera! Mas as suas 
palavras inspiraram-me. Seria de facto necessrio examinar 
antecipadamente as coisas...
-        Seria bom - concordou Calbez.
-        Mas como? - Selvano encolheu os ombros: - Como poderia 
encontrar-me com Destilhano de uma maneira totalmente natural?
-        Estou a imaginar um meio...
-        E qual?
- V consult-lo.  um bom mdico.
-        Como sabe?
Calbez sorriu ao de leve.
-        Porque eu prprio o fiz.

Uma quente noite de Vero pesava sobre Lisboa. Nas ruelas do 
Monte do Castelo, o ar quente estagnava, saturado com o mau 
cheiro do lixo em decomposio. As pessoas tinham a cabea 
pesada, sentiam vertigens. Esse calor fazia com que o sangue 
circulasse mal nas veias e o corao parecesse sufocado por uma 
placa de chumbo.
No jardim de Destilhano o calor era tambm escaldante. As 
ervas altas pendiam, murchas, e as folhas das rvores produziam 
rudos metlicos. As flores, cuja seiva secara, morriam nos 
canteiros.
O professor Destilhano atravessava o jardim com passos 
curtos. Levava as mos cruzadas atrs das costas e via o 
pavimento gretado pelo ardor do sol. Os seus compridos cabelos 
brancos caam-lhe para a testa.
O Dr. Albez, que vinha a bordo do iate Anita, de regresso de 
Amesterdo, atrasara-se j quatro dias. Como de costume, o cnsul 
Manolda dera-lhe pelo telefone a hora exacta da chegada e da 
partida do Anita, mas desde ento no tinham notcias do Dr. 
Albez.
Dia aps dia, Destilhano e Anita aguardavam em vo no cais 
que surgisse no horizonte o vulto branco do iate, e todos os dias 
voltavam a casa fazendo a si prprios as perguntas mais 
inquietantes.
Quatro longos dias!
O professor comeava a ficar nervoso. Para ele, a captura do 
iate pelas autoridades no seria apenas uma perda material. A 
descoberta da cocana que o barco transportava significava a 
derrocada total.

J h um ano que o Dr. Albez percorria aquela perigosa rota 
martima de Lisboa a Amesterdo, o percurso mais perigoso. As 
esperanas que Destilhano depositara em Albez no tinham sido 
vs, antes pelo contrrio, pois Albez tinha, com um sangue-frio 
admirvel, enfrentado os controlos ligados s zonas costeiras das 
trs milhas, assim como s inspecSes nos portos. E comandara 
habilmente o iate Anita entre os diferentes portos.
Destilhano ria  socapa. Se aquele bom Fernando soubesse o que de 
facto transportava a bordo! Continuava a pensar que passava em 
contrabando um medicamento milagroso contra o bacilo de Koch, e 
Destilhano evitava por todos os meios imaginveis que Albez visse 
as caixas antes de serem desembarcadas. Anita tambm no 
desconfiava da perigosa actividade do noivo. Sentia-se feliz e 
nada mais desejava do que poder estar uns dias nos braos de 
Fernando, quando ele regressava das suas longas viagens. Que dois 
tolos eles eram, Fernando e Anita!
Tinham festejado o seu noivado muito simplesmente, seis 
meses antes. O cnsul honrara-os ento com a sua presena. De 
momento, Anita preparava o seu enxoval, bordava o seu monograma 
na mais pequena pea de roupa e mantinha-se tranquila na sua 
ignorncia.
Todavia, o atraso de quatro dias na chegada do Dr. Albez 
mudara completamente a jovem. Emagrecia a olhos vistos, tinha os 
olhos vermelhos de chorar e o rosto devastado e febril.
Era esse brilho no olhar de Anita que no dava tranquilidade 
ao professor Destilhano. Que uma rapariga apaixonada se atormente 
por causa do seu bem-amado,  natural. Que ela passe as noites a 
chorar por causa da cruel incerteza, compreende-se, mas aquele 
abatimento brusco, aqueles olhos brilhantes de febre, eram 
decerto devidos a outra causa alheia  demora de Fernando.
Estaria aquela linda jovem tuberculosa? A sua pele 
encontrava-se muito plida naqueles ltimos tempos e as suas 
bruscas debilidades poderiam fazer pensar que seria esse o caso. 
Alm disso, tornara-se nervosa e facilmente irritvel, indcios 
que, dois anos antes, nunca se tinham manifestado e que 
surpreendiam o professor.
-        Sou mau mdico - murmurava ele, dirigindo-se lentamente 
para casa. - Trato milhares de pessoas e a minha prpria sobrinha 
fenece junto de mim...
Entrou em casa, subiu a escada sem rudo e, tendo batido  
porta de Anita com uma pancada seca, entrou na sala.
Ao faz-lo, surpreendeu-a a ocultar qualquer coisa no sof. 
Depois ela olhou-o com surpresa. Os seus olhos reflectiam um 
receio sem limites.
-        Tu aqui, tio? - exclamou, ofegante. - A esta hora? - E 
erguendo-se de um salto gritou: - Tiveste notcias de Fernando. 
Sucedeu-lhe qualquer coisa!
Destilhano abanou a cabea e aproximou-se dela. O gesto de 
Anita de esconder qualquer coisa e os seus olhos aterrorizados 
faziam surgir nele uma terrvel suspeita.
-        Vem aqui ao p de mim, Anita - disse em voz baixa e 
afectuosa, parando debaixo do lustre suspenso do tecto a meio da 
sala. Admirada, a jovem aproximou-se e parou a trs passos dele. 
O professor fez-lhe sinal para se aproximar: - No, Anita, mais 
perto. Debaixo do lustre. Assim!
Colocou-a sob a luz e ergueu-lhe a cabea para que o rosto 
dela ficasse perfeitamente iluminado pela forte lmpada.
-        No me agrada o teu aspecto nestes ltimos tempos. Os 
teus olhos mudaram. Deixa ver...
Anita baixou vivamente a cabea e ps-se a puxar os botSes 
do vestido.

-        No  nada - murmurou, ofegante. - Sinto-me muito bem. 
So as inquietaSes que a ausncia de Fernando provocam em mim, o 
facto de estar at tarde a bordar o meu enxoval... nada mais... 
Estou muito bem.
O seu faro de mdico dizia-lhe que ela mentia. Agarrou entre 
as suas mos o rosto da jovem e examinou-lhe os olhos  luz.
- Ento deixa-me ver - disse, ao aperceber-se que a sobrinha 
comeava a tremer. Muitas vezes, nos olhos de um doente l-se 
metade da sua existncia...
Mergulhou o seu olhar experiente no fundo daqueles olhos 
brilhantes de febre, depois voltou-se bruscamente. "Impossvel", 
gritou interiormente. " impossvel."
Contemplou de novo aqueles olhos e sentiu-se gelado da 
cabea aos ps, apesar do calor.
Sentia vertigens.
As pupilas de Anita estavam dilatadas, as suas proporSes 
nada tinham de natural.
E a sua fixidez! Olhos de morta!
As tmporas de Destilhano comearam a latejar enquanto ele 
largava a jovem, que recuava.
-        Que escondeste quando eu entrei? - perguntou com voz 
rouca. A monstruosa realidade que lia naqueles olhos 
paralisava-o.
Anita refugiara-se, trmula, perto do sof como para 
proteger o que ali escondera.
-        Nada - retorquiu com irritao, ao mesmo tempo que se 
encolhia como se receasse uma bofetada.
A palavra "nada" rompeu um dique na conscincia do professor 
e um receio terrvel invadiu a sua alma.
-        No  possvel, no... no  possvel... - Mas 
bruscamente gritou de tal maneira que Anita se encolheu mais, 
como se estivesse a ser espancada. - Quero saber
o que escondeste!
-        No estou habituada a ser tratada assim - exclamou 
Anita, sentando-se sobre o stio onde escondera aquilo que o tio 
procurava ver. Atrevidamente, cruzou as pernas.
Destilhano aproximou-se e agarrou Anita por um brao. Ela 
quis morder-lhe e arranh-lo, mas o velho atirou-a para longe de 
si. Estava furioso, com os olhos muito abertos e os cabelos 
brancos cados para a testa.
-        O que  que escondes a?
-        Nada!
- Mentes!
-        Sim!
-        D c!
-        No!
- Sai da! - gritou Destilhano, empurrando a jovem, que voltara a 
sentar-se no sof. Antes que ela pudesse impedi-lo, o professor 
meteu a mo debaixo da almofada do sof e tirou uma caixinha 
preta, comprida.
Era uma caixa que nada tinha de especial.
Com um grito abafado, Destilhano cambaleou e ficou encostado 
 parede, cobrindo o rosto com as duas mos.
Um silncio angustiante reinava na sala. Encostada ao brao 
do sof, Anita olhava fixamente para o tio.

Aps um longo momento, durante o qual no trocaram uma s 
palavra, Destilhano baixou as mos e deixou ver um rosto 
enrugado, cansado, um rosto de velho. Falando com dificuldade, 
perguntou:
- H quanto tempo tomas cocana?
-        H um ano.
- Diariamente?
-        Sim. Diariamente.
- Onde vais buscar esse veneno? - murmurou o professor.
Anita olhou para o cho, sacudida por um violento tremor. 
Emagrecera visivelmente.
-        Encontrei na casa de Fernando, aqui ao lado, um caixote 
com essas pequenas caixas. Trouxe-o para aqui para o abrir e 
verifiquei que era cocana. Mas quando o Fernando partiu da 
primeira vez, senti tanto medo do que lhe pudesse suceder que 
abri a primeira caixa...
- E absorveste o p? - balbuciou Destilhano.
- Sim. E dormi maravilhosamente, fiquei tranquila. Era como 
um prodgio que se apoderava de todo o meu corpo. Todas as noites 
sentia desejos de voltar a ter os mesmos sonhos e tremia de 
impacincia at chegar a altura de respirar o p que tornava tudo 
fcil, encantador, feliz como num conto de fadas.
- Mas isso significa a morte! - gritou Destilhano. 
Apoderou-se dele um medo terrvel. Aproximou-se de Anita e 
sacudiu-a. - A morte! A morte! Quem toma esse p est perdido - 
gritou com voz estridente. - Tu no voltars a tom-lo. Nunca, 
nunca mais!
Anita fechara os olhos e deixava-se sacudir, sem vontade 
prpria.
-        No sou capaz disso - murmurou. - Preciso dele.
-        No! - Destilhano recuou, cambaleando. - No s ainda 
prisioneira desse veneno! - Um pavor infantil f-lo cair de 
joelhos na frente de Anita e gemer aos ps dela: - Anita, 
diz-me... ainda no s prisioneira, pois no? Sers capaz de o 
esquecer? Tu no ests escravizada...
Anita acariciava os cabelos brancos empapados de suor do 
velho trmulo e choroso, pelo qual ela sentia agora uma piedade 
infinita. Mas no podia dizer-lhe que sim, que no mais provaria 
aquele veneno. Uma fora desconhecida apoderara-se da sua 
vontade.
-        Eu preciso dele - murmurou em voz baixa - preciso desse 
veneno para viver...
Destilhano ergueu-se, gemendo, agarrou na caixinha escura, 
atirou-a ao cho, pisou-a selvaticamente, esmagando-a debaixo dos 
seus ps, como um possesso, e depois saiu da sala a correr como 
se fosse perseguido por uma matilha sedenta de sangue.
Na sua biblioteca deixou-se cair de joelhos a um canto, 
debaixo de um velho crucifixo escuro suspenso da parede e, 
batendo com a cabea no cho, murmurou com voz rouca:
-        Perdoa-me, Senhor!... perdoa-me... no me castigues 
assim. No amaldioes a inocncia, amaldioa-me a mim, Senhor, 
Senhor...
Estes gritos cederam o lugar a queixumes que s se calaram 
quando o professor caiu, esgotado.
Isto passava-se no preciso momento em que o iate Anita, 
vindo de Amesterdo, entrava no porto e o Dr. Albez olhava com 
surpresa para o cais quase deserto, onde s um homem se mantinha 
imvel,  espera.
Era o polcia, Primo Calbez.

Antnio de Selvano, debruado sobre duas fotografias, 
abanava irritadamente a cabea. Parecia ter sado do banho e 
agitar-se para sacudir as gotas de gua. Com efeito, tentava 
livrar-se de uma outra coisa: de um assombro to grande que no o 
deixava ver claro.
Tinha na sua frente uma fotografia de Fernando Albez 
acompanhado por Anita Almiranda, tirada por Primo Calbez no 
Terreiro do Pao,  beira do Tejo. Junto do retrato do casal 
via-se um cartaz antigo que a polcia de Amesterdo pedira para 
ser difundido por toda a parte, com a fotografia de um 
funcionrio da Caixa Econmica desaparecido, chamado Pieter van 
Brouken.
Selvano fizera esse confronto por acaso. Quando Calbez lhe 
enviara aquele instantneo tirado na rua, o rosto de Jos 
Biancodero parecera-lhe imediatamente familiar. Julgava t-lo 
visto j e muito recentemente. Dirigira-se ento aos arquivos e 
dera logo ali com o cartaz que divulgava a fotografia de Van 
Brouken. Nesse instante, hesitava ainda, perguntando se a sua
suposio seria exacta. As viagens de Biancodero a Amesterdo 
nada denunciavam. Com efeito, havia naquilo um inquietante 
encadeamento de deduSes lgicas ligadas a indcios que 
indubitavelmente no se podiam desprezar. Em Junho de 1923, 
Pieter van Brouken desaparecera de Amesterdo. No mesmo ms de 
Junho de 1923, um escritor, totalmente desconhecido, Jos 
Biancodero, aparecia em Lisboa, vindo de Sevilha. Essas duas 
personagens assemelhavam-se estranhamente, apesar de Biancodero 
parecer mais moreno e um pouco mais gordo.
"H aqui qualquer coisa...", murmurou mais uma vez Selvano e 
voltou a comparar as duas fotografias. "Parece que Calbez tem 
razo, um nome no  um certificado de honorabilidade.  
necessrio observar mais de perto a Rua do Monte do Castelo!"
Pegou no telefone e pediu uma ligao urgente para o chefe 
da polcia de Sevilha. Em seguida, ligou para todas as esquadras 
das proximidades e deu ordens para que fosse exercida uma 
vigilncia discreta, mas rigorosa, sobre a casa de Destilhano. 
Resolveu ento comear ele prprio o inqurito, marcando uma 
consulta com o professor.
Pouco depois tocou o telefone.
O chefe da polcia de Sevilha estava ao telefone do outro 
lado do fio.
Quinze minutos mais tarde Selvano sabia que havia de facto 
em Sevilha um autor desconhecido chamado Jos Biancodero, que 
teria partido um ano antes para o estrangeiro. No dispunham de 
qualquer fotografia dele, pois tratava-se de um indivduo 
demasiado insignificante. De resto, no tinha cadastro nem havia 
nada a censurar-lhe.
Selvano pousou o auscultador, decepcionado. A sua
bela cadeia de deduSes apresentava uma pequena falha.
Se existia um Jos Biancodero que se ausentara para
o estrangeiro um ano antes, s podia ser o hspede do
professor Destilhano! A sua incrvel semelhana com
o desaparecido Pieter van Brouken devia-se certamente
a um mero acaso.
Contudo, Selvano no punha de lado a ideia de haver ali um 
mistrio. Experimentava a estranha sensao de se encontrar na 
pista de um crime to nico, grande e terrvel que se sentia 
estremecer mesmo sem o conhecer.

Hesitou um pouco antes de levantar de novo o auscultador 
para pedir uma comunicao urgente com o seu colega de 
Amesterdo, cujo nome se encontrava no cartaz destinado a 
encontrar Pieter van Brouken: Felix Trambaeren.
A conversa com Trambaeren, em francs, foi mais que 
estranha.
-        Al! Daqui Polcia Judiciria de Lisboa, 
comissrio-chefe Selvano.
-        Aqui, o comissrio Trambaeren, de Amesterdo.
-        Tenho sobre a minha secretria um cartaz relativo ao 
desaparecimento de Pieter van Brouken.
- Essa  uma velha histria. O dossier foi encerrado h 
muito tempo!
-        Ento ele foi encontrado?
- No! - A voz de Trambaeren reflectia um certo 
aborrecimento. - Mas o caso ficou bem claro, segundo os 
depoimentos das testemunhas: suicdio por envenenamento e depois 
afogamento no Heerengracht. O cadver foi para o fundo e ficou 
preso no lodo, por isso nunca foi encontrado.
- Esto bem certos de tudo isso, em Amesterdo?
-        Perfeitamente certos. Porqu todas essas perguntas?
- Em Lisboa apareceu um estrangeiro, um espanhol, que se 
assemelha muitssimo a Pieter van Brouken!
Trambaeren soltou uma gargalhada ao telefone:
-        Vocs, a em Portugal, so muito minuciosos! Mas deixem 
esse pobre diabo em paz. Existem milhares de rostos to 
insignificantes como o de Van Brouken. De resto, os mortos no 
ressuscitam. Entendido?
-        Muito obrigado, colega.
-        No tem de qu.
Selvano desligou, furioso, e recostou-se para trs na 
cadeira.
Mais um elo da corrente que acabara de ser quebrado. E 
tratava-se talvez do mais importante! Pieter van Brouken 
suicidara-se. Morreu.  lgico! E esse Jos Biancodero parece-se 
espantosamente com ele, ao mesmo tempo que tem uma caligrafia 
igual  do Dr. Fernando Albez. E tambm esse morreu!
-         uma loucura. Um homem vivo que representa dois 
mortos.  uma coisa que s podia sair da cabea de Primo Calbez!
E contudo... Antnio de Selvano abanou novamente a cabea de 
cabelo escuro. A sua intuio de criminalista repetia-lhe 
incansavelmente: h aqui um mistrio que talvez seja uma das 
maiores "sensaSes" da histria da criminalidade!
Guardou pensativamente as fotografias na gaveta da sua 
secretria. Avanava ainda s apalpadelas, mas comeava j a 
discernir alguma claridade, embora no pudesse ainda localiz-la. 
Sabia tambm isso por um formigueiro que sentia na ponta dos 
dedos.
-        Dentro de oito dias saberei o que se passa - declarou 
Selvano em voz alta e tom firme. - Dentro de oito dias este caso 
deixar de ser para ns um grande e assustador enigma.
Quando o iate Anita atracou ao cais do porto de Lisboa, 
Primo Calbez saltou para bordo com a agilidade de um desportista.
Surpreendido, o Dr. Albez foi ao seu encontro.

A presena de um desconhecido no iate, assim como a ausncia 
de Anita no cais, despertavam nele uma estranha sensao de 
receio e o pressentimento de um perigo inexplicvel. 
Delicadamente, cumprimentou o estranho com um imperceptvel 
baixar de cabea e impediu-lhe o caminho.
-        O que o traz aqui? - perguntou, observando-o 
atentamente.
" evidentemente um desportista", dizia ao mesmo tempo para 
consigo. "gil, certamente com msculos de ao..."
Primo Calbez, que compreendera imediatamente encontrar-se na 
frente daquele que procurava, sorriu amavelmente e respondeu:
-        Chamo-me Traverno e sou reprter de um jornal de 
opinio governamental, o Lisboa. Gostava que me concedesse uma 
entrevista.
-        Eu? - O Dr. Albez mostrou-se francamente admirado. - 
Ignorava que pudesse ter algum interesse.
-        Oh! No seja to modesto!
Primo Calbez abriu a sua misteriosa agenda e comeou a 
escrever sem deixar de falar:
-        A modstia de nada serve. De nada. No  escritor?
-        Com efeito!
-        Pois bem, no pode haver melhor publicidade que uma boa 
entrevista. Que diz?
-        Penso que, de momento,  mais importante para mim 
acabar de fazer o meu trabalho aqui, ir at minha casa e dormir 
um bom sono! - replicou Albez, um pouco rudemente. - Amanh 
estarei ao seu dispor.
-        Amanh! Amanh! Adiando esta entrevista s se pode 
prejudicar. Amanh poder aparecer j a sua fotografia no jornal, 
tendo escrito por baixo: "Jos Biancodero de regresso de uma 
viagem de um ano  volta do mundo!"
O Dr. Albez sorriu:
-        O seu priplo planetrio  uma iluso. Regresso de 
Amesterdo!
- De Amesterdo? - Primo Calbez tomou notas.
- Conhece bem essa cidade?
- Mais ou menos. J l estive vrias vezes.
-        Que poder l fazer Pieter van Brouken?
Calbez ficou a observar o efeito daquela pergunta lanada  
queima-roupa. Esperava ler no seu rosto uma reaco fulminante. 
Mas a expresso do Dr. Albez apenas reflectiu uma grande 
surpresa.
-        Pieter van Brouken? Porque me fala desse caso estpido? 
Afinal o homem no morreu?
-        Dizem que sim!
-        Alm do mais, eu nada tenho a ver com ele.
-        Muito bem, muito bem. No falemos mais disso. Que foi o 
senhor fazer a Amesterdo?
Ao ouvir esta pergunta, o Dr. Albez tornou-se de repente 
prudente. Pensou rapidamente que aquele reprter podia ser um 
membro da polcia que estivesse na pista do contrabando dos 
medicamentos, mas depressa repeliu essa ideia e sorriu para Primo 
Calbez. Este achou esse sorriso muito desagradvel e at lhe 
provocou uma sensao de mal-estar.
-        Que se h-de fazer numa bela cidade estrangeira? Que faria o 
senhor?
Calbez reflectiu um instante. " astuto", pensou. "Quer 
apanhar-me. J vai ver!"

-        Talvez fosse  procura de belas raparigas - disse por 
fim.
- Voluptuoso!
-        Ou iria ver amigos, conhecidos...
- Tentador!
-        E o senhor, que fez?
O Dr. Albez deu uma palmada no ombro de Calbez e fitou-o com 
malcia.
-        Fiz exactamente o que o senhor faria numa cidade 
estrangeira. Nessas coisas, os homens assemelham-se todos uns aos 
outros. Inclino-me perante a sua imaginao fecunda. Escreva o 
que quiser. S acreditaro em metade do que escrever e isso 
bastar. Agora, preciso de ir para terra!
Com estas palavras afastou delicadamente Calbez, desceu 
rapidamente a ponte de madeira que dava acesso ao cais e 
desapareceu numa cabina telefnica perto da doca.
O detective, ficando de sbito sozinho, compreendeu 
imediatamente as vantagens da situao. Em poucos passos chegou 
s portas dos porSes, acendeu uma pequena lanterna elctrica, 
tropeou ao descer uma escada ngreme e encontrou-se nos vastos 
compartimentos de onde fora retirada a mercadoria. Farejando a 
atmosfera  maneira de um co de caa, Calbez atravessou 
rapidamente os porSes e numa pequena cabina lateral descobriu um 
caixote aberto cheio de pequenas caixas chatas, de carto escuro. 
Abriu uma delas e assobiou baixinho, entre dentes. Sem hesitar, 
meteu algumas nos grandes bolsos do seu casaco de Vero. Depois 
apagou a lanterna elctrica, com ar pensativo.
Da a pouco subiu rapidamente as escadas, atravessou
o convs e dirigiu-se para terra firme, acabando por desaparecer 
na confuso do cais.
No mesmo instante a porta da cabina telefnica abria-se e o Dr. 
Albez corria para fora.
Parecia assustado e desesperado. O seu rosto estava plido e 
os cabelos caam-lhe para a testa. No tentou encontrar o 
reprter, mas dirigiu-se apressadamente para a ponte de comando. 
J ali, deu ordem para levantar ncora.
Enquanto a fiel tripulao soltava as amarras e manobrava 
para conduzir a embarcao para o largo, o Dr. Albez, sentado na 
cabina de comando, permanecia absorto nos seus pensamentos, com a 
testa apoiada nas mos.
Sentia um grande peso no corao. Ao telefonar, momentos 
antes, falara com o professor Destilhano. A voz deste era 
trmula, quebrada. Mesmo assim, dera-lhe ordem para ir ancorar o 
iate a quarenta quilmetros a norte de Lisboa, numa enseada 
particular. Depois Albez ouvira a voz de Anita. Quisera gritar o 
seu nome, mas ouvira apenas um rudo estranho e a comunicao 
fora interrompida.
Sucedera alguma desgraa! Esse pensamento martelava-lhe o 
crebro. J o facto de Anita no estar no cais  espera dele se 
lhe afigurara estranho. Mas era incapaz de imaginar o que teria 
podido suceder. Sentia apenas o corao, apertado por um medo 
terrvel, pesado como chumbo.
O iate saiu lentamente do porto.
Atrs de um veleiro, numa potente lancha a motor, Primo 
Calbez esperava.

Quando ao fim de certo tempo Anita desceu para o escritrio 
do tio, foi encontrar o professor a rezar no canto escuro por 
baixo do crucifixo. A sua comprida cabeleira branca caa-lhe 
sobre o rosto. Parecia aniquilado.
Uma piedade infinita apoderou-se de Anita. Queria correr 
para ele, implorar o seu perdo, abra-lo, prometer-lhe tudo, 
tudo! Queria lutar contra si mesma e arrancar-se ao sortilgio do 
veneno. Mas no o conseguiu. Quando Destilhano a viu entrar no 
escritrio, levantou-se de um salto e correu para ela, vacilante, 
precisando depois de se apoiar ao brao de um cadeiro, com mos 
trmulas.
"Mas  um velho", pensou de sbito Anita; "um velho... 
Envelheceu no espao de duas horas..."
- No queria fazer-lhe mal, meu tio - murmurou baixinho, mas 
sem contudo ousar aproximar-se do mdico. - No sabia que esta 
droga era to perigosa!
- Tu no sabias, no, tu no podias sab-lo... mas eu sim, 
eu sabia-o e precipitei milhSes de seres humanos na desgraa! 
Sim, sim,  o castigo de Deus. Oh, pequena Anita, to pura, eu 
sou um miservel!
-        Tio! - exclamou Anita. Depois, aterrorizada, ps a mo 
sobre a boca.
Destilhano, com um gesto desesperado, continuou:
-        No sou apenas um miservel, Anita... Sou um assassino, 
um cobarde assassino!
Sentou-se e empurrou uma cadeira para Anita. Trmula, com os 
olhos fixos, sados das rbitas, a jovem deixou-se cair na 
cadeira e ficou muda de espanto e de horror.

-        Preciso de pagar hoje a minha dvida - continuou o 
professor com voz contida -, uma dvida cujo pagamento tu me 
indicaste. Deus leva o seu tempo para castigar, mas  justo. Que 
sejas tu o preo que tenho de pagar pelo meu crime,  pior do que 
o inferno para mim... Anita... Se alguma vez viste um animal 
feroz entre os seres humanos esse animal sou eu... H dez anos, 
Anita, que o teu tio Ricardo, o clebre professor Destilhano,  o 
maior contrabandista de droga na Europa Ocidental! Com o 
propsito de mais tarde te garantir uma existncia sem 
preocupaSes, para dourar os meus ltimos anos como um conto de 
fadas, vendi milhSes de almas e matei milhares de indivduos 
servindo-me do poder bestial do veneno insidioso que d a 
embriaguez mortal. As minhas relaSes no estrangeiro como 
bacteriologista e o facto de estar  frente das pesquisas em 
Portugal deram-me ocasio de tirar proveito disso. O meu crebro 
tornou-se o posto central de uma vasta rede. Ao fim de trs anos 
de trabalhos preparatrios, estudados at  mincia, aps uma 
luta mortal com a concorrncia para obter resultados rendveis, 
comeou a "importao" em grande estilo. Cocana do Peru, pio da 
ndia, da China, da Prsia, morfina vinda da Itlia, herona 
importada da Turquia. Mas isso ainda no me bastava. Tinha 
aspirado o cheiro do sangue, isto , do dinheiro, e ele 
seduzia-me. Era o delrio e eu mergulhei ainda mais profundamente 
no crime. Foi ento que realizei a minha grande obra: a 
introduo e a transformao de novos estupefacientes na Europa! 
Vendia o perigoso haxixe do Lbano, o terrvel dagga africano, o 
diablico takruri da Tunsia, e finalmente o meu maior xito, o 
elixir infernal: a mescalina do Mxico! Neste ponto era nico, 
sem concorrentes, era o rei do contrabando dos venenos! Todavia, 
nas caixas que continham esses produtos txicos encontrava-se a 
composio de inofensivos preparados farmacuticos. Sim, foi um 
triunfo! Todos esses indivduos que, ajoelhados aos meus ps, 
suplicavam!
-        Que horror!
-        Sim, que horror, Anita. Comprei, aps a morte do doutor 
.......
-        O qu? - gritou Anita, erguendo-se. O seu corpo 
vacilava. parecia ir perder os sentidos. - Fernando morreu.
O professor Destilhano disse que sim com a cabea.
-        Morreu h trs anos, Anita...
-        Mas apenas h quinze dias que Fernando...
-        Ele no  o doutor Albez - murmurou lentamente 
Destilhano. - Albez morreu com angina de peito. Nesse tempo 
estavas tu a viver em Tenerife.
O homem que, h mais de um ano, continua a viver a vida do doutor 
Albez, fala com o mesmo tom de voz, escreve com a mesma letra,  
um holands e chama-se Pieter van Brouken.
Fora de si, incrdula, Anita deixou-se cair de novo na 
cadeira.
- Pieter van Brouken? - balbuciou com ar ausente. - O 
Fernando... - Interrompeu-se, sem saber j que pensar. Sentia-se 
tomada de uma vertigem que a precipitaria no abismo.
- O teu Fernando  Van Brouken. Perdeu os sentidos, numa 
quente tarde de Vero, em Amesterdo, e acordou metamorfoseado em 
doutor Albez!  o homem que esqueceu o seu passado, que vive 
guiado pelo seu subconsciente, que se separou do seu eu. A sua 
conscincia divide-se...  um dos problemas mais complexos da 
psicologia!
-        E Fernando... - A jovem lanou esse nome num grito, 
recusando-se a acreditar naquela monstruosidade.
-  apenas um nome, Anita. Aquele que tu amas e
a quem chamas Fernando, Anita,  na realidade Pieter.
O verdadeiro Fernando que tu mal conheceste est de h
muito transformado em p.
- E... o meu Fernando no sabe nada disso?
-        No pode saber, visto ter nele a alma do doutor Albez.
- E Jos Biancodero? - os olhos de Anita estavam vtreos de 
horror.
-        Tambm existe, isto , existiu! Tratava-se de um 
escritor sem importncia, de Sevilha, que eu convidei, por 
intermdio de um amigo, para fazer uma curta viagem. 
Infelizmente, desapareceu no decorrer dessa viagem. Isso 
passava-se na altura em que o teu Fernando chegava a Lisboa. Foi 
fcil faz-lo usar o nome de Jos Biancodero!
-        Assassino! - A palavra soava, atroz, nos lbios de 
Anita.
-        Sim, sou um assassino! Mas deves reconhecer que a minha 
subtileza era imbatvel! Tinha  minha disposio um homem com 
trs existncias que eu podia dirigir  minha vontade. Era um 
homem intocvel, um doente mental, por isso tambm o homem 
indicado para comandar o meu navio com o contrabando.
-        O iate... - Anita estremeceu e passou as mos pelos 
lbios trmulos. - Esse iate com o meu nome que Fernando 
comanda...

-        No transporta medicamentos para os tuberculosos, mas 
sim drogas mortferas. E o doutor Albez, que  Pieter van Brouken 
e se chama Jos Biancodero, comanda-o h um ano, sem desconfiar 
de coisa alguma, fazendo o trajecto entre Lisboa, Las Palmas e 
Amesterdo.
-        Sem desconfiar de nada?
-        Absolutamente!
-        Ah, tu... tu... - Anita levantara-se de um salto e 
corria pela sala como louca. - Tu s meu tio, eu gosto de ti, tu 
foste meu pai e minha me ao mesmo tempo... tu... Satans!
-        Anita!
Destilhano ergueu-se e aproximou-se da sobrinha:
-        Ouve-me...
-        No me toques! - gritou a jovem com uma voz 
dilacerante. - Tens as mos sujas de sangue! E ele que navega h 
um ano, julgando realizar uma boa obra. E transporta a morte! Oh! 
 ignbil, horrvel! - E, de sbito, correu para a porta. Mas 
Destilhano foi mais rpido do que ela e impediu-lhe a passagem.
-        Aonde queres tu ir? - perguntou com uma calma 
ameaadora.
-        Falar  polcia! - gritou Anita. - No posso continuar 
a viver com um demnio!
Destilhano reencontrou imediatamente a sua antiga calma. Ao 
ouvir a odiada palavra "polcia" recuperou o sentido das 
realidades. Com um gesto, atirou Anita para
o centro da sala e fechou a porta  chave.
-        J te disse mais do que devia ter dito - declarou 
gravemente. - Mas jurei diante da cruz confessar tudo se tu 
renunciasses ao veneno. Tenho ainda carcter suficiente para 
cumprir este juramento. Anita... para nossa salvaguarda, mantm 
silncio! Esta ser a ltima viagem do Fernando. Temos dinheiro 
que chegue para no temermos as dificuldades da existncia. Se tu 
me denunciares, Fernando ser acusado tambm e assim ficar 
destrudo tudo aquilo que me levou a correr os maiores riscos: a 
tua felicidade!
-        No quero uma felicidade feita de sangue e de lgrimas! 
- retorquiu Anita, recuando at junto do crucifixo preso  
parede. - Prefiro a morte  vida com esse peso na conscincia!
-        Anita!
-         preciso que eu lhe diga. S a ele!
- Ele matar-me-a.
-        Pois bem. Eu v-lo-ei mat-lo e gritarei de alegria a 
cada golpe! - Um dio violento brilhava nos olhos da jovem. A sua 
frgil silhueta estava tensa. - Sers demasiado cobarde para 
pagares o teu crime?
-        Sou um velho cansado - respondeu o professor a meia 
voz. -  o meu castigo... - Calou-se - Anita, no tomes mais 
cocaina... suplico-te, no tomes mais cocaina.
A ideia de que Anita se encontrava irreversivelmente 
intoxicada quebrou de novo a sua tranquilidade. Com um gemido 
deixou-se cair de novo no seu cadeiro e cobriu os olhos com as 
mos. O assassino, o sbio de implacvel sangue-frio tornara-se 
um velho trmulo, solitrio e apavorado.
Aps estes longos minutos, reinou na sala um grande 
silncio.

Depois o telefone tocou, estridente. O professor Destilhano 
estendeu a mo e levantou o auscultador. A sua voz tremeu ao 
pronunciar o seu prprio nome, mas logo a seguir um brilho 
iluminou-lhe o olhar.
-        Fernando... tu? Acabas ento de chegar?
Ao ouvir aquele nome Anita tivera um sobressalto.
-        Precisamos de alterar as nossas disposiSes, Fernando. 
Volta para o mar e vai ancorar o iate no nosso molhe particular. 
Eu irei l ter contigo. Preciso de te falar de questSes 
importantes.
Nesse momento Anita lanou-se sobre ele, furiosamente, 
querendo falar ao telefone. Destilhano empurrou-a.
- Fernando... - gritou ela. - Fernando... ele quer...
Destilhano repeliu Anita com todas as suas foras. Viu-a em 
seguida pegar num candelabro de prata que se encontrava em cima 
da mesa e correr para si. Mudo de assombro, ergueu um brao num 
gesto de defesa. Mas j
o pesado candelabro lhe batia na cabea. Com um grande gemido, 
Destilhano caiu, arrastando consigo o telefone e cortando assim a 
comunicao.
Petrificada, Anita permaneceu uns momentos de p diante do 
corpo imvel de seu tio. Depois, apelando para todas as suas 
foras, saiu da sala. Correu ento at  garagem, abriu as 
portas, meteu-se no seu pequeno carro de desporto, verificou se 
tinha gasolina e ligou o motor.
O carro ps-se em andamento com rudo. Anita carregou no 
acelerador a fundo e o veculo partiu como uma flecha atravs da 
quente noite de Vero, desaparecendo rapidamente no emaranhado 
das ruas de Lisboa.
Quando o professor Destilhano voltou a si do longo desmaio, 
envolvia-o uma escurido total. O sangue que lhe corria de um 
profundo ferimento da testa inundava-lhe os olhos. Os cabelos 
brancos estavam vermelhos e pegajosos.
Cambaleando e gemendo, dirigiu-se s apalpadelas para a 
secretria e abriu uma gaveta.
Perdera. A vida deixara de ter qualquer sentido para ele. A 
sua prpria sobrinha bem-amada se encarregara de vingar os seus 
milhSes de vtimas. Anita era agora tambm uma escrava da droga! 
O crculo fechava-se.
O seu pecado paralisava-o.
Est tudo acabado, Destilhano!
- Anita!
Lentamente, tirou o revlver da gaveta e carregou-o. Depois 
recostou-se na cadeira, apoiou a cabea ensanguentada ao encosto 
e meteu o ao frio do cano da arma entre os dentes. Soou um rudo 
seco, leve, surdo, logo engolido pela noite.
O pequeno carro de desporto preto corria atravs da noite. 
Depois de ter sado das ruas de Lisboa, Anita entrou na estrada 
marginal, que corria ao longo das praias da moda, carregou com 
mais fora no acelerador e o carro quase voou na estrada 
impecavelmente asfaltada.
No via que uma grande limusina a seguia silenciosamente, a 
uma certa distncia, e se esforava por manter a mesma distncia 
com o pequeno carro preto.
O comissrio-chefe, Antnio de Selvano, recostou-se no 
encosto estofado e acendeu um cigarro.
Tinha tempo. A ocasio propcia para esclarecer tudo seria 
quando chegassem ao molhe privativo do professor Destilhano.

Fora avisado da chegada do iate Anita, vindo de Amesterdo, 
pelas vedetas da Polcia Martima e da alfndega que patrulhavam 
a entrada do porto de Lisboa. Enviara imediatamente Primo Calbez 
para o porto. Ele prprio dera ordem para se instalarem postos de 
observao na marginal, pois previra que pelo menos um membro da 
famlia Destilhano se dirigiria ao molhe privado.
Selvano esperava ver o prprio professor ao volante do 
carro. Quando viu Anita passar no seu carro de dois lugares, como 
um furaco, ficou surpreendido e sem saber como explicar tal 
singularidade, mas resolveu segui-la.
Anita pestanejava. A estrada dava a ideia de vibrar na sua 
frente  luz crua dos faris, depois parecia oscilar... Cerrou os 
olhos e agarrou-se com fora ao volante.
A cocana! Se ao menos tivesse um comprimido. Sentia a 
tenso do seu corpo afrouxar e uma fadiga insidiosa 
apoderar-se-lhe dos membros. Precisava de dois Pervitines, 
pensava, de dois desses comprimidos brancos para que o seu corpo 
se sentisse fortalecido e os seus olhos pudessem ver bem. Como 
esse veneno  maravilhoso! Quando o tomamos o universo torna-se 
vasto, livre, e sentimos a alma elevar-se. Dois comprimidos, 
apenas dois comprimidos, e o sangue corre nas artrias, a cabea 
torna-se clara, os gestos precisos. Esse produto  nico, nico, 
nico.
Sentia a nostalgia do seu vcio.
Uns comprimidos brancos, um pouco de p branco.
A cocana!
Talvez Fernando tivesse ainda no iate algumas caixas. Talvez 
no estojo dos medicamentos...
Riu. Um navio cheio de veneno e, no entanto, inacessvel... 
A vida  uma graa ignbil. Ela matara o tio por causa do 
veneno... e agora sentia necessidade desse p se bem que tivesse 
inteno de prevenir Fernando contra ele... Ah! Que idiotice!
Como havia de o dizer a Fernando?, pensava Anita. Como 
explicar-lhe que ele no era Fernando Albez, mas sim Pieter van 
Brouken? "No lhe poderei dizer que ele esqueceu o seu passado, 
que  louco e que continua a viver no seu subconsciente a vida de 
um morto. Rir-se- de mim, pois ele  de facto o Dr. Albez, visto 
Pieter van Brouken ter morrido nesse corpo do Dr. Albez!
"Como explicar isto a Fernando? Ele no me compreender e 
escarnecer de mim.
"Gosto tanto do riso dele! Amo-o... quer seja Fernando ou 
Pieter!
"Amo-o.
"Como os meus olhos ardem! E a estrada a oscilar! E as 
minhas mos a tremer sobre o volante! "Acalma-te, Anita. 
Acalma-te!
"Ah! Se tivesse ao menos dois comprimidos de Pervitine...
"Esses comprimidos brancos."
Maravilhosos, libertadores.
"Mas so um veneno!
O motor ronronava. Os faris cortavam com os feixes 
luminosos a escurido dessa noite sem lua. Anita adivinhava, mais 
do que via, os rochedos que cercavam o pequeno molhe particular 
do professor Destilhano.

A grande limusina preta avanava lentamente e aproximava-se. 
Os faris, nos mnimos, iluminavam fracamente a estrada 
rectilnea. O motor quase no se ouvia e o carro atravessava 
tranquilamente a noite.
Quando Anita abrandou a velocidade e entrou numa estrada 
lateral que ia dar directamente ao molhe, deitou um olhar para 
trs, para a estrada que acabara de deixar.
Viu dois feixes luminosos, pouco intensos, que se 
aproximavam.
Um carro!
Um pavor paralisante atravessou como uma flecha o corpo da 
jovem. Desesperada, tirou o p do acelerador e recostou a cabea. 
Estava a ser seguida.
Seria o tio, que estaria ainda vivo e tentaria impedi-la de 
realizar os seus desgnios?
Mas o certo  que o deixara estendido no cho, com uma 
grande ferida na testa, donde corria o sangue, e sem respirar!
Seria a polcia?
Anita conteve um grito.
A polcia perseguia-a! Fernando estava em perigo.
O inocente Fernando que de nada suspeitava! Esta ideia deu-lhe 
subitamente novas foras e uma energia feroz que ela no conhecia 
existir em si.
"Ns estamos perdidos. O meu tio... eu.. j nada nos pode 
salvar, mas quero salv-lo a ele... No quero que acabe os seus 
dias fechado num hospital psiquitrico ou no inferno de uma 
colnia penal. A ele posso eu salv-lo... e visto que tudo 
ignora, devo salv-lo."
Ento deu uma volta com o seu pequeno carro, carregou no 
acelerador e saiu bruscamente da estrada estreita, no mesmo 
instante em que a limusina de Selvano entrava prudentemente no 
caminho que conduzia aos rochedos.
Desconcertado e perplexo por instantes, Selvano viu 
subitamente a flecha luminosa passar junto do seu veculo e logo 
desaparecer.
O que era aquilo? - disse em voz alta.
- O carro de desporto! - respondeu o motorista.
-        Mudou de direco!
- Volte para trs! - Selvano gritava, inclinado para a 
frente. E quando o motorista conduziu de novo o pesado veculo 
para a marginal, o comissrio ordenou-lhe:
- D-me o volante!
Depois de Selvano ter tomado lugar ao volante, o pesado 
carro partiu velozmente. O comissrio ps os faris nos mximos. 
Observava a estrada com um olhar fixo. L  frente, os faris do 
carro de desporto tinham deixado de se ver.
- Que loucura! - murmurou Selvano, carregando no acelerador. 
-  um disparate! Apagou os faris e segue s escuras, a toda a 
velocidade.
Anita olhava pelo retrovisor e vigiava o rpido avano da 
limusina.
Sabia que no podia escapar-lhe. Dentro de dez minutos, no 
mximo, o pesado carro estaria perto do dela e for-la-ia a 
parar. Como assassina de seu tio, devia renunciar a qualquer 
esperana. O seu nico desejo era agora salvar Fernando.
De sbito, sentiu um grande vazio dentro de si, um vazio que 
a fazia sentir-se indiferente a tudo. A certeza da sua morte 
fazia-a olhar com desprezo para o esforo que estava a fazer para 
fugir.
A estrada tinha agora curvas perigosas junto dos rochedos 
sobranceiros ao mar.

" melhor assim Fernando... acredita...  ainda prefervel  
infelicidade de ter uma mulher que tome cocana!"
Com os olhos fixos, Anita fez girar o volante e lanou-se 
como uma flecha sobre os rochedos que desciam a pique sobre o 
mar.
- Ela atirou-se ao mar! - gritou Selvano, carregando no 
travo. - No imaginei que a aventura acabasse assim.
Com os olhos fechados, agarrada ao volante, Anita sentiu o 
carro mergulhar para o abismo.
- Fernando murmurou. - Perdoa-me...
O carro saltou... as rodas giraram no ar e ele caiu... 
caiu... Logo a seguir as ondas agitaram-se  sua volta. "Oh!" 
gritou ela. "Oh!" Depois tudo foi apenas escurido e uma dor 
ardente a atravessar-lhe o corpo...
No alto dos rochedos, Antnio de Selvano ouviu o baque do 
carro sobre os recifes, o rudo das guas' agitadas e uma espcie 
de assobio lamentoso que levou muito tempo a deixar 'de se ouvir.
Acabrunhado, desceu do carro e perscrutou a escurido da 
noite. No conseguia encontrar uma explicao para o suicdio de 
Anita.

No Comissariado Central, na seco da represso ao 
contrabando de estupefacientes, reinava uma atmosfera pesada.
Antnio de Selvano e Primo Calbez estavam sentados em frente 
um do outro h uma hora, sem trocarem uma s palavra. O grosso 
dossier aberto em frente deles parecia ser o causador daquela 
melancolia.
- De que podem servir essas caixas cheias de Dilandid, de 
Dolantin, de Dicodid, de Acedicon? No podemos provar que elas 
foram passadas em contrabando! So medicamentos que se podem 
comprar em qualquer farmcia.
- Mas s com receita mdica. No se podem conservar esses 
medicamentos em casa, de reserva, sem se correr o risco de se ter 
graves aborrecimentos!
Selvano repeliu essa afirmao com um gesto.
- Isso no  bem assim. De resto, Destilhano, como mdico, 
tinha direito a dispor de uma certa quantidade de narcticos.
- Mas o estado dos porSes no deixava dvidas de que tinham 
contido uma grande carga!
- Pode provar que Biancodero transportava estupefacientes? - 
perguntou o comissrio, irnico.
Primo Calbez hesitou antes de responder e depois abanou 
negativamente a cabea.
- No, mas...
- No h mas... - a mo de Selvano fendeu o ar num gesto 
indignado.
- Para ns, polcias, s a lgica e os factos interessam. 
Nada mais. No podemos apresentar apenas suspeitas. Depois de 
Anita Almiranda e o professor Destilhano se terem suicidado, no 
temos mais facto algum em que nos basearmos! A busca que passmos 
ao seu domiclio no deu qualquer resultado. Biancodero adoeceu 
ao ter conhecimento da morte de Anita e do professor, e no 
podemos ainda interrog-lo. De resto, nada poderemos saber dele, 
pois provavelmente Destilhano fazia o contrabando de 
estupefacientes sem que ele o soubesse. Digo-lhe que podemos dar 
a questo por encerrada.

Primo Calbez no partilhava a opinio e o pessimismo do 
superior a respeito daquele caso. Mesmo concordando que aps o 
desaparecimento da famlia Destilhano no pudessem conseguir 
provas vlidas, a misteriosa personalidade de Jos Biancodero no 
lhe deixava qualquer descanso.
- Seria conveniente interessarmo-nos mais por esse 
Biancodero - insistiu.
Mas enfrentava uma resistncia enrgica do seu chefe.
- Deixa-me em paz com esse indivduo! J me informei a respeito 
dele em Sevilha. Biancodero partiu em viagem h muito tempo e 
ainda no regressou, o que  perfeitamente explicvel visto estar 
actualmente hospitalizado em Lisboa!
- Portanto, para si o caso est encerrado?
Selvano disse que sim com a cabea.
- Amanh apresentarei o meu relatrio ao governador civil e 
mandarei fechar o dossier.
- E que suceder a Jos Biancodero?
Selvano teve um gesto de despreocupao:
-  intil preocuparmo-nos com ele. No decorrer das buscas 
feitas  casa do professor Destilhano foi encontrado o ltimo 
testamento do professor: ele foi designado como seu herdeiro 
universal, juntamente com sua sobrinha Anita. Como esta se 
suicidou sem fazer testamento, toda a enorme fortuna do professor 
ser para ele!
-  uma sorte invejvel!
-Conforme... esse dinheiro est impregnado de sangue. 
Sinto-me mais a vontade do que aquele que o herdou.
Primo Calbez no respondeu. Meteu a sua velha agenda no 
bolso e levantou-se.
- Vou-me embora, chefe - disse com indiferena.
-        No deve haver mais novidades esta noite.
Selvano abanou a cabea e fitou Calbez com ar crtico:
- Parece-me que a concluso deste caso no lhe agrada. Esse 
Biancodero  um louco e eu creio que voc persegue um fantasma! E 
no me censure por ter esta opinio. E note bem, Calbez, no 
espere da minha parte qualquer apoio. No estou disposto a dar 
cobertura s suas fantasias!
- Como queira, Selvano - respondeu delicadamente o polcia 
-, mas se conseguir deitar a mo a esse tipo reclamarei uma 
indemnizao e um aumento!
Quando o Dr. Fernando Albez saiu do hospital, em Lisboa, cinco 
dias mais tarde, era multimilionrio. Mas sentia-se rodeado de 
enigmas.
Que razo poderia levar o professor Destilhano a suicidar-se 
com um tiro quando momentos antes lhe dissera ao telefone que 
iria ter consigo  enseada rochosa?
Quem lhe teria batido com o candelabro na cabea? Com quem 
teria lutado? Tivera a impresso de ter ouvido um gemido, quando 
falara com ele ao telefone, antes de a ligao ser cortada. E a 
voz dele era trmula, dbil. Teria sido assassinado?
E a morte de Anita! Tratar-se-ia de um acidente ou de um 
suicdio? Anita era uma condutora temerria, mas muito segura, 
que decerto no havia decidido conscientemente sair da estrada, 
em plena noite!
Que se teria passado na casa da Rua do Monte do Castelo?

Porque razo teria Anita encontrado a morte nas proximidades 
da enseada rochosa onde o professor deveria ter ido?
Uma srie de enigmas.
Como homem prudente, o comissrio Antnio Selvano no lhe 
dera a conhecer o que provavelmente se passara e o cnsul 
Manolda, vindo de Amesterdo para assistir ao enterro do amigo, 
guardou silncio no que dizia respeito aos motivos que teriam 
provocado o drama e que ele conhecia at certo ponto.
A tristeza de Manolda perante o tmulo do amigo era 
verdadeira e profunda. Apesar de o seu aspecto acabrunhado ser 
devido mais ao pesar de ver acabado para sempre o rendoso negcio 
de contrabando do que  perda do amigo, a sua emoo causou bom 
efeito e assegurou ao velho patife uma boa porta de sada. Depois 
do fim de Destilhano e do negcio lucrativo que j conhecemos, 
Manolda pediu a sua demisso de cnsul, deixou Amesterdo e foi 
viver para Haia, onde comprou uma casa de campo, cultivando no 
fundo do corao a recordao do seu bom amigo.
Por sua parte, o agora solitrio Dr. Albez - sob o nome de 
Jos Biancodero -, transformado em grande proprietrio em 
consequncia dos inmeros bens que herdara em Portugal e nas 
ilhas Canrias, passara a ser o homem mais rico de Lisboa.
Retirara-se para uma casa de campo na costa rochosa de 
Sintra, perto das Azenhas do Mar, e vivia longe do mundo, 
sozinho, silencioso, grave. Frequentemente ficava de p sobre os 
rochedos que desciam a pique para o mar agitado, enquanto o vento 
lhe fustigava os cabelos e ele fitava o espao infinito do 
Atlntico.
Com Anita, a felicidade desaparecera da sua vida.

5

Passaram-se cinco anos.
Numa tarde do dia 7 de Agosto de 1929, um grande carro preto 
de turismo parou na estrada cheia de precipcios, junto da 
muralha rochosa. Um homem de alta estatura, de ombros largos, 
vestindo um fato de viagem cinzento-escuro, ps p em terra. 
Olhou para o alto dos rochedos, deu algumas indicaSes ao 
motorista e comeou a subir um atalho ngreme e pedregoso. O 
automvel avanou e foi parar numa espcie de recanto em forma de 
meia-lua cavado na rocha.
Com o rosto vermelho, congestionado, um pouco ofegante, o 
visitante chegou ao alto do atalho. Observou por instantes a casa 
de campo comprida e baixa que ficava ao fundo do jardim. Ia 
dirigir-se para l metendo por um caminho ensaibrado, quando uma 
voz vinda do meio dos arbustos o interpelou:
- Ser possvel! O senhor, em Sintra?
Assustado, o estranho voltou-se. Depois um sorriso radiante 
iluminou o seu rosto de homem bem alimentado.
- Doutor Fernando Albez! O senhor tem uma maneira diablica 
de receber os seus convidados! - Rindo, apertou-lhe a mo. - Ao 
fim de cinco anos de solido, quis vir visit-lo ao seu retiro 
solitrio, que me parece apropriado para uma existncia 
tranquila! - declarou, dando uma palmada amigvel no ombro de 
Albez.
- Como  que o senhor se lembrou de vir a Sintra, cnsul 
Manolda? - perguntou Albez, sorrindo e conduzindo o convidado 
pela alameda ensaibrada, at  casa.

- Depois da... da infelicidade que se deu, o senhor pareceu ter 
desaparecido!
- Envelhecemos, meu caro, os negcios cansam-nos, as 
actividades de um cnsul, com uma representao constante, 
prejudicam-nos a vida privada, por isso resolvi reformar-me e 
comprei uma casinha em Haia. Sou agora um feliz reformado!  o 
destino dos velhos, doutor Albez. Invejo-lhe os seus quarenta e 
dois anos e a sua boa forma juvenil. Logo que atingimos os 
sessenta anos, o sangue torna-se mais espesso e menos fluido, e, 
quando, como eu, se atinge os sessenta e quatro, ento no 
desejamos mais nada alm da paz prpria de uma existncia 
tranquila e sem preocupaSes.
- Mas, apesar disso, resolveu fazer esta viagem maadora at 
s Azenhas do Mar?
- Por puro prazer, doutor Albez. Fui a Lisboa visitar o 
nico amigo de infncia que me resta e pensei: preciso de ir 
saber como passa o amvel doutor Albez. Mas  claro que me 
informei sobre si perguntando por Jos Biancodero. Desapareceu, 
disseram-me. A casa da Rua do Monte do Castelo foi transformada 
em creche e o misterioso Jos Biancodero deve viver 
solitariamente em Sintra, no cimo de um promontrio rochoso, 
sobranceiro ao mar.  uma loucura, pensei, mas nem por isso 
deixaremos de ir ver esse rapaz!  por isso que aqui estou a 
importun-lo na sua cela de eremita!
O Dr. Albez sorriu e parou junto dos poucos degraus que 
davam acesso  entrada da casa.
- Claro que ser meu convidado - disse.
Manolda ergueu um brao, mas Albez fez um gesto que repelia 
qualquer discusso.
- Mas eu vinha passar aqui apenas um quarto de hora...
- Uma hora... Para isso mais valia no ter vindo! 
Encontra-se aqui e no o deixarei partir to cedo! Ignora que o 
meu jardim encantado pode ser encerrado por meio de uma frmula 
mgica e que ningum pode descer este rochedo sem a minha 
permisso? O senhor  meu prisioneiro!
Com fingida surpresa, Manolda tirou o chapu e encolheu os 
ombros num gesto resignado:
- Bem, fui apanhado! Eis no que d querermos ser sociveis! 
Mas declaro-lhe, doutor Albez, que se daqui a meia hora no 
estiver sentado  mesa, diante de um assado suculento e de uma 
boa garrafa de vinho, tentarei evadir-me  fora dos seus 
domnios encantados cantando canSes indecentes!
Sempre rindo, entraram na casa e encontraram-se num vasto 
vestbulo que, na sua extremidade, tinha uma vista maravilhosa 
sobre o oceano verde coberto de cristas de espuma.
- Vamos para a biblioteca! - decidiu Albez, enquanto Manolda 
admirava aquela casa toda em colunas e ogivas. - Ficamos mesmo 
por cima dos recifes e o sol-poente ilumina as janelas com tons 
de prpura e dourados. Sento-me ali todos os dias, com os olhos 
fixos no globo solitrio em ignio que se afunda lentamente nas 
ondas. Ento desejo apenas uma coisa: morrer um dia ao 
sol-poente.
Atravessaram lentamente e em silncio o grande vestbulo 
para penetrarem numa sala abobadada, de paredes de madeira 
escura. Toda a sala estava coberta de prateleiras com livros. Uma 
grande janela abria para o mar. Profundos cadeirSes estofados 
rodeavam um bar que continha vrias gavetas-surpresa, entre elas 
uma mesa de jogo.

- Instale-se, Manolda - disse o Dr. Albez apontando para um 
dos cadeirSes. - Permita-me apenas que transmita a sua ementa  
cozinha e que v eu prprio escolher os vinhos. Para se ocupar, 
enquanto me espera, tem a um velho conhaque Marteil. Encontra 
copos no bar, debaixo da janela. Est em sua casa. Trouxe o 
carro?
-        Sim.
- Quer que o mande guardar na minha garagem e que confie o 
seu motorista ao cuidado do meu mordomo? A nossa criada dos 
quartos, Mira, ficar encantada com essa aquisio no nmero do 
pessoal masculino!
- Como queira - disse alegremente Manolda, sentando-se. - 
Estou  sua merc e como o ouvi fazer aluso a um velho Marteli, 
no se livrar facilmente de mim! Primeiro esvaziemos a cave!
- Assim o espero, meu caro Manolda! Assim o espero!
O Dr. Albez afastou-se, sorrindo. O cnsul Manolda abriu o 
bar da sala.
Depois do jantar, durante o qual Manolda fez as honras ao 
assado que pedira, assim como a uma garrafa de vinho de Bucelas, 
o cnsul encostou-se confortavelmente na sua cadeira, a exemplo 
do Dr. Albez, que fitava pensativamente o mar de reflexos cor de 
esmeralda.
- Ter poucas distracSes na minha companhia - disse ao fim 
de um momento. - O que de melhor lhe posso oferecer, Manolda,  o 
repouso, talvez algumas pescarias, passeios ao longo da costa 
numa lancha a motor e algumas idas ao Estoril, a nossa estncia 
balnear. Isto aqui  um deserto!
- Trago-lhe uma ocasio para viver de novo, Albez.
Surpreendido, o Dr. Albez ergueu os olhos. A voz de Manolda 
era clara e tranquila. Tratava-se apenas de uma metfora.
-        Que quer dizer, meu caro cnsul? - perguntou. Manolda, 
olhava para o mar.

- Menti-lhe, doutor Albez. No vim a Portugal por puro prazer. 
Estou farto da vida de reformado e queria organizar de novo algo 
de produtivo consigo, Albez.
O senhor tem ainda excelentes relaSes do tempo do nosso 
malogrado Destilhano. Quanto a mim, conheo a Europa Central como 
as minhas mos. Podamos agora trabalhar na Alemanha! A inflao 
foi debelada h muito, Stresemann est ocupado em tirar o seu 
pas do atoleiro. A velha Germnia est em ascenso! Desse modo, 
o seu poder de absoro aumentou muito, sobretudo devido ao facto 
de a fome das massas ser maior que a produo em massa do pas. 
Sabe em que estou a pensar, Albez?
- No!
- Numa sociedade internacional de exportao de fruta! 
Frutos provenientes de todas as regiSes do mundo a invadirem a 
velha Europa. Frutos exticos, do arquiplago malaio, da Amrica 
do Sul, da bacia do Congo, seriam lanados no mercado, provocando 
uma nova orientao do gosto. Existe a, meu caro Albez, uma 
verdadeira mina de ouro a ser explorada...
- J tenho dinheiro que chegue - disse a meia voz Albez, num 
tom que nada tinha de provocador e que demonstrava resignao e 
tristeza.
- Com certeza que sim. Mas quer passar o resto da sua 
existncia num rochedo e transformar-se num filsofo cheio de 
amargura?

- Estar vivo j  bastante penoso... - Albez contemplava as 
ondas e os seus pensamentos pareciam vaguear noutro universo. 
Depois voltou-se para o cnsul: - Precisa de dinheiro, Manolda? 
Estou ao seu dispor...
- No se trata disso. Temos ambos dinheiro que basta, mas a 
vida precisa de ter um sentido para no se tornar demasiado 
inspida! Ter apenas que gastar dinheiro acaba por se tornar 
aborrecido. Falta a magia do lucro... a vida precisa de ter um 
propsito...
- Um sentido, um objectivo, esta vida... - repetiu Albez num tom 
agressivo e com uma sombra de desdm na voz. - Mas faa como 
desejar. Organize a sua sociedade de importao de frutos; desde 
que no me importune pessoalmente, pode contar comigo. Deixo-lhe 
a si todo o trabalho da organizao e o aspecto comercial. - 
Levou a mo ao bolso e tirou de l um livro de cheques. - De 
quanto precisa, cnsul?
Manolda ergueu um brao e recostou-se para trs na cadeira.
- Fiz-me entender mal, doutor - disse acaloradamente. - O 
dinheiro  apenas uma questo secundria. O que  importante so 
as suas relaSes de negcios!
- Mas s tm interesse para produtos farmacuticos!
- Talvez possam ser utilizadas tambm no comrcio dos frutos 
exticos... - Calou-se e prosseguiu vivamente: - Quero dizer que 
essa actividade poderia servir de ponte para outras relaSes 
igualmente interessantes...
- Talvez. Eu posso dar-lhe endereos.
- Continua a no me compreender bem. - Manolda inclinou-se 
para a frente e afastou um pouco a garrafa de conhaque. - 
Necessito da sua actividade! De si e do seu iate, da sua ousadia 
e habilidade, do seu olhar penetrante e da sua inteligncia! Em 
resumo: preciso de si! - O Dr. Albez levantou a mo, mas Manolda 
deteve-o com um gesto: - No diga nada de momento. No quero 
obrig-lo a responder-me, no desejo ouvir um sim ou um no. 
Reflicta. O mundo est aberto na sua frente como nunca, no o 
universo de um rico vagabundo, mas o mundo de um homem que tem 
grandes projectos e que cumpre um dever essencial para com a 
humanidade. O de a alimentar! Esperarei at que voc possa chegar 
a uma deciso justa. Onde posso telefonar?
- No vestbulo - respondeu Albez, em voz baixa, mergulhado 
nos seus pensamentos. Manolda afastou-se rapidamente.
No vestbulo marcou um nmero de Lisboa, esperou e falou a 
meia voz:
- Estou em casa de Albez. Acabo de lhe falar no assunto e 
creio que o nosso plano resultar. Dentro de oito dias dar-lhe-ei 
notcias. Faa com que haja bastante "mercadoria"  nossa 
disposio!
Depois desligou e voltou rapidamente para a biblioteca.

Quando o comissrio Antnio de Selvano entrou na seco 
central de represso ao contrabando de estupefacientes, seis 
semanas mais tarde, viu, com grande surpresa, que Primo Calbez 
tinha na sua frente uma caixa com frutos e que descascava 
cuidadosamente uma ma.

- Bom apetite! - disse Selvano olhando para Calbez com um ar 
de espanto. - Ignorava que voc se tinha tornado vegetariano e 
apreciador de salada de fruta.  uma ocupao agradvel?
- No  desagradvel! - Primo Calbez sorria para o seu chefe 
enquanto cortava ao meio a sua vigsima stima ma. - Nunca 
deixamos de aprender, Selvano. De resto, vale a pena ocuparmo-nos 
um pouco mais de perto da exportao de fruta portuguesa... Sabia 
que o iate Anita voltou ao mar?
- Anita? No  o barco desse Biancodero?
- E pertencia ao professor Destilhano. Foi l que eu 
descobri meia caixa de Dolantin.
Selvano afastou o chapu para a nuca e sentou-se  
secretria. Desviou ento as ltimas pilhas de dossiers que ali 
se encontravam.
- No me diga que vai recomear com as suas estpidas 
suspeitas? Continua a pensar que o professor Destilhano era um 
contrabandista, passador de estupefacientes? O presidente da 
Repblica fez o seu elogio fnebre  beira do tmulo! Torna-se 
ridculo com isso, meu caro!
- O suicdio de Destilhano e a morte acidental de Anita Almiranda 
(chamemos-lhe prudentemente acidental) so acontecimentos 
misteriosamente eloquentes.
- Ningum vai gritar aos sete ventos os conflitos 
sentimentais em que  apanhado!
-        No se trata disso. A verdade  que, aps a morte de 
Destilhano, o contrabando de estupefacientes baixou em setenta 
por cento.
- Foi um acaso, Galbez. - Selvano tirou o chapu e atirou-o 
para cima dos dossiers. - Voc podia ir ainda mais longe e dizer, 
por exemplo, que depois do desaparecimento de Destilhano s 
tivemos em Lisboa dezassete ataques  mo armada, em vez dos 
vinte e sete ocorridos antes durante o mesmo espao de tempo! A 
sua paixo pelo iate Anita tornou-se uma verdadeira psicose!
Primo Calbez, que pegara noutra ma tirada do caixote e a 
cortara ao meio, pegou cuidadosamente nas duas metades e 
aproximou-se de Selvano, mostrando-lhe o fruto.
- Que diz a isto? - perguntou com um sorriso triunfante.
Selvano lanou um olhar pouco satisfeito para a ma 
cortada, mas depois teve um sobressalto. No lugar dos caroos 
estava alojada uma pequena cpsula de metal leve. Com um 
instrumento apropriado tinham retirado habilmente parte do 
endocarpo do fruto para l meter a cpsula.
Selvano retirou cuidadosamente a pequena cpsula e abriu-a. 
Dentro dela havia uma ampola cheia de um lquido claro como gua.
Assombrado, Selvano fitou Calbez, que sorria ironicamente.
-        Morfina pura - murmurou lentamente.
-        Sim.  a quinta ampola que encontro dentro desse 
caixote de mas.
-        Que loucura. E donde vieram essas mas?
- Do iate Anita!
Fez-se silncio. Selvano olhava fixamente a pequena ampola 
que continha o temvel estupefaciente.

- Se isso  verdade, Calbez, se tivermos provas a cem por 
cento de que essas mas vm do iate Anita, ento podemos agir. 
Mas ento - disse olhando fixamente o detective - terei de 
reconhecer que voc tinha razo em muitas coisas! O seu faro 
proverbial seguiu mais uma vez a boa pista! Como  que descobriu 
essas mas?
Primo Calbez sentou-se e pousou as duas metades da ma em 
cima dos dossiers amontoados na secretria.
-        H cinco anos que vigio esse Jos Biancodero. Fi-lo sem 
o senhor saber, pois teria troado de mim...
-        Com certeza!
- No me deixei impressionar pela solido em que ele vive. 
Mantive os meus espiSes atentos em Sintra, no Estoril e nas 
Azenhas do Mar. Observei sem descanso o modo de viver solitrio 
desse homem s, triste e, ao fim de alguns meses, persuadi-me de 
que lutava contra sombras. "Tu s um idiota", dizia a mim mesmo. 
"Essa pista diverte-te, mas no chegars a qualquer resultado." 
Acabei por desistir, mandei retirar os meus espiSes de Sintra e 
das Azenhas do Mar e dei tudo por terminado. Foi ento que soube 
que, aps cinco anos, Biancodero recebia o seu primeiro visitante 
no seu palcio dos rochedos. Isso alertou-me. No consegui 
descobrir a identidade do visitante, mas vi que a matrcula do 
carro dele era holandesa. Esse visitante permaneceu dez dias em 
casa de Jos Biancodero. No dcimo segundo dia, foi-se embora e 
tornou-se impossvel seguir a pista dele.
-        Sabe o nmero da matrcula, Calbez? Podamos 
informar-nos nos Pases Baixos.
-        J o fiz! O carro veio de Amesterdo mas o nmero da 
sua matrcula era falso. O zero sete sete nove um cinco no 
existe em Amesterdo nem no resto dos Pases Baixos!
- No me diga! Uma pessoa que vai de visita ao estrangeiro com 
uma matrcula falsa na viatura  porque tem algo a dissimular. 
Porque  que no me disse isso mais cedo, Calbez?
- Porque voc me ridicularizaria!
- Mas  uma prova! Isso d-nos o direito de passar uma busca 
quele ninho de guias!
-        Mas no  tudo - continuou Primo Calbez. - Quis 
penetrar mais a fundo para ver o que resultava daquele encontro 
secreto e esperei. O que se seguiu concordava com as minhas 
suspeitas: criao de uma sociedade de exportao de frutos sob a 
direco de Biancodero, tendo como scio o cnsul Manolda, que, 
no devemos esquecer, reside agora em Haia, isto , nos Pases 
Baixos. O iate Anita, ancorado no porto h cinco anos, foi 
reparado e calafetado e fez rumo a Las Palmas. Isso fez-me 
recordar que o professor Destilhano tambm navegava entre Las 
Palmas e Lisboa. Las Palmas  um porto de passagem para os 
frutos. Informei-me, pedi folhetos sobre a nova sociedade 
financeira e comprei eu prprio um caixote de fruta... tudo isso 
sem resultado... em parte alguma encontrei um indcio a que me 
pudesse agarrar. As mas eram boas. Nada mais. Ento tive uma 
ideia audaciosa: procurei o dossier com o itinerrio da droga. 
Voc conhece esse mapa da Europa onde esto indicados todos os 
pontos conhecidos em que, nos ltimos quinze anos, a droga foi 
intensamente vendida. Comparei esse mapa ao itinerrio e aos 
pontos em que a sociedade frutcola tem agncias... Eu prprio 
fiquei assombrado. Perto de setenta dessas sucursais encontram-se 
em cidades onde o trfico de droga  intenso!
-        Notvel!

-         tambm essa a minha opinio! Todavia, precisava ainda 
de uma prova palpvel e no apenas de uma certeza terica. Nomeei 
um agente com a misso de descobrir em Lisboa um toxicmano. Ao 
fim de trs dias, exactamente, tnhamo-lo descoberto: Bonheas, o 
gerente do banco nacional. Mandei-o vigiar e cheguei  concluso 
de que h algumas semanas se gastava muita fruta em casa dele... 
Chegavam  sua vivenda caixotes de bananas, mas, laranjas e 
toranjas. A famlia Bonheas devia empanturrar-se de fruta. A 
deduo fazia-se por si mesma: Las Palmas... frutos (o iate 
Anita) e as lojas que faziam desse negcio inocente uma simples 
cobertura para o trfico de droga... Bonheas  um drogado e come 
fruta proveniente de Las Palmas. O meu plano parecia resultar! 
Ontem  noite, fiz concorrncia aos nossos homens mais duros: 
introduzi-me em casa de Bonheas e depois de me identificar como 
polcia, passei revista enquanto alguns polcias uniformizados 
guardavam o local. Tudo devia passar-se muito rapidamente. Com 
trs robustos polcias  paisana, arrastei para fora da cozinha 
um caixote de toranjas, outro de laranjas e outro de mas e 
comecei imediatamente a cortar os frutos ao meio. As toranjas e 
as laranjas desiludiram-me, mas com as mas tive sorte. At 
agora encontrei cinco ampolas e tenho ainda perto de quarenta 
frutos no cortados no caixote. Uma coisa  certa, essa 
"sociedade frutcola"  a mais ousada das organizaSes do trfico 
de droga!
Selvano examinou de novo a pequena ampola de morfina.
- Voc fez um trabalho magistral, Calbez - disse ele -, mas 
a sua ideia de provas tem uma falha: sabe se esses caixotes so 
provenientes do iate Anita?
-        Mas  lgico...
-        Apoiando-se apenas na lgica, nada pode fazer. Todos os 
indcios so verdadeiras bolas de sabo se faltar a verdadeira 
prova. Voc tem-na? Deitou a mo a uma encomenda? Esses caixotes 
trazem porventura algumas marcas que seriam uma assinatura?
-        No - respondeu a meia voz Primo Calbez. - No tenho 
nada disso...
Selvano examinou de novo a ampola de morfina e olhou em seguida, 
sorridente, para o detective, que tomara uma expresso 
desanimada.
- Calbez, no se desencoraje.
- Obrigado.
- Amanh eu prprio irei inspeccionar o iate e em seguida 
visitarei a fortaleza rochosa de Biancodero. Mandarei vir 
imediatamente os registos do negcio respeitantes  fundao da 
sociedade frutcola. Talvez consigamos saber qual  o silencioso 
associado de Las Palmas e os outros interessados no negcio!
- E que devo eu fazer? - perguntou modestamente Calbez, 
mexendo nos pedaos da ma.
- Reservo-lhe uma encantadora ocupao - respondeu 
jovialmente Selvano. - Esta noite voltar a casa do gerente 
Bonheas. A polcia ficar de vigia no exterior, para que ningum 
o incomode. Desta vez no ir  cozinha, mas sim ao escritrio do 
dono da casa. Talvez encontre na secretria dele algo que sirva 
para agirmos contra Biancodero. Sabe forar um mvel sem fazer 
rudo?
-        Com todos os requintes imaginveis - retorquiu Calbez 
com um gesto afirmativo. - E se sou surpreendido, chefe? Devem 
estar alerta desde a minha primeira intruso!

- Nesse caso, a polcia que estar de guarda aparecer e 
prend-lo- a si como se se tratasse de um verdadeiro ladro.  o 
melhor. Voc pode fazer barulho intencionalmente. Bonheas chamar 
a polcia e voc ficar a salvo. Bonheas no desconfia de coisa 
alguma e tom-lo- por um vulgar larpio. Boa sorte, Calbez!

A noite estava relativamente clara quando Antnio de 
Selvano, acompanhado por trs polcias da esquadra central da 
luta para a represso do trfico de droga, apareceu no porto de 
Lisboa e se aproximou da terceira doca, onde, amarrado ao cais, 
com todas as luzes apagadas, como privado de vida, se encontrava 
ancorado o belo e luxuoso iate Anita.
Selvano tinha conscincia das consequncias de um inqurito 
sem resultado, pois o encadeamento das ousadas deduSes feitas 
por Primo Calbez no justificava uma intruso na sacrossanta vida 
particular. Juntava-se a isso o facto de a informao dada pelo 
registo de comrcio ser mais que sucinta e no mostrar nada que 
no se conhecesse j: eram membros da firma Jos Biancodero, 
morador nas Azenhas do Mar, e o cnsul Manolda, de Lisboa, 
domiciliado no Hotel Espanha. Manolda, ex-cnsul, era 
personalidade grada e gozava de excelente reputao. Era 
impensvel que o cnsul conde de Manolda pudesse associar-se com 
um homem de negcios duvidoso ou se entregasse a actividades 
ilcitas. A sua participao no negcio era s por si uma 
garantia de perfeita regularidade.
Selvano no se sentia nada  vontade ao penetrar no cais da 
terceira doca e ao ver o iate Anita banhado por um luar leitoso.
O pavimento irregular do cais brilhava fracamente, com 
reflexos de prata. Um profundo silncio envolvia o porto. Apenas 
o ligeiro marulhar das ondas a bater contra os cascos das 
embarcaSes ou um leve ranger dos cordames animavam a noite 
calma.
Selvano fez sinal aos trs homens que o acompanhavam e 
preparava-se para sair da sombra projectada pelos armazns a fim 
de seguir a passagem que corria ao longo do cais, quando parou 
subitamente para voltar de um salto para a proteco dos 
edifcios.
Na passagem existente ao longo do cais encontrava-se 
estacionada uma grande limusina preta, com as luzes apagadas.
Era um carro estrangeiro, como Selvano verificara no prprio 
momento em que o vira. Lembrou-se ento da visita que Biancodero 
recebera nas Azenhas do Mar e na falsa matrcula holandesa que 
esse carro trazia. Que estaria a fazer ali um carro estrangeiro 
quela hora da noite?
Existiria realmente uma ligao secreta, da qual o prprio 
cnsul Manolda ignorasse tudo? Dar-se-ia o caso de o seu to 
honrado nome estar a servir de proteco a negcios escuros?
Selvano trocou um rpido olhar com os trs companheiros. 
Depois deslizou ao longo dos armazns e aproximou-se lentamente 
da grande limusina preta. Empunhando disfaradamente os 
revlveres, os trs polcias seguiram de perto o comissrio.
Selvano demorou apenas uns minutos a aproximar-se do carro 
para poder ler o seu nmero de matrcula  fraca claridade da 
lua.

Surpreendido, assobiou baixinho:
"077 915!"
Era o mesmo carro que Primo Calbez vira em Sintra, perto da 
casa de Jos Biancodero, situada no alto dos rochedos!
Como um gato, Selvano deslizou em silncio, aproximou-se da 
viatura e correu rapidamente para ela.
No mesmo instante, a grande e pesada porta do veculo 
abriu-se e bateu com toda a fora na cabea de Selvano. O 
comissrio vacilou, viu tudo girar  sua volta, ouviu o rudo de 
um motor a pr-se em marcha e perdeu os sentidos, ficando 
estendido no cho.
Os trs homens que acompanhavam Selvano, apanhados de 
surpresa, no compreenderam imediatamente o que se passara. Viram 
de repente os faris do carro preto ilumin-los, ouviram um rudo 
surdo logo abafado pelo rudo do potente motor do carro e depois 
este partir velozmente em direco ao Estoril, como uma flecha 
fulgurante, desaparecendo no emaranhado das docas.
Correram ento para Selvano, tendo verificado que este se 
encontrava inconsciente. Tinha um profundo ferimento na testa, 
donde o sangue corria abundantemente.
Trs fortes apitos soaram estridentemente na noite.
Imediatamente todos os cantos e recantos do cais se 
animaram. Outros apitos responderam aos primeiros, lanando o 
alarme, alertando as esquadras de polcia mais prximas. Como uma 
pedra que cai na gua e provoca ondas que se vo afastando cada 
vez mais, os apitos chegaram aos ouvidos dos polcias que 
efectuavam a sua ronda nocturna.
Alerta no porto!
Alarme em Lisboa!
Os carros partiam do Comando da Polcia.
Eram dadas as primeiras ordens por telefone.
"O comissrio Selvano foi agredido no terceiro cais do 
porto!"
"Procura-se grande limusina preta, com o nmero de matrcula 
holandesa 077 915!"
"O nmero  falso. A viatura seguiu na direco 
Estoril-Sintra-Azenhas do Mar!"
Os telegramas seguiam-se. Os carros da Polcia corriam em 
direco a Lisboa com todas as sereias a apitar.
"Coloquem barreiras em todas as estradas, detenham todos os 
veculos... procurem limusina 077 915... direco Estoril... 
repita o morse... Bloqueiem as estradas... "
A limusina preta corria veloz na noite.
Com as plpebras crispadas, o cnsul Manolda agarrava-se ao 
volante com as duas mos. Da testa corriam-lhe pequenos rios de 
suor para o rosto: era o suor do medo, do esgotamento.
"Que porcaria", pensava ele. "Logo aquele maldito polcia 
tinha de aparecer precisamente naquela altura! "
Para que direco devia seguir? Ir para Sintra, para casa de 
Albez, era impossvel! Ele ignorava tudo. De resto, era 
necessrio afastar dele e do iate Anita qualquer suspeita! E 
encontravam-se no iate dezasseis caixotes com laranjas contendo 
pio e cocana!
Manolda limpou o suor que lhe inundava os olhos. As mos 
tremiam-lhe.

"Preciso de me ir embora, para qualquer stio. Se 
conseguisse distanciar-me bastante! Existem em Portugal tantos 
lugares onde  possvel uma pessoa esconder-se em segurana!"
Carregava cada vez mais no acelerador. Os jardins e as casas 
dos arredores da cidade desfilavam dos dois lados do carro. O 
caminho estendia-se a direito na sua frente como uma fita 
prateada iluminada pela luz do luar. Suavemente a estrada 
inclinava-se para a costa... para o mar infinito.
Os pneus gemiam sobre o asfalto. Manolda inclinou-se sobre o 
volante e teve um sobressalto. Um pavor sem limites contorceu-lhe 
o rosto, que se transformou, tomando uma expresso lamentvel, 
irracional e apavorada.
Ao longe, na estrada, algum agitava lanternas vermelhas!
"Parem! Controlo da polcia!", diziam esses sinais. "A 
estrada est bloqueada!"
Os olhos de Manolda desviaram-se da estrada e olharam a 
costa.
Era impossvel escapar... impossvel voltar atrs... A 
partida estava perdida. O que ainda lhe restava permaneceria como 
o segredo eterno da sua existncia, mesmo para alm da morte...
Com os olhos fixos, Manolda pegou num pequeno bido de 
gasolina cujo contedo espalhou sobre os assentos do carro. 
Depois lanou os seus documentos para essas poas oleosas, tirou 
uma ampola do bolso, trincou o vidro frgil e engoliu, com o 
rosto contorcido, o lquido que ele encerrava. No mesmo instante, 
acendeu o isqueiro, que deixou cair sobre a gasolina, que logo se 
incendiou.
Uma viatura em chamas foi embater na barragem feita pela 
polcia e chocou contra uma rvore, um pouco mais adiante. Um 
cadver desconhecido, calcinado, encontrava-se dentro dele, em 
segurana.

6

O comissrio Selvano estava de um mau humor terrvel. 
Encontrava-se na frente de Primo Calbez que mantinha os olhos 
baixos, e batia, enquanto falava, sobre o grosso dossier 
Destilhano-Biancodero colocado diante de si. Tinha o rosto 
congestionado pela irritao.
- O resultado  zero! - gritou. - Quer as suas suspeitas 
sejam bem fundadas ou no! Estamos perante um mistrio, tal como 
antes! Examinemos mais uma vez o que observmos e as provas de 
que dispomos sobre o assunto: trs mortes inexplicadas, um iate 
onde o senhor encontrou estupefacientes (em pequena quantidade,  
certo), caixas com frutos exticos contendo morfina, cuja 
provenincia no podemos provar ao certo, um homem de nome 
Biancodero vindo de Espanha, um automvel em chamas com um 
cadver irreconhecvel no interior, uma matrcula falsa, uma 
vivenda no alto dos rochedos em que no existe a mnima coisa que 
desperte suspeitas, nem a mais pequena pista... Todas estas 
coisas sem relao entre si, quase sem significado... Pense 
friamente nisto, Calbez... Encontrou alguma coisa na sua segunda 
intruso na casa do director Bonheas?
- No, nem o menor indcio - reconheceu Calbez, falando em 
voz baixa.

-        Est a ver! Os caixotes com frutas contendo estupefacientes 
tinham desaparecido, no havia l qualquer documento escrito; 
Jos Biancodero, que voc suspeitava dirigisse o negcio de 
contrabando de estupefacientes,  amigo do respeitvel cnsul 
Manolda! Isto deve bastar-lhe. Segundo afirmou o pessoal do 
hotel, deve encontrar-se em Tenerife, a tratar de negcios.
-        J v!
Selvano irritou-se de novo.
-        Voc enerva-me, Calbez! - exclamou.
-        De Tenerife vieram, entre outras mercadorias, os frutos 
contendo as ampolas de morfina - disse calmamente Calbez.
-        Que imaginao! - exclamou Selvano. - Manolda pertence 
ao gabinete conservador realista. Acha que ele...?
-        Conheci prncipes que eram verdadeiros escroques. 
Porque razo um cnsul no poderia entregar-se ao trfico de 
estupefacientes? J perguntou para Tenerife se Manolda se 
encontra realmente l?
-        Que pergunta! - exclamou Selvano, olhando o detective 
de alto a baixo. - Espero a resposta deles a cada instante. 
Mandei tambm vigiar Jos Biancodero.  bom eu no ter posto os 
ps no iate nessa noite fatal. Podamos ter agora nas mos uma 
queixa por violao de domiclio. Calbez, o seu lendrio "faro" 
enganou-se desta vez, quer isso lhe agrade quer no. Ou ainda 
est convencido de que Jos Biancodero  um traficante de droga?
- Sim.
- Calbez! No seja tolo!
- Obrigado, chefe. Mas eu tenho as minhas opiniSes. Pode ser 
que elas sejam estranhas para as outras pessoas, mas no o so 
para mim. Tenho a sensao de que as minhas suspeitas so 
correctas!
- E quais so elas?
- Acho que Biancodero no  Biancodero...
- Quem  ento?
- Um outro, um desconhecido Talvez um "substituto". 
Lembra-se que Anita Almiranda lhe chamava Jos em pblico e 
Fernando quando estavam a ss?
- Lembro. E depois?
- Isso d-me que pensar. Deve haver qualquer razo 
secreta...
- Talvez apenas uma questo amorosa. Talvez ela achasse que 
Fernando era um nome mais terno...

- Mas talvez esse homem tenha uma vida dupla! Informei-me em 
Sevilha a respeito das suas origens. Disseram-me que ele 
desaparecera subitamente... sem razo. Era um homem que no dava 
nas vistas. E de sbito embarca, em Marselha, como amigo do 
professor e desembarca em Lisboa com ele, tornando-se em breve o 
noivo de Anita! Mais ou menos um ano depois o professor 
Destilhano tem uma discusso com a sobrinha e faz saltar os 
miolos. Nessa mesma noite Anita Almiranda precipita-se com o seu 
carro do alto da falsia. Jos Biancodero  o herdeiro universal 
da enorme fortuna de Destilhano, compra um palcio-fortaleza e 
vive uma vida de eremita rico longe de qualquer vigilncia. No 
tem quaisquer relaSes com Sevilha, a sua cidade natal. O cnsul 
Manolda  o seu nico amigo... Durante cinco anos reina a calma 
no nosso servio. Mas de repente Biancodero tira o seu iate da 
doca onde estava ancorado e volta a sulcar os mares, deixando a 
casa dos rochedos e livrando-se da solido como um co sacode a 
chuva... E por estranha coincidncia e de sbito, a droga 
reaparece em quantidades fabulosas!
Selvano escutara-o atentamente. Acabou por fazer um gesto de 
concordncia com a cabea.
-        Reconheo, Calbez, que as suas deduSes sucessivas 
formam um todo lgico e perturbador... Mas a verdade  que no 
tem provas! O que nos falta  a convico absoluta obtida por 
termos apanhado Biancodero em flagrante, ou por termos recebido 
uma queixa que nos mostra de forma irrecusvel a sua 
culpabilidade. Alm das suas deduSes, sem valor perante a lei, 
precisamos de factos concretos que o acusem directamente. 
Enquanto o cnsul Manolda responder, por ele avanaremos s 
apalpadelas.
Selvano preparava-se para ir guardar o dossier num arquivo 
quando o telefone tocou. Selvano fitou Calbez.
-        Apostemos que se trata de um pequeno passador de pio 
que se deixou prender? Pode preparar-se para o interrogar, 
Calbez!
Sorrindo, levantou o auscultador, mas imediatamente o seu 
rosto tomou uma expresso tensa e um espanto sem limites se lhe 
estampou no olhar. Puxou uma cadeira para si, com um p, e 
sentou-se. Primo Calbez olhava-o ansiosamente.
-        Bem, est bem - dizia Selvano ao telefone com uma voz 
um pouco indecisa. - Sim, vamos imediatamente tratar do caso e eu 
porei o Ministrio ao corrente.
Em seguida desligou e fitou Calbez em silncio durante uns 
momentos. Ao ouvir a palavra "Ministrio" Calbez dera um salto, 
como se tivesse sido atingido por uma descarga elctrica.
-        Eis a bomba que nos vai despedaar aos dois. Biancodero 
acaba de me telefonar!
-        Ah!
-        Fez-me um pedido para procurar o cnsul Manolda. Afirma 
que ele desapareceu h trs dias sem deixar rasto!
-        Meu Deus!
Primo Calbez levantou-se e comeou a andar de um lado para o 
outro, nervosamente.
-        Sim - prosseguiu Selvano. - O cnsul saiu de casa de 
Biancodero h trs dias, depois de l ter ido fazer uma visita, e 
dirigiu-se para Lisboa, onde devia passar umas horas, e disse a 
Biancodero que voltaria a casa dele nessa noite.
-        Mas no hotel pensam que ele partiu para Tenerife!
- Sim. Vou imediatamente mandar saber como  que nos deram essa 
informao!
-        E precisamente h trs dias um automvel incendiado foi 
embater numa rvore tendo dentro um cadver irreconhecvel! - 
afirmou Primo Calbez, pensativo, com uma expresso enftica.
Selvano endireitou-se vivamente e levou as mos  cabea.
- Calbez! - exclamou, perturbado -, esse mesmo carro com 
matrcula holandesa falsa esteve anteriormente estacionado junto 
dos rochedos, perto do ninho de guias de Biancodero. Meu velho, 
seria fantstico, impensvel, se voc tivesse afinal visto bem as 
coisas.
O cnsul...
- Manolda era cnsul na Holanda - respondeu Calbez calmamente. - 
Conhecia os nmeros das matrculas dos Pases Baixos...

- A caa vai comear agora! - exclamou Selvano, batendo 
energicamente no ombro de Calbez. - Dois carros iro consigo s 
Azenhas do Mar e voc ir interrogar Biancodero. Quanto a mim, 
visitarei o iate Anita. O cadver calcinado ser identificado. Os 
restos do carro sero igualmente investigados. Escreve,
Calbez: "Apelo a toda a populao: pede-se s pessoas que 
conheceram o cnsul Manolda que se apresentem amanh e depois no 
Comando da Polcia, gabinete cento e vinte e trs, pois 
provavelmente o cnsul ter sido assassinado. " Temos de mentir, 
Calbez. Se conseguirmos identificar o cadver calcinado como 
sendo o do cnsul Manolda, ento ficaremos com a chave de todos 
os crimes cometidos nos ltimos quinze anos, e voc, Calbez, ser 
o heri da Polcia!
- Preferia que me aumentassem o vencimento - respondeu 
secamente Calbez.
E, no entanto, todo o plano de combate traado por Selvano 
ficou reduzido a nada.
Jos Biancodero dispunha de um libi irrefutvel. Na noite 
fatal esperara at altas horas da noite pela chegada do cnsul, 
acompanhado por um dos membros da Cmara de Comrcio.
O cadver, irreconhecvel pelas chamas e pelo excesso de 
desinfectante, no pde ser identificado, tanto mais que no 
trazia consigo quaisquer documentos ou jias.
O carro era desconhecido em Lisboa, fora fabricado em srie 
pela Cadillac e no tinha qualquer indicao particular.
Depois chegou uma notcia que ps Selvano fora de combate e 
o aniquilou totalmente.
Um certo baro Siegurd von Pottlach, negociante em Tenerife, 
anunciou telegraficamente que na vspera discutira com o cnsul 
Manolda a venda de trs mil caixotes de bananas.
-        Como?
-        Com o cnsul Manolda?
-        Sim!
-        No Hotel Esplanada em Tenerife, desde as dez horas da 
manh s oito da noite. Em seguida, o cnsul embarcou num barco 
costeiro e seguiu viagem para Las Palmas. Mostrava-se muito 
satisfeito!
Dois dias depois da descoberta do automvel em chamas com o 
cadver dentro. Um morto que Selvano e Calbez pensavam que 
pudesse ser o cnsul Manolda!
Seria possvel que um morto estendido na sala de dissecao 
possa, dois dias mais tarde, vender em Tenerife trs mil caixotes 
de bananas?
E como fora o cnsul para Tenerife? O iate Anita 
encontrava-se ainda ancorado no porto e nenhum navio das 
companhias martimas partira nessa semana para as ilhas Canrias!
Onde estaria agora o cnsul Manolda? De Las Palmas tinham 
dito que no fora ali detectado e que todas as pesquisas 
empreendidas se revelaram infrutferas.
Selvano enviou um pedido de informao para Santa Cruz de 
Tenerife.
-        Quem  esse baro Von Pottlach?
A resposta teve sobre o comissrio Selvano um efeito 
demolidor.

Informaram-no de que o baro Von Pottlach era o melhor e o 
mais respeitado dos negociantes de Tenerife. Deviam crer em 
absoluto nas suas declaraSes, pois era um dos habitantes mais 
escrupulosos e dignos de considerao do arquiplago.
Selvano estava desnorteado. Tinha quase a certeza de que o 
morto desconhecido era o cnsul Manolda... e, no entanto, dois 
dias aps a sua morte encontrava-se em Tenerife e comprava 
bananas.
-         uma iluso! - exclamou Selvano com as mos enfiadas 
nos bolsos, enquanto, Primo Calbez, furioso, trincava o seu 
cachimbo. -  simplesmente uma loucura. Nunca se viu nada como 
isto!
Um silncio opressivo pesava sobre a seco de represso 
contra o trfico de droga. Selvano e Primo Calbez eram como gatos 
 espera da presa. Faziam certas ligaSes... mas eram impotentes, 
no podiam ainda agir.
Esperavam que fosse cometido um erro... o erro que todos os 
criminosos cometem uma vez...
O erro que retiraria o vu ao mistrio...

O desaparecimento sbito do cnsul Manolda no teve, 
estranhamente, nenhuma aco paralisadora sobre o Dr. Albez. Pelo 
contrrio, ficou como que electrizado e em consequncia o seu 
interesse pelos negcios at aumentou.  certo que os seus 
pensamentos foram um pouco perturbados por esse incidente sbito 
que interveio na sua vida. Pareceu mesmo sincera e extremamente 
comovido e assustado, pois essas mortes em sries pareciam ter 
ligao entre si. Sentia-o no fundo de si mesmo, mas 
exteriormente conservava um notvel sentido dos negcios, 
acompanhado por uma tranquilidade e por um comedimento em todas 
as suas acSes que espantavam toda a gente. Desenvolveu em grande 
estilo o negcio das exportaSes de frutos, com a ajuda do baro 
Von Pottlach.
O Dr. Fernando Albez estava ainda indeciso quanto ao 
comportamento a seguir quando o comissrio Antnio de Selvano e 
Primo Calbez suspenderam o inqurito respeitante ao caso do 
cnsul Manolda e pararam com os interrogatrios que, de resto, 
no deram qualquer resultado. O facto de desconfiarem dele e de 
julgarem necessrio passar uma busca ao seu iate pareceu-lhe 
risvel, mas em seguida comeou a compreender que o consideravam 
como a personagem central de um acontecimento ou de um estado de 
coisas que lhe eram absolutamente estranhos. A pesquisa feita  
sua casa dos rochedos, o seu confronto com o cadver 
horrorosamente calcinado de um desconhecido, o controlo do seu 
negcio de fruta e a entrevista no Comando da Polcia com o 
banqueiro Bonheas pareciam-lhe agora, examinadas a frio, como 
partes de um plano preciso que girava constantemente em torno da 
sua pessoa, que no entanto permanecia totalmente fora da questo.
Apesar da gravidade do caso, o Dr. Albez no pde deixar de 
sorrir.
Desconfiariam que ele tivesse morto Manolda?
De resto, quem poderia afirmar que o cnsul fora 
assassinado? No comprara ele, alguns dias antes, trs mil 
caixotes de bananas em Tenerife? O depoimento do baro Von 
Pottlach fora bem claro e explcito. E, alm disso, os caixotes 
tinham j sido entregues!

O baro Von Pottlach! Era o homem que, segundo o plano de 
negcios de Manolda, se encarregaria em breve das compras no 
mercado africano. Talvez ele soubesse mais alguma coisa a 
respeito do desaparecimento de Manolda. Ou talvez Manolda, tomado 
de uma inspirao sbita, resolvesse deslocar-se de uma ponta  
outra do mercado africano e no tivesse escrito para no 
despertar as atenSes da concorrncia.
O Dr. Albez mantinha-se de p junto da enorme janela do seu 
gabinete e olhava para o mar infinito e cintilante. As cristas 
luminosas das vagas vinham quebrar-se contra os recifes.
"Preciso de ir a Tenerife", pensava Albez, encostando-se ao 
parapeito. "Quando se deu a morte de Anita e Destilhano, perdi 
por completo a razo e entreguei-me totalmente ao desespero. Foi 
um erro, pois desse modo o rasto perdeu-se. Agora vou segui-lo... 
nem que para isso tenha de dar a volta ao mundo. De uma maneira 
ou de outra, sinto que os acontecimentos tm uma ligao entre 
si".
Fernando Albez no era homem que hesitasse muito tempo a 
agir depois de ter tomado uma deciso...
Com mo firme, levantou o auscultador do telefone, marcou um 
nmero e esperou que atendessem.
-        Daqui Jos Biancodero - disse com voz clara.
-        O comissrio Selvano encontra-se no comando?
-         o prprio.
-        Muito bem. Senhor comissrio, preciso de partir em 
viagem. Gostava de saber se posso partir amanh sem controlo ou 
se me encontro ainda "sob controlo".
-        Fala de controlo? - A voz do comissrio era tensa e 
exprimia uma extrema surpresa. - Nunca o controlmos, senhor 
Biancodero. Ns nunca nos metemos na sua vida particular.
-        Sim? - O Dr. Albez abanou a cabea. - H cinco dias que 
eu e os meus empregados reparamos que estamos a ser 
constantemente vigiados noite e dia por cinco ou seis homens. 
Ontem, o meu jardineiro surpreendeu, escondido entre os arbustos, 
um homem que se dizia perdido. - Albez pronunciou a palavra 
"perdido" com nfase e, para aumentar o efeito, fez uma curta 
pausa. Em seguida continuou: - O senhor comissrio ignora 
realmente o que se tem passado?
A voz de Selvano mostrava-se perturbada ao responder  pergunta:
-        O que me diz  extremamente interessante. Primo Calbez 
acabava agora mesmo de me revelar que no deu ordens para vigiar 
Sintra... Os homens que os observam devem certamente pertencer 
aos meios relacionados com o misterioso desaparecimento do cnsul 
Manolda. Acautele-se, senhor Biancodero. No saia sozinho, 
sobretudo depois do anoitecer! A vigilncia a que est a ser 
sujeito prova-me que foi cometido um crime de que foi vtima o 
cnsul Manolda. Vou imediatamente ter consigo com alguns homens e 
tentarei apanhar alguns desses pssaros nas minhas redes! - A voz 
de Selvano foi cortada, um rudo precipitado, incompreensvel, 
ressoou na linha e depois a voz de Selvano ouviu-se outra vez: - 
Pode-se chegar ao seu rochedo por mar?
-        Dificilmente. O itinerrio menos complicado  o caminho 
que segue a estrada!
- Existe algum caminho ainda mais difcil? - perguntou 
Selvano com a voz tensa de ansiedade.

- Sim. Vem das Azenhas do Mar, seguindo a costa, e termina 
num atalho abrupto, que vai desembocar numa gruta que se 
assemelha a um tnel. Essa gruta, por onde entram as guas, deve 
ser atravessada em diagonal. Depois de a percorrer, chega-se 
ento a uma abertura do tamanho de um homem, por onde se sobe 
para uma plataforma, da qual parte um caminho rochoso e estreito 
que vai dar  sebe do meu jardim. Uma ascenso difcil!
- E de noite pode seguir-se por esse caminho?
- Dificilmente. O mais pequeno passo em falso e a pessoa  
lanada para um precipcio cheio de recifes batidos por ondas 
tumultuosas.  preciso conhecer muito bem esse caminho para uma 
pessoa se aventurar por ele de noite.
-        Primo Calbez ousar faz-lo. Ele chegar junto de si 
amanh, por esse atalho rochoso, acompanhado por trs polcias. 
Compreende que no queremos que seja visto pelos seus 
"vigilantes". S assim poderemos efectuar uma contra-ofensiva 
frutuosa.
O Dr. Albez ouvira com vivo interesse as palavras do 
comissrio, mas agora abanava a cabea.
- Os seus polcias sero bem-vindos - disse. Sero bem 
recebidos e desejo que tenham muita sorte nas suas investigaSes, 
mas eu preciso de partir com urgncia para me ocupar dos meus 
negcios. Por isso mesmo  que lhe telefonei. Antes de mais, 
peo-lhe que autorize o meu iate a partir.
Do outro lado do fio houve de novo um murmrio impreciso. 
Finalmente, o comissrio Selvano respondeu com uma pergunta:
- O senhor quer viajar por mar, senhor?
- Sim.
- E precisamente agora que est a ser espiado por 
desconhecidos e que ns podamos encontrar uma pista?
- Sim, agora. Tenciono dirigir-me a Tenerife.
- A Tenerife?
- Sim. Vou falar com um negociante, o baro Von Pottlach. 
Foi ele o ltimo a ver o cnsul Manolda e espero encontrar ali um 
rasto... O desaparecimento do meu companheiro est a arrasar-me 
os nervos!
- Finalmente! - exclamou Selvano, sem disfarar os seus 
sentimentos.
O Dr. Albez no pde deixar de sorrir:
- Sim. Finalmente! Recordo-me de que Manolda dizia 
ultimamente que precisava de percorrer o mercado africano para 
desalojar a concorrncia. Mas que o tenha feito to rapidamente e 
sem me prevenir,  coisa que no consigo entender. Seja como for, 
Manolda falara de Tenerife e de navegar at Las Palmas para ver o 
nosso depsito. Quero ir eu prprio verificar a execuo desses 
projectos!
- Mas ele no chegou a Las Palmas.
-  precisamente isso que me preocupa! Por qualquer razo, 
ele teve de modificar o seu plano e foi de Tenerife directamente 
para a costa africana... Ou ento, o que me recuso a acreditar... 
a concorrncia, cada vez maior, que me vi-a a mim tambm, foi 
capaz de o suprimir no mar!  isso que eu preciso de saber. Mas 
para tal preciso do meu iate Anita!
Durante breves instantes houve silncio dos dois lados do 
fio. Selvano parecia reflectir.
- Observou bem o cadver que morreu queimado no automvel? - 
perguntou Selvano  queima-roupa.
- Sim. - Espantado, o Dr. Albez fez um pequeno gesto 
afirmativo, com a cabea, para o telefone. "Que significar agora 
isto? ", pensou.

- E no o reconheceu?
- No.
- No seria possvel que esse morto irreconhecvel fosse o 
defunto cnsul Manolda?
O Dr. Albez teve um sobressalto. Num relmpago lembrou-se do 
corpo calcinado metido no carro incendiado e de todo o drama. 
Abanando violentamente a cabea, afirmou:
- Isso est fora de questo. Manolda era um excelente 
condutor. Alm disso, por que razo teria tomado uma dose de 
Zyankali se se tratasse simplesmente de um acidente?
- Ns no pensmos num acidente, mas sim num crime!
- Mas Manolda comprou bananas em Tenerife dois dias aps a 
descoberta do morto. Os fantasmas no fazem negcios!
- E que diz  possibilidade de haver um ssia de Manolda em 
Tenerife? - perguntou Selvano com tanta ansiedade, que se lhe 
notava na voz.
O Dr. Albez pareceu ficar surpreendido e depois comeou a 
rir, enquanto, furioso, do outro lado da linha, Selvano fazia uma 
careta e levava o indicador  testa, olhando para Calbez.
-        Lemos essas coisas nos romances policiais! - disse 
Albez -, mas creio que na vida real as coisas se passam de 
maneira menos fantstica. Manolda esteve em Tenerife. Isso  uma 
certeza. O baro Von Pottlach  um velho amigo da nossa firma e 
conhece to bem o cnsul que um ssia no teria qualquer 
possibilidade de o enganar. Manolda esteve com ele e eu quero 
certificar-me disso. Por instantes, pensei que a nossa 
"concorrncia" tivesse a inteno de nos deter dessa maneira. 
Mas, se for esse o caso, tentaro deitar-me a mo quando eu 
desembarcar em Tenerife.  o que vamos ver. De qualquer forma, se 
dentro de quinze dias, a partir de amanh, eu no tiver 
regressado, ou no tiver dado notcias, tero de pr os vossos 
homens em aco e procurar saber o que se passou junto das firmas 
cuja lista possuem. A verificar-se tal hiptese, talvez nos 
encontrem, a Manolda e a mim, encerrados num qualquer canto 
isolado. De outro modo, dar-lhes-ei constantemente notcias 
minhas por meio de mensagens em cdigo, indicando-lhes as minhas 
residncias e os meus futuros itinerrios.
O Dr. Albez tirou de cima da sua secretria uma lista das 
casas de exportao de fruta e ditou ao comissrio os endereos 
das firmas concorrentes da sua. Depois voltou-se para a janela e 
mostrou o propsito de pr fim  conversa. O sol vermelho 
deslizava paraalinha do horizonte e parecia ir afogar-se no mar 
tumultuoso. Era o espectculo desse majestoso pr do Sol que 
gozava todas as tardes, no meio de um silncio absoluto e com o 
corao cheio de melancolia.
-        Est tudo bem claro, senhor comissrio? - perguntou. - 
Posso partir amanh no meu iate?
-        Certamente. Suspendo provisoriamente o embargo, mas 
quero pedir-lhe uma coisa.
- Diga.
- Queria que levasse como seu companheiro de viagem um dos 
meus melhores homens!
- Isso no  do meu agrado. Mas se o acha absolutamente 
necessrio... concordo!
- Uma coisa ainda. - A voz de Selvano baixou de tom. - Abandone 
esta noite mesmo a sua vivenda pelo caminho dos rochedos e venha 
passar a noite a Lisboa.

O seu iate partir com o pavilho da polcia e o senhor s deve 
sair da sua cabina quando estiverem no mar alto. A bordo vestir 
um uniforme da polcia que Primo Calbez lhe levar amanh ao 
Hotel Europa. Queria evitar a todo o custo que os seus "vigias", 
ou qualquer indivduo que se interesse especialmente pela sua 
pessoa, veja que o senhor parte em viagem! Em sua casa tudo se 
passar como se o senhor l estivesse, pois Primo Calbez far-se- 
passar por si at ao seu regresso. Aos olhos dos observadores, 
ele ser Jos Biancodero, que no desconfia de coisa alguma. O 
seu pessoal  de confiana?
-        A toda a prova. E que espera dessa mascarada?
-        Deitar a mo a uns patifes e tentar ver mais claro 
atravs de toda esta trapalhada. Est de acordo?
-        Estou. Concordo com o que me propSe! - O Dr. Albez 
contemplava o mar, onde o disco rutilante do Sol se espelhava. - 
Sinceramente, desejo-lhe boa sorte, Selvano. Tambm eu gostaria 
de, finalmente, poder apreciar a claridade de uma manh 
ensolarada!

Como uma ilha de sonho, Tenerife repousa por entre as vagas 
alterosas do Atlntico. A sua costa abrupta, desprovida de 
portos, protege-a de todos os visitantes importunos e  apenas a 
partir da capital, Santa Cruz, que sai uma estrada que segue ao 
longo da maior e mais povoada das ilhas do arquiplago das 
Canrias. A sul ergue-se um monte vulcnico, cujo cume se 
encontra a mais de 3700 metros de altitude e no qual existe uma 
gruta de gelo, clebre no mundo inteiro, exemplar nico que nos 
fascina pelo esplendor que dela irradia, a Cueva dei velo. 
Dragoeiros gigantescos, essas rvores sangrentas de proporSes 
fantsticas, rodeiam essa montanha em forma de po de acar, a 
que os nativos chamam Pan de Azucar. Ali, junto do vulco, o 
cientista alemo Humboldt encontrou um dragoeiro com perto de 
seis mil anos, sem dvida a rvore mais velha do planeta!
Grandes palmeiras, bananeiras e vinhas cobrem toda a 
superfcie da ilha nesse clima martimo subtropical, que favorece 
o seu crescimento. Essas plantaSes representam a riqueza de 
Tenerife e so a base de um prspero comrcio de exportao de 
frutos para todas as partes do mundo.
Possuidor de uma dessas plantaSes gigantescas e considerado 
como um dos mais famosos exportadores de Tenerife, o baro Von 
Pottlach era um homem que aparecera certo dia na ilha de forma um 
tanto ou quanto obscura.
Instalado h perto de dez anos perto do pico de Tenerife, o 
baro Von Pottlach conseguira,  custa de trabalho rduo e 
utilizando prudentes mtodos comerciais, elevar-se  categoria 
dos comerciantes mais conceituados. A sua casa apalaada, no meio 
das suas plantaSes, tornava-se cada vez mais o centro de uma 
vida de sociedade das mais requintadas e ao mesmo tempo de uma 
frutuosa actividade comercial.

O baro Von Pottlach passava por ser o ditador da economia 
das ilhas Canrias. Alto, de ombros largos, de aspecto taurino, 
trazendo sempre um monculo preso na rbita esquerda, vestido de 
branco, impecvel, personificava a sntese rara da aristocracia 
nata e do homem de negcios ambicioso e decidido. A cabea, que 
parecia singularmente pequena para o corpo poderoso, o nariz 
adunco, a cabeleira castanha com leves fios prateados e sempre 
cortada muito curta, e as suas mos fortes e de tendSes visveis 
- tudo revelava uma energia formidvel, a qual lhe dera, de 
resto, a fama de se tratar de um homem que nada poderia abater, a 
no ser a morte.
E no entanto, nesse dia, o baro Von Pottlach permanecia 
sentado  sua secretria como que petrificado.
Nem sequer parecia aperceber-se de que no tinha o monculo 
entalado na rbita. No podia acreditar no que via, o seu olhar 
parecia fitar uma viso sobrenatural ao observar vrias vezes, de 
alto a baixo, o visitante que se encontrava na sua frente. Por 
fim, murmurou em voz baixa:
-        O senhor  verdadeiramente o doutor Albez? Que eu 
saiba...
O Dr. Albez ergueu ligeiramente a mo. Um sorriso de 
surpresa deu lugar a uma expresso de extrema severidade.
- Chamo-me Jos Biancodero, senhor baro - disse em voz 
alta. - De resto, creio nunca lhe ter citado qualquer outro nome.
Von Pottlach limitou-se a fazer uma pequena inclinao com a 
cabea. Depois apanhou o monculo e colocou-o.
-        Como queira! - A voz dele apresentava novamente um 
timbre inaltervel, prprio de um homem delicado. - Pensei que 
poderamos falar mais facilmente de algumas questSes que, 
certamente, o trouxeram at mim, se chamssemos as coisas pelos 
seus verdadeiros nomes e se, num meio em que pode confiar, o 
senhor abandonasse a sua estranha pantomima.
-        O cnsul Manolda p-lo ento ao corrente? - perguntou 
Albez, espantado.
-         evidente! S mantenho relaSes comerciais com pessoas 
que me convencem da sua perfeita honestidade. Isso pode parecer 
uma iluso, mas  uma medida que tem demonstrado ser das mais 
sensatas em certas situaSes que parecem no ter sada.
O Dr. Albez olhava para o cho. Tinha a sensao 
desagradvel de verificar que o seu interlocutor sabia mais do 
que ele esperava. "Provavelmente", pensava, "prepara-se para 
encetar comigo uma espcie de jogo do gato e do rato, at 
descobrir da minha parte uma falha que lhe permita tornar-se 
senhor da situao.  curioso, posso mostrar-me amvel com ele 
como homem de negcios e  at possvel que se estabelea entre 
ns uma certa cortesia, mas  evidente que, desde as primeiras 
palavras que trocmos, se revelou um antagonismo secreto entre 
ns.  estranho... pois eu mal o conheo..."
O Dr. Albez decidiu ento ser prudente e pesar bem cada uma 
das suas palavras. Sentou-se no cadeiro de junco que lhe era 
indicado e aceitou um charuto brasileiro, que o baro lhe 
ofereceu numa caixa de ouro trabalhada. Com uma delicadeza 
impecvel, o baro deu-lhe lume.
-        O senhor baro est ento ao corrente? - perguntou 
depois de aspirar a primeira fumaa.
- Estou ao corrente de tudo.
- Muito bem, isso permite-me falar mais livremente. Antes de 
ontem cheguei de Lisboa a bordo do pequeno iate Anita. Pretendo, 
fundamentalmente, que esta viagem,seja de pura amizade.

-  extremamente amvel da sua parte. - O baro inclinou-se, 
sem se levantar, e sorriu. Mas era um sorriso forado. - Agradeo 
as suas amveis palavras. Aceita um copo de vinho?
- De bom grado!
- Tenho aqui, nas minhas caves, um vinho velho das Canrias 
absolutamente admirvel. D-me o prazer de esvaziar uma garrafa 
comigo!
Carregou num boto e deu algumas ordens pelo 
intercmunicador. Enquanto falava relia uma mensagem colocada 
sobre a sua secretria e que fora a causa da sua extrema surpresa 
ao ver entrar o Dr. Albez no seu gabinete.

Iate Anita partiu hoje tendo a bordo uma tripulao de polIcias. 
Stop. Destino desconhecido. Stop. Dr. Albez ainda na sua vivenda. 
Stop. Nada de novo. Stop. Esperar instruSes para prosseguimento 
das operaSes. Stop.

"H alguma coisa nisto", pensou Pottlach com a rapidez do raio. 
"Esta mensagem no pode ser falsa.  impossvel... mas o facto de 
este homem aqui estar, em Tenerife,  muito mais do que uma 
simples visita! No se engana tanta gente sem uma razo 
qualquer."
Von Pottlach acabou de falar e voltou-se para Albez com um 
sorriso radiante. Este fumava e olhava  sua volta com um ar 
atento e intrigado.
- Agrada-lhe a minha casa? - perguntou. - Pensava justamente 
que o doutor vem aqui pela primeira vez. Os nossos encontros 
anteriores foram sempre rpidos e tiveram lugar nos vossos 
armazns de Las Palmas... por duas vezes com o cnsul Manolda e 
outra, creio, mas h muito tempo, com o professor Destilhano.
- No consigo lembrar-me desses contactos com tanta preciso 
como o senhor -, disse o Dr. Albez tentando esquivar-se a falar 
do assunto. - Foram encontros breves!
- Precisamos de remediar isso o mais depressa possvel! 
exclamou jovialmente o baro Von Pottlach, erguendo-se. - E 
verdadeiramente inadmissvel conhecermo-nos to mal, sendo ns 
associados. Posso mostrar-lhe a minha casa? Enquanto for meu 
convidado, ela ser tambm sua.
O Dr. Albez inclinou-se ligeiramente, mas deixou-se ficar 
sentado. Com um gesto quase impertinente, deixou cair a cinza do 
seu charuto.
- Com todo o prazer, meu caro baro, mas antes de entrarmos 
no captulo puramente amigvel da minha visita...
- Julguei que j tnhamos entrado - disse o baro com um 
sorriso antiptico, como se tivesse dito uma graa.
- Bem, desde o incio  certo. Mas a verdade  que a minha 
visita tem tambm outro objectivo.
"Bem", pensou Pottlach, "queres finalmente falar do assunto 
que aqui te trouxe? Vou dar-te uma ajuda. E em voz alta disse com 
cordialidade:
- Julgo que se trata do desaparecimento do cnsul Manolda...
O Dr. Albez respondeu com um sinal afirmativo. "O tipo  
manhoso", pensou. "Quer ser ele a encaminhar a conversa?"
- Sim - respondeu. - O senhor viu de facto Manolda?

-        Discutimos as possibilidades oferecidas pelo mercado 
africano. Depois o senhor cnsul comprou trs mil caixotes de 
bananas. De resto, posso apenas repetir aquilo que j disse  
polcia de Lisboa. O cnsul Manolda embarcou no vapor que vai 
para Las Palmas. Dissemos adeus at deixarmos de nos ver. 
Mantenho com ele relaSes de amizade e de uma antiga camaradagem.
-        Bem sei - retorquiu Albez -, mas Manolda no chegou a 
Las Palmas! Seria possvel esse vapor transferir passageiros para 
outros barcos no mar?
-        Geralmente, no o faz. De resto, poderemos sab-lo. Em 
todo o caso isso no se deu com Manolda!
-        Von Pottlach sorriu e encostou-se confortavelmente para 
trs. - SupSe que o cnsul tenha prosseguido a sua viagem para 
frica? Se foi esse o caso (considerando-o do ponto de vista 
puramente terico), continuo a no entender por que motivo ele 
nada me disse!
O Dr. Albez reflectia intensamente: que declarara o baro 
nas suas informaSes  polcia? Que falara de negcios com 
Manolda at s vinte e duas horas no Hotel Esplanada, em Santa 
Cruz. Mas porque razo no hotel e no ali, na plantao to 
prxima?
-        Encontrou-se com Manolda no Hotel Esplanada?
-        perguntou sem parecer dar grande importncia  pergunta.
O baro ficou atento. Aquela pergunta irritava-o.
O Dr. Albez mantinha os olhos baixos. Von Pottlach mordeu os 
lbios. No sabia exactamente qual seria o objectivo daquelas 
palavras.
-        Sim - respondeu despreocupadamente. - Convidei o cnsul para 
minha casa, mas ele queria apenas esclarecer um certo nmero de 
questSes. O seu tempo era muito reduzido, disse como que a 
desculpar-se.
-        Mas ficou l at s dez da noite. Podem-se dizer muitas 
coisas em doze horas!
O baro Von Pottlach franziu o sobrolho. " preciso ganhar 
tempo", pensava. "Mant-lo em respeito. A mensagem esperada no 
deve tardar."
-        Trata-se de um interrogatrio? - perguntou, irritado.
O Dr. Albez abanou a cabea.
-        Desculpe, baro, mas pensei que o senhor estivesse 
tambm interessado em deslindar o enigma Manolda. Deve 
compreender que o desaparecimento do meu scio me preocupa 
imensamente!
Na sua secretria uma luzinha vermelha acendeu-se e 
apagou-se logo a seguir. Os olhos de Von Pottlach brilharam. 
Ergueu-se vivamente.
-        Desculpe-me um instante! - disse ao interlocutor. - 
Preciso de falar com o meu secretrio por causa de uma assinatura 
que no pode esperar.
Saiu rapidamente da sala. O Dr. Albez seguiu-o com um olhar 
pensativo.
No corredor, em frente do escritrio, encontrava-se o seu 
secretrio particular, que lhe entregou um telegrama. Muito 
surpreendido, o baro leu-o imediatamente, ao mesmo tempo que ia 
abanando a cabea.


Iate Anita abandonado pela polcia no limite das trs milhas 
costeiras. Stop. Dirigia-se para o mar alto. Stop. Relatrio 
demorado devido ter de esperar informaSes de Sintra. Stop. Dr. 
Albez ainda em casa. Stop. Foi visto hoje de manh de perto por 
um dos nossos homens, Stop. Tripulao e destino do iate 
ignorados. X.

-        Isto  de loucos! - exclamou Von Pottlach em voz alta. - Uma 
loucura absoluta. Esses tipos vem fantasmas ao meio-dia. Quando 
chegou este telegrama?
-        H dez minutos. Precisei de o decifrar - disse 
timidamente o secretrio.
-        Telegrafe a resposta.
O secretrio tirou rapidamente a agenda do bolso e escreveu:

Dr. Albez h uma hora em Santa Cruz com o iate Anita. Stop. 
Descubram verdadeira identidade do dito Dr. Albez que se encontra 
em Sintra. Stop. Espero relatrio amanh de manh muito cedo. 
Stop. Vigilncia sobretudo Primo Calbez e Selvano. !nformem se 
cadver Manolda foi exumado. Stop. Caso contrrio faam com que o 
seu corpo desaparea tirado do tmulo. Stop. Y.

Von Pottlach reflectiu um instante antes de prosseguir:
-        Ponha isso em cifra e transmita-o imediatamente. E se 
se passar alguma coisa de especial, trate de me ir dizer sem se 
preocupar com o meu convidado.
O secretrio inclinou-se. Em passos rpidos, o baro 
dirigiu-se ento para uma sala contgua, onde manteve uma 
conversa telefnica interurbana, a meia voz, saindo dali 
visivelmente bem-humorado. Depois voltou ao escritrio e bateu 
amigavelmente nas costas do Dr. Albez:
-        Tenho boas notcias para si - disse com um riso 
satisfeito -: os primeiros frutos africanos vm j a caminho. 
Voc  um homem com sorte, Albez!
Duas horas mais tarde, um homem bronzeado pelo sol, 
elegantemente vestido, falando portugus com um ligeiro sotaque 
ingls, subiu a bordo do iate Anita, amarrado ao cais, mas 
mantendo as caldeiras sob presso, e pediu para falar ao senhor 
Jos Biancodero.
O oficial que se encontrava de quarto pediu-lhe que o esperasse 
na cabina do comandante e foi chamar o polcia enviado por 
Selvano, que permanecia estendido na ponte ao sol.
Quando Joo Permez - assim se chamava o polcia -, admirado 
e confiante, entrou na cabina do comandante, o estrangeiro 
levantou-se rapidamente e apresentou-se, pronunciando um nome 
comprido e difcil de recordar.
-        Vai ficar surpreendido - disse o desconhecido -, por eu 
ter a ousadia de o vir incomodar. Mas foi
o senhor Biancodero que me enviou. As pesquisas feitas
para encontrar o cnsul Manolda progridem bem.
A minha misso  p-lo ao corrente dos ltimos resultados. 
Podemos falar aqui sem sermos incomodados?
Olhou  sua volta e levantou-se. Permez ergueu-se tambm e 
inclinou-se ligeiramente.
- Podemos ir para a minha cabina - disse. Tenho l com que 
escrever e evitaremos os ouvidos indiscretos... se bem que neste 
barco isso no seja de recear.
-        No devemos provocar a indiscrio -, disse o 
estrangeiro com um somso, ao mesmo tempo que se voltava para o 
polcia. - Confiana  o que os homens menos merecem.

Conversando animadamente, Joo Permez e o estrangeiro 
seguiram pela ponte inundada de sol e desapareceram no corredor 
das cabinas. O oficial de quarto olhou-os com indiferena quando 
eles passaram e sentiu de sbito o desejo de poder um dia trocar 
o seu bon por um ligeiro panam como o que aquele homem usava.
Ao fim de uns dez minutos, o estrangeiro-regressou, 
cumprimentou com um sorriso o oficial que olhava para terra e 
abandonou o iate com ar despreocupado. No cais ainda se voltou, 
pareceu no saber bem que direco tomar e da a pouco 
desapareceu no emaranhado das ruelas que caracteriza a 
generalidade dos portos.
S ao fim de duas horas  que o imediato se admirou de no ver 
Joo Permez sentado ao sol, como habitualmente. No tinham dado 
por ele deixar o iate e era estranho que estivesse fechado na sua 
cabina com aquele calor trrido.
Mais por achar estranho o comportamento de Joo Permez, do 
que por se interessar pelos seus actos, o imediato saiu da ponte 
e dirigiu-se para as cabinas. Bateu  porta de Joo Permez, mas 
no obteve resposta.
O oficial hesitou. Era vedado ao pessoal do iate entrar nas 
cabinas dos convidados, mas ele resolveu empurrar a porta e 
entrar. As cortinas estavam corridas e a cabina encontrava-se 
mergulhada na penumbra.
O oficial recuou, horrorizado. Estendido ao comprido, com o 
rosto contra o solo, Joo Permez enterrara as unhas no tapete. 
Uma grande mancha de sangue alastrara sobre o tecido. Depois viu 
o cabo de um punhal enterrado nas costas de Permez.
O imediato saiu apressadamente e dirigiu-se quase a correr 
para a cabina do comando. Subiu a escada e puxou violentamente o 
sinal de alarme.
O apito estridente soou na atmosfera escaldante. Os sons 
agudos faziam-se ouvir por toda a parte. Passos precipitados 
subiram as escadas. A tripulao reunia-se na ponte.
Alerta! Alerta!
A sereia tocava, rasgando o ar pesado de calor.
Alerta no iate Anita...
O baro Von Pottlach acompanhou o Dr. Albez at ao porto de 
ferro forjado do seu palcio branco e apertou-lhe a mo com 
grande cordialidade. Os seus olhos brilhavam:
-        Volte em breve - disse com uma voz repassada de 
afectuosidade e de aparente sinceridade. - Quando encontrar o 
cnsul Manolda em frica, diga-lhe que s lhe perdoo a partida 
que nos pregou quando vier beber uma garrafa de vinho das 
Canrias comigo. E lembre-se, doutor Albez: deve tentar 
conquistar o mercado marroquino da praa de Dacar, no apenas o 
de Marrquexe! No se esqueceu da lista das minhas relaSes 
comerciais?
-        No e agradeo-lha de todo o meu corao. Partirei hoje 
mesmo. Estou satisfeito por nos termos entendido to bem. Para 
lhe dizer a verdade, ao princpio estava um bocado desconfiado 
consigo.
-        No me diga...
-        Reconhea que sou franco. - Albez desceu os degraus e, 
ao aproximar-se do txi que o esperava, ainda se voltou para 
dizer: - Se o cnsul Manolda estiver em Dacar, ser fcil 
descobri-lo. As suas indicaSes so do maior interesse para mim. 
Se tiver a certeza de que isso no lhe desagrada, voltarei a 
passar por aqui na minha viagem de regresso.

-        Dar-me- com isso o maior dos prazeres! exclamou o 
baro, inclinando-se com o monculo a faiscar ao sol. - A minha 
casa est sempre  sua inteira disposio. Boa viagem e os 
maiores xitos!...
O txi ps-se em andamento lentamente e dirigiu-se para a 
sada do parque, entrando pouco depois na grande estrada ladeada 
de palmeiras que vai ter a Santa Cruz.
O baro ficou durante bastante tempo de p nas escadas do 
seu palcio a seguir com o olhar o carro que se afastava. 
Esfregava ligeiramente as mos.
Quando o txi desapareceu ao longe, entre as palmeiras, 
Pottlach sorriu e tirou o monculo. O seu rosto tomou uma 
expresso estranhamente dura.
O sorriso imobilizou-se nos seus lbios.
Era o sorriso de um jogador que preparava a sua ltima 
cartada.

7

Uma potente limusina rodava a toda a velocidade pela estrada 
marginal que ia ter s Azenhas do Mar.
O comissrio Selvano ia ao volante. Mordia nervosamente o 
lbio inferior e repetia a si prprio, pela centsima vez, que 
no era um criminalista mas um perfeito idiota! Tinha no bolso o 
ltimo telegrama de Santa Cruz e a mensagem de fonte policial 
expedida pelo posto rdio de Dacar.
Com um ranger de pneus, o carro foi parar junto  vivenda do 
Dr. Albez, que se erguia por entre os rochedos. De imediato, 
Selvano saiu do carro, de um salto, quase chocando com Primo 
Calbez, que o aguardava.
-        Ento, ento - disse cordialmente Calbez -; vejo bem 
que est satisfeito, mas no precisa de me saltar ao pescoo!
-        Satisfeito? - Selvano respirou fundo. - Eu vim mas  
dizer-lhe que voc, Calbez, e eu prprio, somos os maiores burros 
que conheo. Isto basta-lhe?
-        Com certeza que sim! - replicou secamente Calbez - E se 
ignoro ainda porque razo chegou a essa concluso sbita, no 
deixo no entanto de estar convencido que talvez seja prefervel 
entrarmos em casa para ali examinarmos a caa grossa que apanhei.
-        Os seus espiSes prisioneiros no me interessam absolutamente 
nada! Veja! - Selvano agitava o telegrama no ar. - Veja, Calbez. 
Pode ler o texto do telegrama, que far a sua fortuna.
-        O qu?
-         verdade! Sabe para onde foi o corpo do pobre 
acidentado?
-        O cadver do pretenso Manolda?
-        Sim!
-        Para a vala comum, claro. Eu assisti ao enterro. Foi 
uma cerimnia aflitiva na presena da polcia, de trs mdicos 
que disputavam entre si a honra de levarem o corpo para as suas 
salas de anatomia e que ficaram de luto pela sua iluso...
-        O seu humor macabro no tardar a desaparecer!
- gritou Selvano, subindo o ngreme atalho que conduzia  moradia 
branca. - O cadver desapareceu!
Primo Calbez deteve-se como que fulminado.

-        Desapareceu? Como? - perguntou tolamente.
-        Sim, desapareceu - repetiu Selvano, imitando-o.
- Volatilizou-se, por assim dizer.
-        Roubaram um corpo carbonizado?
-        Exactamente! O tmulo foi aberto durante a noite e o 
morto desapareceu! E sabe porqu? Porque eu queria desenterr-lo 
hoje mesmo, porque pensei que esse morto era de facto Manolda, 
porque eu sabia que estava agora a seguir uma pista segura... 
porque... mas o morto desapareceu! As nossas intenSes so 
conhecidas, sabem exactamente como decorrem as nossas 
investigaSes e... Calbez, agora que o corpo foi roubado, eu sei 
que esse morto era o cnsul Manolda e que voc, Calbez, tinha 
razo. O cnsul Manolda era membro, ou talvez mesmo chefe 
supremo, de um bando internacional de contrabando de droga!
Os olhos de Calbez animaram-se, os seus passos tornaram-se 
mais rpidos.
-        No vai acreditar se eu lhe disser o que arranquei aos 
tipos que estavam aqui a vigiar-me pensando que eu era Jos 
Biancodero.  exactamente aquilo que lhe falta para ter a prova 
completa que procurvamos!
Mas Selvano no parecia ainda interessar-se pelas acSes de 
Primo Calbez. Parou, ofegante, no caminho pedregoso e 
estendeu-lhe o ltimo telegrama recebido de Santa Cruz:
-        Veja! Leia! Joo Permez morreu!
-        Permez? No estava a acompanhar Biancodero?
-        Foi ontem assassinado no iate Anita. Foi apunhalado nas 
costas! O assassino, um homem desconhecido, alto, bronzeado e 
elegantemente vestido, com forte sotaque ingls, depois de se 
apresentar no navio, foi conduzido at junto de Permez por um 
oficial de bordo. O crime ocorreu quando Biancodero tratava de 
negcios com o baro Von Pottlach na plantao deste ltimo.
Calbez deu um salto.
-        Chefe! - gritou. -  preciso deter imediatamente o 
baro.
Selvano sorriu. Agitava no ar o telegrama enviado de Dacar.
-        Isso j foi feito! Esse homem procurava refgio em 
Dacar, para onde Biancodero se dirigia tambm. Sem dvida, tinha 
a inteno de suprimir, rapidamente e sem inconvenientes, na 
escurido do bairro das docas, o seu associado de negcios. 
Pottlach foi detido no instante em que entrava a bordo. 
Biancodero vem a caminho de Lisboa. A cadeia dos acontecimentos 
parece-me fcil de entender. Primeiro Manolda, depois Permez e, 
finalmente, Biancodero devia tambm ser abatido... e Von Pottlach 
teria nas mos o maior negcio de fruta do Ocidente e do Sul da 
Europa!
Tinham chegado  frontaria da casa e, depois de entrarem, 
atravessaram o vasto vestbulo e encaminharam-se para a esquerda, 
para o escritrio, onde Selvano se sentou num fundo cadeiro 
colocado mesmo em frente da janela aberta para o mar.

-        Tenho uma surpresa para si, Selvano - anunciou Calbez, aps 
uns momentos de silncio. - Consegui apanhar sete dos meus 
vigilantes (com efeito todo o bando, como vim a saber) e 
prend-los aqui, neste ermo. Depois de demorados interrogatrios 
elaborei o depoimento verbal que aqui tenho. Est assinado por 
todos os elementos do bando. Pode ler o documento e ficar a saber 
que a "vigilncia" foi ordenada por um mandatrio de Santa cruz.
-        Por Pottlach? - perguntou Selvano.
-        Sim. Estavam em contacto com ele por meio de telegramas 
cifrados e recebiam de Santa Cruz as necessrias instruSes. 
Demonstra-se assim que Pottlach se interessava por Biancodero 
muito para alm dos proveitos de ordem comercial que ele lhe 
podia oferecer. Dois dos esbirros vieram directamente de Las 
Palmas para Lisboa e confessaram que tinham ajudado a descaroar 
as mas. Esse trabalho foi feito numa fbrica do baro Pottlach.
-         fantstico!
-        No que diz respeito ao significado da "vigilncia", no 
cheguei a perceber por que razo eles tinham de espiar Biancodero 
e tudo o que se passava na casa. De resto, isso no  importante! 
O que conta  o telegrama que Pottlach enviou ontem aos tipos e 
no qual se diz que o cadver de Manolda devia ser desenterrado!
-        Calbez! - exclamou Selvano levantando-se de um salto. - 
Voc  um gnio! Era o ltimo elo que faltava na nossa cadeia: a 
confirmao de que o morto era de facto Manolda! E voc teve essa 
confirmao com o telegrama de Pottlach! As ligaSes so 
evidentes! Podemos atacar!
-        No  necessrio! - disse Calbez, sorrindo. - Pottlach 
j est preso, Biancodero est inocente, os sete esbirros 
vigilantes jogam ao chinquilho na cave com garrafas vazias e os 
armazns de Las Palmas e de Tenerife encontram-se sob vigilncia 
policial. J tratei disso porque no consegui falar consigo 
durante as ltimas doze horas. O que nos falta ainda  a resposta 
final que decifrar o enigma: por que razo se teria suicidado 
Anita Almiranda depois de ter tentado matar o tio com um 
candelabro? Considero inadmissvel que ela estivesse ao corrente 
do contrabando dos estupefacientes, pois nesse caso Biancodero 
teria sabido por ela o que se passava e as consequncias seriam 
radicais! H um vazio no desenrolar destes cinco anos.
-        Essa questo no est em causa de momento.
Selvano levantou o auscultador do telefone:
-        Vou ligar para o chefe e anunciar-lhe que voc 
descobriu a mais importante rede da droga na Europa! Felicito-o 
desde j pela sua promoo ao posto de comissrio, que lhe est 
garantido. O mais surpreendido vai ser certamente o bom 
Biancodero, quando vir que no passou de um joguete nas mos dos 
outros todos. Faz-me pena, esse pobre diabo, que no considera a 
existncia sob um aspecto verdadeiramente real. E nem h-de 
acreditar quando lhe dissermos quem era de facto o seu amigo 
Manolda! Voc recuperou tambm o cadver, Calbez?
-        Sim. Encontra-se metido num saco numa caverna rochosa 
muito perto daqui. Quiseram certamente deit-lo ao mar, pois 
dentro do saco esto tambm uns duzentos quilos de pedras.

A essa mesma hora, o iate Anita avanava a todo o vapor no 
Atlntico, rumo a Lisboa. O Dr. Albez, sentado na sua pequena 
cabina, empurrara o panam para a nuca e abanava a cabea uma vez 
mais.

-        O mundo tornou-se completamente louco - dizia, enquanto 
remexia numa folha de papel que se encontrava sobre a secretria 
polida.
Depois levantou-se e ligou o telefone interno para a ponte.
-        Comandante, peo-lhe que siga a toda a velocidade. Preciso 
de estar ainda esta noite nas Azenhas do Mar...
Depois o Dr. Albez afastou-se lentamente do telefone e foi 
sentar-se junto do crculo luminoso que rodeava o candeeiro 
colocado sobre a secretria. Tinha ainda na mo a mesma folha de 
papel.
Era um telegrama proveniente de Amesterdo.
Enviado quatro horas antes.
De Amesterdo.
Um telegrama do cnsul Manolda.
Um calor acabrunhante pesava sobre Dacar. O clima desse 
porto martimo tinha m reputao e, outrora, uma nomeao para 
prestar servio ali, no Exrcito francs, equivalia a um castigo. 
A temperatura, nesse dia 29 de Outubro de 1929, ultrapassava 
mesmo as previsSes mais pessimistas dos soldados que se 
encontravam no cais, de guarda, por causa de um homem de negcios 
alemo que por ali passara havia pouco tempo acompanhado por um 
inspector da polcia.
-        Merda! - dizia um dos soldados, limpando a testa. - 
Estamos aqui a derreter ao sol por causa de um velhaco qualquer. 
Que fez ele?
Um outro soldado encolheu os ombros.
-        Que queres que seja? Trfico de pio. Como se isso 
fosse um crime! Que existncia seria a nossa aqui sem uma pequena 
cachimbada  noitinha dessa massa castanha? Ou ento sem o p de 
coca? Que importncia tem que vivamos dez anos menos? A vida  
uma grande porcaria!
O primeiro que falara lanou um olhar de soslaio ao seu 
camarada. Aquela filosofia...  beira do deserto no havia outro 
assunto para conversar. Ele sabia isso desde que estivera na 
Legio. Mas no respondeu e voltou-se, encolhendo os ombros, para 
observar o belo barco branco.
A bordo dessa embarcao, fechado  chave num camarote, 
encontrava-se o baro Von Pottlach a brincar com os seus prprios 
dedos. Perdera o monculo, mas o seu fato branco e toda a sua 
atitude denotavam o porte aristocrtico. Quando se levantou e 
comeou a andar de um lado para o outro no camarote, dava a 
impresso de ser um viajante da classe de luxo e no tinha nada o 
aspecto de um prisioneiro prestes a ser entregue  justia, que 
decerto o iria condenar a muitos anos de priso maior.
Mergulhado nos seus pensamentos, o baro deteve-se 
subitamente e olhou para a secretria que ali se encontrava. Era 
uma mesa dobrvel e podia encostar-se  parede. Tinham colocado 
sobre ela uma caneta, um tinteiro e papel branco. Um pouco mais 
adiante, junto de uma pequena lamparina de lcool, via-se lacre e 
um sinete.
O baro foi forado a sorrir. "Pensam em tudo", murmurou. "E 
ficam com a confisso do criminoso redigida numa cabina de luxo 
do paquete Liberdade!" Riu ruidosamente e sentou-se  mesa, 
amarrotou ligeiramente o papel e remexeu na caneta. Depois 
comeou a escrever, com uma caligrafia elegante, a meio da folha:
"A minha confisso."

Quando estas palavras ficaram traadas no papel, o baro 
parou, como que petrificado, e ficou a olhar para elas, segurando 
o papel a uma certa distncia, com o brao estendido.
-        A minha confisso? Que tenho eu a confessar? A minha 
confisso no ser ao mesmo tempo a minha acusao? Que sabem a 
meu respeito em Lisboa? Sobre a minha amizade com Manolda? Ele 
morreu e no pode depor. Sobre os meus negcios de 
estupefacientes? Ser difcil provar a minha culpabilidade. Sobre 
a vigilncia que mandei fazer nas Azenhas do Mar? Para isso 
poderei dar-lhes tambm uma explicao. Sobre o assassnio de 
Joo Permez? - Aqui o baro interrompeu-se e fitou novamente a 
palavra "confisso".
-        Quem pode provar que fui eu quem deu a ordem?
Quem poder reconhecer o assassino? Ele encontra-se j em 
Tombuctu, nos confins de frica, na filial que envia para todo o 
Oriente a dagga, estupefaciente ainda pouco conhecido, mas 
temvel. Sabero alguma coisa a esse respeito? Ter, porventura, 
Albez conhecimento de que  em Tombuctu que se prepara a dagga?
O baro hesitava e mais uma vez comeou a brincar com a 
caneta, ao mesmo tempo que mordia o lbio inferior. Devia 
transformar tudo aquilo numa verdadeira bagatela. Devia 
apresentar-se como vtima  qual se arrancam confissSes, ou como 
um ser sem vontade prpria. Mas o "culpado modelo" no devia 
falar. No entanto, reconhecia que esse seria um papel fantstico 
para o cnsul Manolda...
O baro Von Pottlach riu. "Ainda bem", pensou, "que, aps a 
partida de Albez, avisei imediatamente a nossa central da Europa 
Ocidental, em Amesterdo, e os incumbi de remeterem de l, em 
nome do cnsul Manolda, um telegrama para o Dr. Albez. Em Lisboa 
ficaro assim com a impresso de terem seguido uma falsa pista, 
que o cnsul Manolda ainda  vivo e que me prenderam 
injustamente. Podero ento atirar tudo para cima das costas do 
'homem que est longe' e conclurem mesmo pela sua condenao."
Von Pottlach pegou na folha em que estava escrito "A minha 
confisso" e aproximou-a da chama da lamparina de lcool, que 
acendera. Ficou a ver com uma expresso satisfeita a folha branca 
torcer-se pelo efeito do calor, ficar castanha e depois arder, 
transformando-se em cinzas.
No mesmo instante bateram  porta e entraram trs 
inspectores.
-        Senhor - comeou por dizer um deles -, devo inform-lo 
de que o corpo do homem queimado dentro de um carro, em Lisboa, 
foi identificado como sendo o do cnsul Manolda.
-        No! - O baro empalideceu e sentou-se na cama. As mos 
tremiam-lhe. " mentira!", dizia-lhe uma voz interior. "No te 
deixes manobrar. Querem levar-te a confessar!"
-        Infelizmente, sim - respondeu o inspector. Infelizmente 
para si. O cadver havia sido desenterrado, metido num saco e 
escondido numa gruta perto da casa de Biancodero.
O baro abanou a cabea. Tinha os olhos sados das rbitas. 
Subitamente, comeou a transpirar abundantemente e compreendeu 
que esse suor se devia a um ignbil receio pela aco da justia.

-        No sei de nada... - murmurou, ofegante. - Vi pela 
ltima vez Manolda...
O inspector f-lo calar-se com um gesto.
-        Canta-nos sempre a mesma cantiga - disse rudemente. - 
Isto j est a tornar-se maador. Diga-nos outra coisa. Diga a 
verdade, para variar!
-        Mas  a verdade! - gritou Von Pottlach com uma voz 
subitamente aguda, levantando-se. O verniz da sua educao e 
posio social estalara bruscamente. Eu digo-lhes a verdade, mas 
vocs precisam de uma vtima! Uma vtima que possam sacrificar  
vossa estpida sede de justia! Procurem o culpado e deixem-me em 
paz! No direi nem mais uma palavra!
Com estas palavras voltou as costas aos inspectores e ficou 
a fazer girar a sua caneta entre os dedos. Encolhendo os ombros, 
os inspectores saram do camarote e fecharam a porta  chave, por 
fora, de forma bem audvel.
Que hei-de fazer?", pensou Pottlach quando eles saram. " Se 
 verdade que encontraram o corpo estou perdido." De sbito, 
reflectiu na sua situao com uma lgica impiedosa, perguntando a 
si prprio por que razo o teriam detido. Chegou  concluso de 
que tal se devia ao facto de os "vigilantes" da vivenda do Dr. 
Albez terem sido descobertos por Selvano ou Primo Calbez e 
acabado por denunciarem o "patro". Nesse caso eles estavam nas 
mos da polcia e o cadver calcinado tambm, j que, umas horas 
antes, esses mesmos homens o tinham desenterrado.
Subitamente, Von Pottlach compreendeu que os agentes no o 
enganavam, que o corpo fora recuperado e que ele no podia 
continuar a fingir-se inocente!
O baro Von Pottlach ergueu-se e foi colocar-se diante do 
grande espelho que cobria a parte de dentro de uma das portas do 
roupeiro incrustado na parede da cabina. Contemplou com 
satisfao a alta estatura e o rosto anguloso.
Inclinou-se diante da sua prpria imagem e depois dirigiu-se 
para a cama e tirou os lenis. Fez com eles uma corda slida que 
amarrou ao tecto servindo-se do gancho do candeeiro. Em seguida, 
subiu a uma cadeira, ps a outra extremidade da corda em volta do 
pescoo e fez um n corredio. De sbito, teve uma ideia, desceu, 
tirou a gravata e o colarinho e voltou a subir. A olhou de novo 
para o espelho. Via apenas as pernas e os ps em cima da cadeira. 
Soltou uma gargalhada:
-        Sim, sim. Ns, os Pottlach, temos por hbito subir o 
mais alto possvel! - disse com voz trocista. Depois empurrou 
energicamente com um p a cadeira em que se apoiava.

Durante toda a viagem de regresso a Lisboa, por mar, o Dr. 
Albez perguntou a si prprio se devia falar a Selvano do 
telegrama enviado por Manolda. Chegou por fim  concluso de que 
era prefervel nada dizer e ir informar-se pessoalmente em 
Amesterdo sobre o que se passava com o cnsul.
Parecia altamente improvvel a Albez que Manolda pudesse ter 
ido to rapidamente de Dacar para Amesterdo, mas, por outro 
lado, o baro Von Pottlach fora detido em Dacar por se ter 
provado a inexactido das suas declaraSes. Alm disso, o 
telegrama de Manolda era de tal modo breve e preciso que se podia 
pensar que o cnsul, apanhado de surpresa num negcio importante, 
o tivera de concluir rapidamente.
O telegrama estava assim redigido:

Venha imediatamente a Amesterdo. Stop. Importante comunicao a 
fazer-lhe. Stop. Tome cuidado com a concorrncia. Stop. 
Encontro-me no Hotel Continental. Stop. Espero-o para a prxima 
semana. Stop. Manolda.

O Dr. Albez levantou-se da sua cadeira e comeou a andar de 
um lado para o outro, profundamente imerso nos seus pensamentos.
-        Que hei-de fazer? - disse a meia voz, enquanto os seus 
dedos brincavam com o fecho da janela. - Se vou a Amesterdo e 
caio numa armadilha no terei qualquer proteco oficial. Por 
outro lado, se ponho Selvano ao corrente do que se passa e ele me 
oferece a ajuda da Polcia Judiciria, pode dar-se o caso que 
alguma conversa de carcter secreto perca todo o interesse. Alm 
disso, a concorrncia seria alertada!
Bateram  porta. O Dr. Albez voltou-se. Entrou ento na 
cabina um marinheiro que trazia um telegrama.
-        Um telegrama de Lisboa - disse o rapaz, entregando-lhe 
um papel dobrado. Em seguida saiu.
Com grande assombro, o Dr. Albez leu a mensagem de Selvano:

Von Pottlach suicidou-se. Stop. No deixou qualquer confisso. 
Stop. No entre no porto de Lisboa antes da noite. Stop. Selvano.

O baro Pottlach suicidara-se?
O Dr. Albez ficou a olhar o vcuo. Talvez tivesse sido 
levado ao desespero, no visse qualquer sada e acabasse por se 
suicidar...
Voltou ento a lembrar-se do professor Destilhano.
Seria que tambm ele no vira outra sada seno a morte antes de 
introduzir na boca o cano da arma?
Que teria Destilhano a esconder? Que poderia levar um 
cientista to famoso ao desespero? Quem o constrangeria a tal 
extremo?
Quais seriam as ligaSes entre Von Pottlach e Destilhano? 
Teria o baro ameaado o professor de que se propunha revelar 
algum dos seus segredos, levando assim o velho a sucumbir sob o 
peso do seu erro?
Mas que erro?
O Dr. Albez passou a mo pelos olhos, depois aproximou-se da 
secretria e tirou uma folha de papel da gaveta.
Ia confrontar as possibilidades e os factos. Desse confronto 
 que surgiria a concluso final daquela cadeia de crimes, de 
suicdios, de acidentes simulados.
E o Dr. Albez escreveu:

"1. Destilhano dirige em segredo o negcio de contrabando de 
certos medicamentos.
2.        Tem um armazm em Las Palmas.
3.        Von Pottlach  uma das suas relaSes nos negcios.
4.        Pottlach habita em Vera Cruz de Tenerife.
5.        Destilhano suicida-se aps uma discusso com Anita.
6.        Anita morre num acidente ao dirigir-se para o porto.
7.        Manolda desaparece.
8.        Von Pottlach ignora tudo. , pouco depois, detido em 
Dacar, aonde se deslocara para me matar (segundo diz Selvano).

9.        Manolda volta a aparecer em Amesterdo.
10.        No porto, um desconhecido sucumbe a um acidente mortal 
com um carro de matrcula estrangeira falsa. Selvano pensa que se 
trata de Manolda.
11.        O cadver desse desconhecido  roubado do tmulo por 
ordem de Von Pottlach."

Albez olhou fixamente para as linhas que acabara de escrever e 
apoiou a cabea nas mos.
" uma relao sem o mnimo significado", pensou para 
consigo. "No apresenta sequncia nem concordncia nem suspeitas 
nem quaisquer provas de que existe uma cadeia de factos 
coerentes."
E no entanto... O nome de Von Pottlach surge com montona 
insistncia. E o de Manolda tambm, mas apenas aqui e ali, como 
um fogo-ftuo. Quer ali, quer aqui, aparece sempre ligado a um 
personagem do drama!
Manolda!
O Dr. Albez fez um pequeno gesto com a cabea. Manolda devia 
conhecer as relaSes secretas existentes entre aqueles factos. S 
ele! Onde quer que aparecessem Destilhano e Von Pottlach, assoma 
igualmente a sombra de Manolda: era ele quem pressagiava os 
desejos e os actos deles.
S Manolda devia saber porque razo Destilhano, Anita e Von 
Pottlach deviam morrer!
De sbito, Albez sentiu-se tambm em perigo, pois era o 
nico herdeiro de Destilhano. Segundo uma ordem implacvel e 
lgica, seria ele o prximo homem a abater, isto se de facto esse 
morto calcinado e irreconhecvel, que se encontrava na morgue da 
polcia, fosse o prprio Manolda.
Mas quem teria ento enviado o telegrama de Amesterdo?
Albez olhava fixamente a folha de papel coberta com a sua 
caligrafia e compreendeu imediatamente que acabaria por 
despenhar-se num abismo se no se desse ao trabalho de dissecar o 
caso.
Com passos rpidos dirigiu-se para o telefone e levantou o 
auscultador.
- Cabina do rdio - pediu com uma voz que a
emoo fazia tremer. Esperou uns momentos at que
o operador do rdio falasse e explicou ento: - Escreva
o que lhe vou ditar e envie imediatamente este telegrama para o 
cnsul Manolda, Haia, Holanda - Parkstrasse. Tomou nota?  este o 
texto:

Telegrafe imediatamente se o encontro for realmente importante. 
Stop. Impossvel partir antes de meados da prxima semana. Stop. 
A reunio no poderia ter lugar em Lisboa? Stop. Responda para o 
iate Anita no comprimento de ondas habitual. Stop. Biacon dero.

- Tomou nota de tudo, Riez? Muito bem! Envie imediatamente 
este texto, mesmo sem ser cifrado. Se receber uma resposta 
rpida, transmita-a para aqui, para a cabina cinco. Obrigado.
Desligou e comeou a andar de um lado para o outro com 
passadas largas.

Desempenharia Manolda um papel duplo? E se isso fosse 
verdade... que teria a pequena, a inocente e alegre Anita, a ver 
com tudo aquilo? O seu acidente no teria sido antes um suicdio? 
Ou at mesmo um crime?
Albez sentiu subitamente frio nas costas. Sabia que se 
Manolda tivesse tido algo a ver com a morte de Anita, ele, o 
pachorrento Dr. Albez, se tornaria impiedoso e no teria 
quaisquer escrpulos ou remorsos em matar Manolda! A justia 
humana poderia depois fazer o que quisesse.-.. Com Anita, 
desaparecera a sua existncia de homem sensvel, de apreciador da 
vida... Importava-lhe pouco o que pudessem fazer ao invlucro do 
seu ser...
Sentou-se no seu gabinete e observou em silncio a 
fotografia de Anita, colocada sobre um pequeno pedestal de 
mrmore em cima da secretria. Os seus maliciosos olhos negros 
riam, a boca, de lbios vermelhos, permanecia entreaberta e os 
cabelos negros e encaracolados emolduravam o seu rosto, dando-lhe 
uma graa selvagem.
Albez voltou-se e tapou o rosto com a mo.
Depois bateram  porta.
Sobressaltou-se. A noite invadira a cabina. Foi acender a 
luz e abrir a porta. O operador do rdio, Riez, encontrava-se ali 
com uma mensagem na mo.
- A resposta de Haia - disse.
- J?
- Acabo de a receber. - Cumprimentou e afastou-se        pelo 
corredor na direco da cabina onde trabalhava. Albez colocou-se 
debaixo da luz do candeeiro e leu:

O cnsul Manolda no se encontra em Haia h seis semanas. Stop. 
Ignora-se local da sua residncia. Stop. Por esse facto 
impossvel transmitir notcias. Stop. Se tivermos notcias 
transmiti-las-emos imediatamente. Stop. Van Bercken.

Durante um grande bocado, o Dr. Albez ficou a olhar aquela 
folha branca cheia de um significado de fatalidade.
Van Bercken. O secretrio. Manolda partira seis semanas 
antes com destino desconhecido.
Teria sido uma fuga?
Ou o desaparecimento no anonimato?
O que estaria em jogo?
Albez decidiu que se ausentaria para Amesterdo logo aps a 
sua chegada a Lisboa.
Sentia que se encaminhava para a grande aventura. E mais, 
decidiu arriscar-se a fazer essa viagem sem prevenir o comissrio 
Selvano.

O comissrio Antnio de Selvano, sentado em frente de Primo 
Calbez, abanava uma vez mais a cabea.
- Est a ver isto? - perguntou, estendendo-lhe uma folha de 
papel por cima da mesa. - Aqui est o que Biacondero recebeu de 
Haia h menos de uma hora!
Primo Calbez leu e ergueu os olhos, cheios de assombro.
- Um telegrama de Manolda! Meu Deus, estar ento errada a nossa 
teoria? Poderia o morto ser outra pessoa? Talvez apenas um 
simples agente daquele clube de larpios...
Selvano encolheu os ombros. Releu o relatrio sobre
o cadver carbonizado arquivado no dossier daquele assunto.

- As teorias podem sempre ser postas em causa pelos factos, 
mas neste caso s acredito nas minhas deduSes pessoais. No me 
desviarei um passo das minhas apreciaSes precedentes. Uma coisa 
 certa: Biancodero no partir para Amesterdo, mas sim voc, 
Calbez!
- Eu?
- Sim, voc com o nome de Biancodero. Precisamos de 
descobrir esses tipos para termos sossego no Comissariado. Os 
meios pouco importam. O fim a atingir  que interessa!
Primo Calbez recostou-se para trs na cadeira e esfregou as 
mos.
- Gostava de ver a cara dos nossos colegas de Amesterdo 
quando souberem que um homem da brigada de Lisboa atravessa a 
Europa para ir deitar a mo a um dito cnsul! Tenho a certeza de 
que isso no lhes agradar, mas eu, j que estarei no local, 
tentarei saber alguma coisa sobre esse caso do Van Brouken. Quem 
se ocupou do assunto?
- Creio que foi o comissrio-chefe Trambaeren e um tal 
Ferdinand Brox... que no se parece nada consigo, Calbez. Ele 
demonstra inteligncia e voc s sabe mostrar impertinncia.
- Obrigado, chefe - Calbez sorriu. - Nem todos podem ter a 
cabea de um comissrio-chefe. Quando partirei?
Selvano olhou para trs, para o grande quadro onde se 
encontravam assinaladas as ligaSes intereuropeias por 
caminho-de-ferro e por mar.
-        O melhor seria voc partir no expresso de Madrid, s vinte e 
trs horas. Assim poderia estar amanh  noite em Amesterdo.
Calbez levantou-se e agarrou na sua pasta.
- E Biancodero?
- Irei receb-lo pessoalmente  sua chegada ao porto. Se a 
sua estada em Amesterdo for desprovida de interesse, Biancodero 
tambm deixar de me interessar.
Calbez respondeu com um gesto e saiu do gabinete. L fora, 
no corredor, assobiou baixinho e acendeu um cigarro: "Creio que 
ele se engana a respeito do carcter do nosso homem!", disse em 
voz baixa. "No devamos perd-lo de vista nunca! "
Um colega especialista em casos de chantagem foi ao encontro 
de Calbez e deu-lhe uma palmada num ombro:
- Como ests, meu velho. Novamente a caminho? Para onde 
vais, desta vez?
- A casa da minha sogra - respondeu alegremente Calbez. - 
Ela est zangada comigo; a minha mulher teve gmeos!

A viagem de Primo Calbez a Amesterdo constituiu um malogro 
total. O cnsul Manolda no se encontrava registado em qualquer 
hotel. Em Haia, o criado e o secretrio sabiam apenas que o 
cnsul partira seis semanas antes com destino desconhecido. Uma 
busca passada a casa dele tivera resultado negativo. Por outro 
lado, o que Ferdinand Brox e Trambaeren contaram, acerca do caso 
Pieter van Brouken e do inexplicvel suicdio do insignificante 
funcionrio da Caixa Econmica, estava de tal maneira documentado 
que no deixava dvidas que nada tinha a ver com a pessoa de 
Biancodero. Quaisquer relacionamentos pareciam to absurdos que 
Primo Calbez, desencorajado e um pouco envergonhado, bateu em 
retirada para Lisboa.

Selvano decidiu-se por fim a mandar enterrar de novo o 
cadver desconhecido e encerrou o dossier, que ficava a fazer 
parte do nmero dos casos misteriosos da histria da 
criminalidade: trs mortos conhecidos e um desconhecido; um 
sem-nmero de motivos; indcios em nmero esmagador; "deduSes" 
perfeitamente claras. Mas a falta de qualquer prova concreta que 
trouxesse luz  obscuridade das suposiSes e, sobretudo, o 
ilgico na sequncia dos factos apurados levavam a que este caso 
no tivesse realmente qualquer significado preciso.
E depois a personalidade desse Biancodero!
Tal personalidade permanecia inatingvel, fossem quais 
fossem as circunstncias. De facto, ao ignorar tudo o que se 
passava  sua volta, ao colaborar - embora, sem o saber- na 
realizao das mais ignbeis tarefas e ao colocar-se numa 
situao em que perigava a sua prpria vida, jamais a sua 
tranquilidade pareceu afectada. De qualquer forma, ele surgia 
acima de qualquer suspeita, embora permanecendo sempre no centro 
dos acontecimentos.
Era o que punha Selvano fora de si! Uma poro de factos que 
chegariam para qualquer procurador da Repblica encontrar um 
acusado, sem no entanto haver um motivo tangvel para levantar a 
mais pequena acusao contra um dos suspeitos.
Jos Biancodero instalara-se novamente no seu ninho de 
guias no alto dos rochedos, perto das Azenhas do Mar, e 
continuava como sempre a contemplar o pr do Sol  espera do dia 
em que "se libertaria daquela vida", como certa vez declarara a 
Selvano. E recomeara a chorar uma linda rapariga que, segundo os 
dossiers da polcia, tivera em tudo aquilo um papel obscuro e 
mais que misterioso. A morte dela continuava a ser para Selvano o 
maior ponto de interrogao daquele caso. As suas suposiSes, 
segundo as quais ela devia ter descoberto a vida dupla do tio e 
correra por isso para a morte, tocavam sem dvida o fundo da 
questo, sem que, contudo, algo se pudesse minimamente provar.
Selvano decidiu ento fechar aquele dossier que representava para 
ele o maior falhano da sua carreira e que quase o lanara para a 
reforma. Mas o comandante da Polcia, com quem ele fora falar e 
apresentar o seu pedido de demisso, fizera-lhe ver que no devia 
proceder assim e incitara-o a permanecer no seu posto. Desse 
modo, Selvano continuou a trabalhar, sempre severo e de ar 
sombrio, pesasse embora a apreciada companhia de Calbez. Passou, 
contudo, a ser, isso sim, um verdadeiro terror para os pequenos 
traficantes de cocana.
Tinha apenas uma satisfao: depois da morte do baro Von 
Pottlach e do desaparecimento de Manolda, reinava a maior calma 
no servio encarregado da represso do trfico de 
estupefacientes. Selvano atribua isso ao facto de ter aumentado 
a vigilncia e endurecido os seus processos repressivos, isto 
talvez para tranquilizar a sua conscincia.

Entretanto, Primo Calbez farejava todos os recantos das 
capitais do Sul e do Ocidente europeus para tentar descobrir os 
rastos de uma rede de contrabando, baseando-se na lista 
encontrada no escritrio do baro Von Pottlach e que envolvia o 
rol de clientes que Manolda dera a Biancodero. Mas para onde quer 
que Calbez se dirigisse, a Londres ou a Madrid, a Bruxelas ou a 
Paris, a Berlim ou a Aix-la-Chapelle, a Vaduz ou a Roma, s 
encontrava por toda a parte firmas de exportao de fruta muito 
consideradas, cuja reputao era to slida que Calbez, cansado e 
desiludido, apresentou finalmente o seu relatrio a Selvano e 
pediu seis semanas de frias.
Quanto a Albez, com ele as coisas passaram-se de maneira 
muito diferente. O falhano de Primo Calbez tornara-o 
singularmente lcido. Como parecia evidente que tinham procurado 
atra-lo a Amesterdo - forjando para tanto um telegrama - com o 
propsito de o neutralizarem logo que l o apanhassem, o Dr. 
Albez conclua, com a maior lgica, que devia haver um grupo 
interessado em captur-lo.
Albez pensou primeiro que quisessem desencadear um ataque  sua 
fortaleza, que se erguia entre os rochedos. Depois afastou a 
ideia, pois o seu adversrio devia contar com a possibilidade de 
a vivenda estar vigiada pela Polcia. Deveriam, portanto, 
apoderar-se dele de outra maneira. Por isso, s saa de casa 
acompanhado por dois criados armados. O maior mistrio residia no 
facto de no saber o que poderiam pretender da sua pessoa. 
Liquidara a sua firma de exportaSes. No entregara as frmulas 
secretas do professor Destilhano respeitantes s drogas de 
emprego ilegal, e, por outro lado, no tinha na sua mo qualquer 
patente de inveno susceptvel de ter interesse.
O Dr. Albez vivia, portanto, no seu ninho de guias, mais 
solitrio do que nunca.

Um ano mais tarde, um potente automvel de tom escuro saa 
do caminho rochoso da vila das Azenhas do Mar e entrava na 
estrada para se dirigir para Lisboa. Encostado, quase colado s 
costas do assento estofado do carro, o Dr. Albez relia a carta 
que recebera umas horas antes do cnsul Manolda, vinda de Haia. 
Era uma missiva curta que no deixava de modo algum transparecer 
o verdadeiro motivo por que fora enviada. Essa carta s tinha, 
segundo a opinio do Dr. Albez, um objectivo: o de o atrair para 
fora da sua residncia.
No decorrer dos meses anteriores, Albez chegara  concluso 
de que era na verdade pouco razovel viver na sua casa isolada, 
longe de qualquer contacto com as pessoas, e que tudo o que lhe 
pudesse vir a suceder resultaria apenas do encadeamento dos 
factos passados. E a isso no poderia fugir. O seu destino estava 
traado h muito... e como tal...
Por essa razo, no pusera Selvano ao corrente da carta 
recebida de Haia, mas dera ordens para preparar tudo para uma 
demorada viagem ao estrangeiro. Levara mesmo o papel que se 
propunha desempenhar to a srio que resolveu enviar um telegrama 
para Haia, endereado ao cnsul Manolda anunciando-lhe a hora 
exacta da sua chegada. Acrescentava que se sentia muito feliz por 
voltar a v-lo aps tanto tempo.
A carta vinha redigida nestes termos:

Meu caro amigo
Isto no pode continuar assim! Depois de ter considerado 
absolutamente necessrio retirar-me para o anonimato para me 
dedicar  preparao de vastos empreendimentos,  agora chegada a 
altura de tirar proveito dos meus esforos.

Tenho muitas coisas a explicar-lhe antes de poder 
apresentar-me em sua casa carregado com os meus sucessos. O 
doutor vai ficar irritado, e com razo, ao conhecer o jogo feito 
por diversos grupos interessados. Mas creia que era necessrio 
tudo isso para salvar de mos estrangeiras a herana do nosso 
amigo Destilliano. No posso dar-lhe essas explicaSes por carta. 
Digo-lhe apenas isto: o tempo de espera e de incerteza no foi 
vivido em vo.
A concorrncia tornou-se to forte nestes ltimos tempos que 
temos de pr a ideia de uma firma exportadora de fruta. Por outro 
lado, devido ao falecimento do nosso amigo Destilhano e ao facto 
de o doutor ter aceitado a sua enorme fortuna como herana, impSe 
deveres a cumprir para com ele que no podemos negligenciar. 
Precisamos de coroar a obra do Ricardo e temos a obrigao de, 
rendendo homenagem ao seu esprito, perpetuar a recordao dele. 
Mais que nunca, a humanidade infeliz tem necessidade da cincia e 
de ns, que a propagamos por entre os povos.
Gostaria que o meu bom amigo viesse a Amesterdo, ao Hotel 
Europa, onde eu lhe exporia um plano que se encontra 
perfeitamente dentro do esprito do nosso Ricardo e que se 
encontra j pronto nos seus mnimos pormenores: a fundao da 
companhia de exportao de produtos farmacuticos Manolda & C.-. 
Espero-o por estes dias em Amesterdo. Atenciosamente, seu 
Manolda.

O Dr. Albez estava completamente certo de que aquela carta 
escondia uma armadilha. Desde o incio no tivera ilusSes, j que 
no acreditava sequer que Manolda vivesse ainda, quanto mais que 
tivesse escrito para esclarecer o mistrio que rodeara o seu 
desaparecimento.
"Agora est tudo em jogo", pensava. "E agora, sobretudo, 
saberemos o que se encontra escondido por detrs dessas mortes 
misteriosas, e por que razo Anita teve de morrer!"
Anita! Ela continuava a ser o centro dos seus pensamentos e 
no se passava um s dia em que ele no se censurasse a si 
prprio por julgar caber-lhe alguma responsabilidade na morte de 
Anita.
O milionrio, cujos milhSes pareciam devor-lo, viajava 
instalado na sua limusina, encostado ao macio assento de cabedal. 
Estava plido e sentia-se esgotado.
O pesado automvel seguia a caminho de Lisboa rolando a 
grande velocidade.
Quando o carro descreveu a curva,  sada do caminho 
rochoso, um homenzinho de aspecto andino saiu de um nicho aberto 
na rocha. Seguiu a viatura com o olhar. Depois retirou uma moto 
do lugar onde a escondera, montou e afastou-se em sentido 
inverso.
O crculo fechara-se  volta do Dr. Albez.
Ele parecia duvidar disso e sorria quando o veculo chegou 
s proximidades de Lisboa.

Na pequena vivenda do cnsul Manolda, em Haia, nesse mesmo 
momento, encontravam-se dois homens sentados diante de um pequeno 
aparelho receptor de ondas curtas. Captavam uma mensagem que lhes 
agradava visivelmente.
-        Ele vem -. disse um dos homens que tinha um tipo meridional 
e uma voz um pouco cantante. - Temos agora de o convencer, ou 
ento de o impedir de nos prejudicar. Sabes quem  o doutor 
Albez?
-        Pieter van Brouken.

- Exacto. Ele vive h mais de sete anos como doutor Albez. 
Se se recusar a aceder s nossas propostas, anestesiamo-lo com 
clorofrmio e trazemo-lo para aqui. Ento. com a ajuda do soro 
nervino, faremos com que ele volte  condio de Pieter van 
Brouken.
O outro aprovou com um gesto, sorrindo.
- Isso acabar com a existncia de um certo doutor Albez e 
permitir-nos- receber uma herana fabulosa, com o testamento 
"dele" em que afirma ir suicidar-se. Nada mal. meu velho!
-  preciso ter ideias - replicou o outro com satisfao -, 
se queremos ser algum na vida.
Depois desmontaram juntos o posto receptor e esconderam as 
peas na cave. por entre carvo e montes de velharias.

Entretanto, o comissrio-chefe Selvano ficara surpreendido 
com a notcia alarmante de que o trfico de estupefacientes na 
Europa Ocidental recrudescera. Tinha-se descoberto grandes 
organizaSes em Aix-la-Chapelle, Paris e Bruxelas. A cocana, a 
marijuana e. sobretudo, um novo, produto lanado no mercado, a 
dagga, vinham de frica em quantidades catastrficas.
O rasto desse comrcio ia dar, como dantes, a Las Palmas. que 
devia ser considerado como o porto central dessa organizao.
Para Selvano tornara-se bem claro que Biancodero e Manolda 
no podiam ser os chefes dessa rede e que, no obstante 
Destilhano ter muito provavelmente vendido, de tempos a tempos, 
uma certa poro de estupefacientes, tambm ele nunca fora o 
fomentador dessa instituio criminosa. O recrudescimento do 
trfico da droga em vasta escala provava, uma vez mais, que 
tinham concentrado a sua ateno num ponto absolutamente falso e 
que o faro de Primo Calbez falhara, dessa vez de forma 
lamentvel.
O comissrio Selvano pensava nisso com uma sensao 
desagradvel. E como ningum recorda de boa vontade os seus 
erros, ele prometeu a si mesmo nunca mais voltar a pensar nesse 
caso.
A 20 de Junho de 1930, a limusina escura parou com um ranger 
de travSes, no cais do porto de Lisboa e o Dr. Albez, coberto por 
um amplo casaco de viagem e carregado de duas grandes malas de 
pele de porco clara, subiu para a ponte de madeira que o levava 
para bordo do Espanha, que, dentro de minutos, partiria para 
Marselha. Por entre a multido que se comprimia por todos os 
lados, Albez no reparou nos outros passageiros que, no meio dos 
caixotes e malas, se dirigiam tambm para o controlo dos 
passaportes. Com o aprumo de um homem respeitado, passou diante 
do controlador e entregou-lhe o seu passaporte. Esperou apenas 
uns segundos.
O polcia cumprimentou-o e deixou-o passar. No mesmo 
instante, Primo Galbez levantava o auscultador da cabina 
telefnica do cais e dizia com uma voz ligeiramente irnica:
-        Meu caro Selvano, a nossa ave rara sobe para bordo do 
Espanha com destino a Marselha. Creio que se dirige a Sevilha 
para seguir para o local donde veio. Que devo fazer?
Do outro lado da linha, Antnio de Selvano recostou-se para 
trs na cadeira e comeou a brincar com o lpis.

-        Voc  um original incurvel - disse. - Sabe que eu no 
quero qualquer espcie de vigilncia. Biancodero vai passear. O 
luto acabou por o acabrunhar. De resto, sou forado a admirar a 
sua persistncia. O melhor  deixar Biancodero partir em paz. 
Ocupe-se antes do crime da Rua Caracala!
Irritado, Primo Calbez pousou o auscultador, subiu para o seu 
carro, lanou um olhar ainda nostlgico ao Espanha. abanou a 
cabea e afastou-se rapidamente. A uma velocidade louca, dada a 
circulao intensa, dirigiu-se ento para o centro de Lisboa.
Enquanto as sereias do navio soltavam os seus gritos 
estridentes, a ponte foi retirada, os pequenos rebocadores 
apitaram e, lentamente, guiado pelas pequenas embarcaSes, o 
grande navio saiu do porto rumo ao Atlntico, que cintilava ao 
sol.
Em cima, no convs dos camarotes de primeira classe, Albez 
olhava para a maravilhosa cidade branca: Lisboa.
L longe, sob os jorros da luz do sol, encontrava-se o Monte 
do Castelo, essa velha fortaleza cujos contornos precisos se 
recortavam no azul luminoso do cu.
O Monte do Castelo! Havia ali uma casa com um grande jardim 
meio selvagem onde outrora se ouvia um rio cristalino...
Albez voltou-se para se encaminhar para o seu camarote. Ali, 
sentou-se na cama, com os cotovelos apoiados nos joelhos, as mos 
sobre os olhos, tentando esquecer, Mantinha ainda a mesma postura 
quando o camaroteiro lhe foi anunciar o jantar. E permaneceu 
assim toda a noite...

Quando o Dr. Albez, que chegara de Marselha de avio, 
desembarcou em Amesterdo e, conforme combinado, se dirigiu para 
o Hotel Europa, o maior da cidade, a chegada do cnsul conde de 
Manolda fora j anunciada. Mas a verdade  que ele ainda no fora 
visto.
Albez ficou com aposentos que davam para a rua, pagou 
antecipadamente a estada de uma semana e pediu que o avisassem 
logo que o cnsul chegasse. Mandou embora, com uma boa gorjeta, o 
paquete, que o ia ajudar a desmanchar as malas e ele prprio se 
encarregou de guardar as suas roupas no roupeiro. Por fim, tirou 
uma fotografia de Anita com uma pesada moldura de ouro e 
colocou-a na secretria da sala contgua ao quarto. Junto dela 
depositou um ramo de orqudeas que comprara no vestbulo do 
hotel. Em seguida, foi tomar um banho quente.
Nesa mesma tarde do dia 29 de Junho de 1930, Albez passou em 
frente do porteiro do hotel, que o cumprimentou, e saiu para um 
sol radioso. Vestia o seu fato leve, de um tecido cinzento, 
cortado segundo a ltima moda, e pusera o seu panam branco 
impecvel.
O seu traje destacava-o por entre a multido que enchia a 
avenida. O Dr. Albez seguiu a direito e, a certa altura, meteu 
por uma rua lateral que ia dar ao Jardim Botnico.
Sob o arvoredo do parque abrandou o passo e comeou a 
avanar despreocupadamente ao longo dos largos e belos grachten. 
Observou os que pescavam nas pequenas pontes reservadas aos peSes 
e reparou na animao que reinava nas lojas magnificamente 
decoradas. Depois continuou o seu passeio, descendo a Nieuwe 
Heerengracht.
Ao fundo dessa avenida, no stio onde esta vai desembocar no 
cais, sentiu subitamente um violento mal-estar e uma impresso de 
vertigem que o fez vacilar um instante. Surpreendido, voltou-se, 
afastou um pouco

o panam para a nuca, a fim de ter a testa livre, e sentiu-a 
coberta por um suor gelado.
- Mas que coisa! - murmurou o Dr. Albez, detendo-se porque 
as pernas trmulas lhe pesavam como chumbo. - Vivi durante anos 
no meio do calor e  aqui que me sinto mal! Estou a envelhecer, 
no h dvida... e, alm disso, os meus nervos... sim... os meus 
nervos...
Tentou ir mais longe, mas os ps pareciam colados ao 
asfalto. Apercebia-se de um zumbido na cabea que o entontecia. 
Parecia ter apanhado uma forte pancada na nuca. Pontos coloridos 
danavam diante do seu olhar, que se turvara. A rua, as casas, os 
cais, os grachten pareciam velados por uma neblina, o ruido da 
circulao tornara-se surdo e estranho.
Mudo de espanto, sem compreender aquele estado de coisas 
invulgar, tentou chegar junto de uma rvore, perto da qual havia 
um banco. Com grande dificuldade conseguiu dar esses passos. 
Depois encostou-se ao enorme tronco, tirou o chapu, limpou o 
suor frio da testa, ao mesmo tempo que tinha a sensao de que o 
colarinho da camisa de seda o estrangulava. Com mos trmulas, 
quis alargar um pouco a gravata. Depois cambaleou, viu ainda 
alguns transeuntes dirigirem-se para si e sentiu, mais que viu, 
que algum o conduzia para o banco e o sentava nele. Viu 
novamente as vibraSes luminosas em frente dos olhos, a avenida 
envolta em nevoeiro girar  sua volta, os rostos dos transeuntes 
transformaram-se em carantonhas horrorosas e os barcos e os cais 
em verdadeiros monstros. Tentou gritar por socorro, para se 
afastar daqueles monstros, quis dar-lhes pontaps, mas no era 
capaz, pois sentia o corpo como se estivesse cheio de chumbo. O 
que sabia  que se enterrava cada vez mais na madeira do banco... 
que se sumia nele... depois julgou ir cair num abismo... sem 
fim... eternamente... abismo esse que o aspirava de forma 
irresistvel... isto at que uma escurido profunda o privou de 
toda a conscincia.
-        Desmaiou - disse um homem encostando o corpo do 
desconhecido, elegantemente trajado, ao encontro do banco para 
no cair para a frente. - Mas na verdade o calor est hoje 
insuportvel...
Ento, a pouco e pouco, as pessoas foram-se dispersando e os 
transeuntes que por ali passaram pouco se interessaram por aquele 
homem adormecido num banco do Jardim Botnico... Estavam 
habituados aver aquele espectculo nos dias quentes e diziam para 
consigo, sorrindo, que o cansao tanto atingia os trabalhadores 
das docas, que ressonavam a dois passos dali, noutro banco, como 
os senhores elegantes.
O Dr. Fernando Albez dormiu to bem que acabou por faltar ao 
encontro com o cnsul Manolda.

As sombras da noite trepavam j para os canais e envolviam o 
arvoredo do Jardim Botnico quando o Dr. Albez por fim despertou. 
Bocejando, esfregou os olhos, olhou para o relgio do Park 
Theater e procurou qualquer coisa em cima do banco.
-        Onde est a minha carteira? - exclamou subitamente, em 
voz alta. - Onde est a minha carteira?
Pessoas que passavam aproximaram-se, rodearam-no.

-        Roubaram-me a carteira! - repetiu o Dr. Albez. Tinha-a posto 
aqui em cima do banco, a meu lado. Senti-me mal-disposto, 
sentei-me neste banco e sem dvida adormeci! Foi ento que ma 
roubaram!
Quis tirar o leno do bolso e meteu l a mo. Mas 
imobilizou-se, como que petrificado, com os olhos franzidos, que 
logo a seguir abriu muito para se examinar de alto a baixo. 
Apalpou, tremendo, a camisa, o fato, os sapatos, reparou no 
sobertudo panam e fitou, atnito, o anel ornado de um grande 
solitrio que trazia num dedo da mo esquerda.
-        Mas o que  isto? - balbuciou. - Que me fizeram mais? - 
Voltou-se, viu os rostos risonhos e surpreendidos que o 
observavam e compreendeu que o tomavam por um larpio. - Creiam, 
meus amigos, roubaram-me! Trazia outras roupas vestidas, este 
anel no me pertence... e este chapu... nunca tive meios para 
comprar um panam. Acreditem, adormeci aqui h cerca de uma hora 
e agora acordei com outras roupas e verifiquei que me roubaram!
Meteu a mo no bolso interior do casaco:
-        Nada, desapareceu o meu passaporte, a minha caderneta e 
at um brinquedo de borracha. Comprei-o h pouco no Vermeeren,  
esquina da rua. Um macaquinho de borracha para o meu filho 
Fietje...
Os transeuntes riam e seguiam o seu caminho, divertidos com a 
perturbao daquele pobre de esprito.
O Dr. Albez apalpou-se novamente e voltou-se. Espantado, viu 
 esquina da Heerengracht um grande armazm novo que no existia 
ali uma hora antes. Depois reparou em modelos de automveis 
diferentes na rua e notou que as mulheres vestiam de uma forma 
diversa da que observara antes de se sentir mal.
Desnorteado, sem saber que dizer e um pouco assustado, 
voltou a sentar-se no banco e fez girar o panam entre os dedos.
"Que dir Antje se eu for para casa assim roubado?", pensou, 
inquieto. "Ela, que  de tal modo econmica que pensa trs vezes 
antes de gastar um s florim? Deixou-se dormir em pleno dia, 
sentado num banco, e consentiu em ser roubado e at despido!"
Albez, abanando a cabea, olhou a direito para o fim da rua. 
As sombras da noite tinham chegado ao seu banco e envolviam a sua 
silhueta vestida de cinzento. O brilhante do anel contilava no 
dedo anelar da sua mo esquerda.
"Que hei-de fazer?", pensava Albez. "Devo ir para casa ou 
ser prefervel ir primeiro  Polcia apresentar queixa? Mas no 
h qualquer prova. Um fato como o que eu trazia  vulgar em 
Amesterdo. Alm disso, para que quereriam um fato to usado? E o 
roubo? No me desapareceu qualquer valor. O brinquedo de 
Fietje...", e sorriu, apesar da sua perturbao.
O mistrio que o envolvia tornava-se enorme e ele no podia 
compreender. Sentia-se pequeno, miservel. No ousava voltar para 
casa, para junto de Antje...
De sbito, teve uma ideia. Levantou-se, foi ao Park Theater 
e pediu ao porteiro autorizao para telefonar. Depois marcou o 
nmero da boa viva do inspector dos correios, sua vizinha, e 
esperou uns instantes at que a voz dela se ouvisse no aparelho.
-        Sim?  da Noorderstraat? Daqui Pieter van Brouken. A 
minha mulher poderia...

Assustado, calou-se. Comeara a ouvir um jorro de injrias e de 
insolncias que lhe tiraram a respirao. Percebeu palavras tais 
como comdia vergonhosa... escndalo... prevenir a polcia... 
malandro... E desligou com mo trmula. Quando se voltou, viu o 
porteiro, que o olhava com um ar assombrado. Fez-lhe uma pergunta 
e o homem no lhe respondeu, continuando a fit-lo em silncio. 
Pieter van Brouken - daqui em diante voltaremos a chamar-lhe 
assim - saiu do Park Theater e decidiu-se a ir para junto de 
Antje antes mesmo de a preparar para a descrio da incrvel 
aventura que lhe sucedera.
Levava o corao pesado e,  medida que se ia aproximando de 
casa, os passos tornavam-se-lhe mais lentos. "Como  que hei-de 
explicar a Antje o que se passou? Ela no se assustar ao ver-me 
chegar com outro fato e com um panam? Pode at desmaiar.  to 
delicada e comove-se to facilmente. O mdico dissera-lhe para 
ter cuidado com a sensibilidade dela. Vou meter a cabea pela 
porta e dizer: Antje, no te assustes... tenho uma grande 
novidade a dar-te... mas no  agradvel... Talvez assim ela no 
chore e no se assuste tanto..."
Diante de sua casa, Pieter van Brouken imobilizou-se. Ergueu 
os olhos e admirou-se de ver outras cortinas nas janelas. 
"Compradas em segredo", pensou. "Economizou do dinheiro da 
casa... esta boa Antje!" E sorriu feliz.
Subiu hesitantemente os dois degraus da entrada e achou-se 
em frente da casa. O nome de Pieter van Brouken estava escrito na 
pequena chapa esmaltada. Ouvia Antje andar dentro de casa... uma 
voz de criana murmurava qualquer coisa, depois um objecto caiu 
no cho. "Foi Fietje que deixou cair qualquer coisa. Antje vai j 
apanh-la, para que Pieter, ao chegar, veja tudo em boa ordem." 
Oh, ele conhecia cada gesto da sua Antje, todos os seus grandes e 
pequenos segredos... dessa pequena Antje muito loura.
Com um dedo um pouco trmulo, carregou no boto da campainha. 
Ouviu o toque estridente dentro de casa. Passos leves 
aproximaram-se, uma chave girou na fechadura, a porta abriu-se.
Pieter von Brouken meteu a cabea pela abertura.
- Antje - disse -, eu...
Ento soou por toda a casa um grito dilacerante, um grito 
como ele nunca ouvira. Antje fitou-o com um olhar vtreo e, logo 
depois, caiu inanimada.
Pieter van Brouken entrou de um salto, pegou na mulher, que 
mal respirava, e estendeu-a sobre o velho sof. Em seguida correu 
para a cozinha, onde um rapaz de uns oito anos o fitou com um 
misto de receio e de assombro. Encheu um copo de gua, agarrou 
num guardanapo e voltou para junto de Antje. Abriu-lhe o vestido 
e colocou-lhe o guardanapo molhado na testa. Depois comeou a 
massajar-lhe o corao que continuava agitado sob a pele macia do 
peito.
Bateram  porta. Van Brouken foi abrir. A gorda viva do 
inspector dos correios estava ali. Olhou-o, ficou uns momentos 
imvel, petrificada, depois soltou um grito e fugiu a correr para 
o seu apartamento. Irritado, Pieter voltou a fechar a porta e 
aproximou-se de Antje, que continuava desmaiada, como morta.

"Tudo isto por causa de um roubo", pensava ele. "De qualquer 
maneira, vou alertar a polcia. Melhor seria ter avisado Antje 
pelo telefone, mas a viva mostrou-se de tal modo grosseira! Como 
a minha Antje  delicada! No pode sofrer qualquer emoo. 
Devamos ter umas frias prolongadas. Uns quinze dias numa praia 
da costa fariam certamente muito bem a Antje."
Entretanto, continuava a massajar o corao da mulher e 
beijava-lhe os lbios gelados, a testa branca, para a qual caam 
em desordem os seus cabelos louros.
L em baixo, na rua, ouviu-se o ranger dos travSes de um 
carro. Passos pesados subiram as escadas e pararam em frente da 
sua porta. Depois a campainha soou.
" o mdico", pensou Pieter. "A viva deve t-lo chamado. 
No  m pessoa, afinal!"
Quando abriu entraram trs homens. Dois invadiram a casa e o 
terceiro fechou a porta e ficou parado, em frente dela.
-        Quem  o senhor? - perguntou um deles com voz de 
comando.
-        Pieter van Brouken! E o senhor?
O homem mostrou-lhe uma chapa metlica.
-        Polcia Judiciria.
Quando levaram Pieter van Brouken, j Antje recuperara os 
sentidos e chorava baixinho, sentada no sof. Fietje estava junto 
dela, atnito, desnorteado, perguntando a si mesmo por que razo 
o pai se iria embora outra vez.
Na rua, no carro do comissrio Trambaeren, Ferdinand Brox 
sentou-se ao lado de Van Brouken e pousou-lhe uma mo num brao:
-        Esteja  vontade - disse suavemente. - Trata-se apenas 
de mera rotina. Vai ficar espantado quando ler o seu dossier, no 
comissariado... E precisar de se lembrar... precisa de se 
lembrar onde esteve metido estes sete anos...
- Sete anos? Mas eu adormeci s cinco horas, num banco do 
jardim perto da Nieuw Heerengracht, roubaram-me durante o sono e 
vestiram-me um fato que nunca usei... j o repeti dez vezes!
Ferdinand Brox sorriu.
-        No tem qualquer razo para fazer o papel de uma pessoa 
que no est no pleno uso das suas faculdades mentais. Voc 
pregou-nos uma partida incrvel, desaparecendo durante sete anos. 
Deve reconhec-lo. Nada mais, visto que o dossier est encerrado. 
O resto s interessa  sua vida privada. Mas no escapar a esta 
pergunta: onde esteve de Junho de mil novecentos e vinte e trs a 
Junho de mil novecentos e trinta?
Pieter van Brouken fitava o inspector. Os seus olhos tornaram-se 
fixos, sem brilho.
-        Em que dia estamos ns? - perguntou Van Brouken em voz 
baixa e um pouco rouca.
- A vinte e nove de Junho de mil novecentos e trinta.
Ento Pieter van Brouken perdeu os sentidos. A sua cabea 
foi bater nos joelhos de Ferdinand Brox.
-        Depressa, ao Comissariado! - exclamou Ferdinand Brox. - 
Apanhmo-lo... pelo menos de momento.


A cidade de Amesterdo e, com ela, todos os Pases Baixos, 
tinham a sua "sensao"! As pessoas arrancavam, por assim dizer, 
os matutinos das mos dos vendedores. O caso de Pieter van 
Brouken levava a melhor sobre o noticirio poltico, o que nunca 
acontecera desde o aparecimento da rdio. E os jornalistas que 
representavam os grandes dirios europeus assaltavam o pequeno 
apartamento da Noorderstraat ou a Caixa Econmica de Amesterdo, 
para terem pelo menos a oportunidade de fotografar o homem que se 
tornara o maior enigma do seu tempo.
O Jornal de Roterdo publicava na primeira pgina, com o 
ttulo sublinhado a vermelho, um artigo sobre aquele caso, nico 
nos anais da criminologia e da psicologia:

O HOMEM QUE ESQUECEU O PASSADO

Talvez os nossos leitores se lembrem do enigma do 
desaparecimento, h sete anos, do funcionrio da Caixa Econmica, 
Pieter van Brouken, que adormeceu a 29 de Junho de 1923 num banco 
da Nieuwe Heerengracht, no voltando a ser visto desde ento. As 
investigaSes feitas pela Polcia levaram  concluso de que 
Pieter van Brouken se suicidara tomando uma forte dose de veneno 
antes de se precipitar num dos canais.
Ontem, ao fim de sete anos, exactamente a 29 de Junho, despertou 
no mesmo banco da Nieuwe Heerengracht um elegante estrangeiro de 
tipo meridional, que pretendia ser o mesmo Pieter van Brouken. 
No consegue recordar-se da existncia que viveu durante sete 
anos, no sabe onde esteve, sob que nome viveu, e mostra-se muito 
espantado por o sono que se apoderou dele em 1923 ter durado sete 
anos. A mulher e os vizinhos, a administrao da Caixa Econmica 
e todos os seus amigos atestam que se trata de facto de Pieter 
van Brouken. O desaparecido deve ter permanecido num pas do Sul 
da Europa, dado o seu tom bronzeado e o corte bastante meridional 
do fato. Ele no sabe de coisa alguma e ficou profundamente 
abalado ao ter conhecimento de que vivera uma segunda existncia. 
Encontra-se neste momento internado num hospital de Amesterdo 
com uma febre de origem nervosa. No consegue encontrar uma 
explicao para o que lhe sucedeu!
O professor Ratkoff do Centro de Pesquisas Psicolgicas de 
Haia, explicou-nos, a nosso pedido, que se trata de um caso de 
desdobramento de personalidade extremamente raro, com partilha da 
conscincia que permite levar duas existncias, s quais falta 
toda a espcie de reminiscncias.
A Caixa Econmica declarou-se pronta a reintegrar Pieter van 
Brouken, que foi sempre um funcionrio consciencioso, e a 
pagar-lhe os salrios que no recebeu durante a sua ausncia. De 
resto, vai ser enviado para uma estao balnear a expensas do 
estado e sob o alto patrocnio de Sua Majestade a Rainha.
Este caso sensacional tem assim uma concluso surpreendente. 
Prova que se manifestam entre os cus e a terra fenmenos 
surpreendentes que a cincia se recusa a admitir como 
verdadeiros.

Quando o comissrio-chefe Selvano leu pouco depois este 
artigo no seu jornal ilustrado de Lisboa, ficou calado e 
pensativo, mas logo de seguida telefonou a Primo Calbez:
- Calbez - perguntou com voz soturna -, leu o artigo sobre 
Pieter van Brouken?
-        Sim, chefe. - Primo Calbez nada mais disse, mas aquele 
"sim, chefe", era mais eloquente do que todas as palavras.

- Tenho muitas razSes para lhe pedir desculpa, Calbez -, 
acrescentou Selvano passado um momento. -        Tinha razo ao 
exprimir as suas suspeitas. Tinha razo em tudo! O seu faro no o 
enganou. Vou hoje mesmo prop-lo para o posto de comissrio. 
Esquea certas palavras duras que eu lhe disse quando discutimos 
este caso.
Depois desligou rapidamente.

Entretanto, Pieter van Brouken encontrava-se estendido numa 
das praias do mar do Norte. Ali brincava com a areia branca e 
quente das dunas, ou entretinha-se a procurar conchas, moluscos e 
alforrecas que a mar enchente trazia e abandonava na costa.
Ao chegar a noite, Pieter e Antje permaneciam juntos, 
estreitamente abraados, sentados num largo sof de junco,  
beira do mar, com os olhos presos no cintilar infinito.
- Como  maravilhoso voltar a estar junto de ti! - disse 
Pieter em voz baixa, cingindo contra o peito bronzeado a cabea 
loura de cabelos encaracolados de Antje. - Como  bom sentir a 
tua presena. E, segundo dizem, esqueci-te durante sete anos. No 
posso crer, Antje...
-        No penses mais nisso - respondeu a mulher, 
acariciando-lhe as plpebras como para afastar os pensamentos que 
constantemente lhe ocorriam. - Tu voltaste e eu estou sempre 
contigo, Pieter. De resto, no voltars a desaparecer... Porque 
eu segurar-te-ei... com todas as minhas foras.
Antje apertava-se contra ele como se o marido pudesse de novo 
desaparecer, e beijava ardentemente os seus lbios trmulos.
-        Tu sonhaste, Pieter... um longo pesadelo. Ainda bem que 
esqueceste esse sonho mau. Repara como o mar est luminoso e 
brilhante como prata! E aquele navio l ao longe... ests a 
v-lo, Pieter? Vai todo iluminado. Leva certamente muitos 
passageiros que iro percorrer o mundo, mas eu no queria trocar 
o meu destino com o deles... visto que te tenho...
E ela abraou-o de novo, encostando os seus caracis louros 
ao peito dele. Permaneceram sentados  beira-mar at tarde. 
Sonhavam. S quando o vento frio da noite comeou a soprar do mar 
sobre as dunas,  que eles atravessaram a erva dura em direco  
pequena cabana de pescadores, com telhado de colmo, onde estavam 
instalados.
Caminhavam lentamente, estreitamente abraados, de mos 
dadas. 
Os cabelos dourados de Antje esvoaavam com o vento, velando os 
olhos de Pieter.
Um homem reencontrara o seu passado.

Fim
??



 

 
